História

Artigo | 55 anos depois, massacre de Ipatinga segue tabu

Oito mortes, 102 feridos e pelo menos três desaparecidos é saldo de conflito entre Usiminas, trabalhadores e PM

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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“Parecia um cenário de guerra”, diz Geraldo Ribeiro, que na época era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos / Foto: Nilmar Lage

O leste de Minas Gerais possui um histórico de implantação siderúrgica desde os anos de 1930, com a chegada da Usina Barbanson (atual Acelor Mittal) em João Monlevade, distrito de Rio Piracicaba. A construção fazia parte dos planos de desenvolvimento industrial do então presidente do Brasil, Getúlio Vargas. Nos anos de 1940, depois da II Guerra, a demanda por aços especiais trouxe para o distrito de Timóteo, pertencente a Antônio Dias, a Companhia de Aços Especiais de Itabira (Acesita), hoje Aperam South America. E no final dos anos de 1950, com planos de metas de Juscelino Kubistchek, começou a implantação das Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas) no distrito de Ipatinga, município de Coronel Fabriciano.

As usinas traziam consigo um novo sujeito, os trabalhadores operários. Toda essa movimentação recebia certa atenção do governo, principalmente porque a região do ABC Paulista já começava a se destacar com os movimentos sindicais, coisa que não era vista com bons olhos por aqui.

Com todo o planejamento para que as forças operárias não emergissem e se organizassem na região, as empresas foram instaladas em áreas relativamente isoladas, onde não havia estrutura; a cidade foi se consolidando a partir da chegada das siderúrgicas. Mas como não eram cidades estabelecidas, havia a possibilidade de uma espécie de gerenciamento geográfico, que colocasse os operários braçais de um lado, engenheiros de outro. Assim seria possível dificultar o contato fora do horário de serviço e facilitar eventual controle de atividades também fora do expediente. Assim começava a surgir Ipatinga, um distrito planejado a partir do entorno da Usiminas.

A falta de infraestrutura, aliada às más condições de trabalho faziam com que os operários conhecidos como “chão de fábrica” da Usiminas vivessem em situação de estresse. Morando amontoados em alojamentos ou em pequenos cômodos de madeira que abrigavam a família inteira, a tensão era constante na região.

Helena Vieira morava em um desses cômodos e lembra como era difícil a rotina de atravessar longas distâncias a pé para ir à escola infantil, passando por uma mata que preocupava as famílias por causa dos altos índices de estupro. A falta de qualificação de mão de obra atingia várias áreas, mas a vasta oferta de empregos na região proporcionou, por exemplo, que trabalhadores rurais ganhassem status e poder sobre outras pessoas, tornando-se vigilantes da Usiminas. É o caso de Hélio Guimarães, que veio de Itabira, onde “só sabia tirar leite e fazer cerca”. Ele diz que não foi feito um treinamento adequado e mesmo assim se tornou vigilante. Os trabalhadores em geral faziam muitas críticas aos vigilantes da Usiminas; relatos de truculência e abuso de poder eram comuns.

 Conforme tese desenvolvida pelo professor Vagner Bravos, devido ao despreparo desses vigilantes e a situação econômica precária na região, a Polícia Militar fazia uma espécie de “âncora do serviço de vigilância da empresa, atuando em áreas onde eles não tinham qualificação”, o que garantia maiores rendimentos para os militares. Os problemas financeiros eram generalizados, fazendo com que muitos operários da Usiminas levassem para casa, como complementação da alimentação familiar, parte do lanche que recebiam no horário de trabalho.

Semana sangrenta

No dia 5 de outubro de 1963, na saída do turno da tarde, quando fazia a revista na saída dos trabalhadores, impedindo que levassem para casa o lanche que recebiam dentro da empresa, um vigilante sacou a arma e atirou no saco de leite de um operário. Foi a gota d’água em uma situação de humilhação que já vinha crescendo nas portarias. Assim, o conflito entre trabalhadores e vigilantes se estende para os alojamentos, para onde foi enviada a Polícia Militar da Usiminas, para conter os operários.

A resistência operária na região - que ficou conhecida como “Forte Santa Mônica”-  fez com que à noite houvesse nova investida da Polícia Militar, mais uma vez contida na parte alta do bairro. No entanto, nos alojamentos mais precários, que pertenciam às empreiteiras que prestavam serviço, o ataque foi consumado: cerca de 300 trabalhadores sofreram maus tratos a noite toda.

Em entrevista concedida para o documentário “Senta a Pua” (Nilmar Lage e Thiago Moreira – 2014), Geraldo Ribeiro disse que no início da noite do dia 6 de outubro, ele, enquanto presidente do Metasita (Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Timóteo e Coronel Fabriciano, que à época atendia também a Usiminas), convocou uma assembleia para discutirem sobre as condições inadequadas que os vigilantes da Usiminas proporcionavam aos trabalhadores e propor mudanças no quadro para melhorar o serviço.  Ao final da assembleia, ele ficou sabendo do que estava acontecendo no distrito de Ipatinga, quando a Polícia Militar deteve trabalhadores das empreiteiras.

A manhã do dia 7 começou com uma greve dos operários, que pediam principalmente a troca da conhecida Polícia Militar da Usiminas por tropas do Exército, para conter a instabilidade entre os trabalhadores e os serviços de vigilância da empresa. Do lado de fora, na portaria onde hoje fica um shopping, um caminhão com um policial militar de porte de uma metralhadora surgia diante da multidão de trabalhadores. Do lado de dentro, uma reunião que envolvia a direção da Usiminas, o sindicato, Polícia Militar e lideranças religiosas.

A situação não foi devidamente controlada e em um dado momento da reunião veio a ordem para que o policial atirasse. “Eles disseram que estava atirando para o alto, mas de vez em quando a gente via um cair, crivado de bala”, disse Adil Albano que mesmo após mais de 50 anos tentando esquecer o acontecido, não consegue.  Enias Ferreira foi atingido por um tiro de raspão no peito e foi colocado na carroceria de um caminhão com mortos e feridos. Hélio Mateus também tomou um tiro e a bala continua encravada na sua nádega. Clay Villian, dono e motorista do caminhão que carregava a metralhadora, diz que foi uma rajada de bala e que o soldado continuou atirando enquanto ele retirava seu caminhão do local e se dirigia para a Fazendinha, onde ficava a cavalaria da Polícia Militar.



O operário Enias Ferreira

Dinah Resende era enfermeira, e disse que os atendimentos aos feridos começaram no ambulatório que ficava próximo ao epicentro do que ficou historicamente conhecido como “Massacre de Ipatinga”. “Eu não lembro quantos eu atendi, talvez hoje eles se lembrem de mim né? Mas naquele dia foram muitos atendimentos”, lembra. Com o fim dos tiros, “parecia um cenário de guerra”, caracterizou Geraldo Ribeiro. Xavier na época era tenente e após ser noticiado do que estava acontecendo, veio de Governador Valadares e ao chegar foi questionado por um dos médicos que atendiam aos feridos: “o que você está fazendo aqui? Já não basta a desgraça que vocês fizeram?” E de lá, ele foi para o quartel da cavalaria, para inteirar-se da situação.

A enfermeira Dinah Resende

Rotas de fuga e decepção

Os relatos sobre os momentos do tiroteio sempre lembram que, no meio do desespero, as obras de tubulação e os trilhos da ferrovia ajudaram a salvar vidas, pois serviam como escudos e como rotas de fuga. Assim foi, por exemplo, com José Benedito. Natural de Mutum, veio para Ipatinga a convite de um amigo para trabalhar como ajudante de serviços gerais. No meio do tiroteio, pegou caminho de volta para sua cidade. “Larguei tudo para trás, roupas, documentos, tudo. E fui caminhando de Ipatinga até Governador Valadares. Em Baguari, próximo a Valadares, o trem passou por mim e eu tive que esperar até o outro dia para continuar até Mutum”. José Benedito lembra que ao chegar em Valadares sem documentos, foi questionado por um policial militar se estava fugindo da guerra da Usiminas. No dia 8 de outubro de 1963, ele pegou o trem para Mutum e só voltou em Ipatinga no início dos anos 2000.

Golpe e amnésia coletiva

Nos anos 60, o mundo fortalecia uma polarização entre os chamados de direita e de esquerda, ou os desenvolvidos do norte e os subdesenvolvidos do sul. No Brasil, o governo progressista de João Goulart enfrentava muitas críticas dos setores mais conservadores e crescia um movimento interno para derrubá-lo. Um dos principais mentores do golpe militar de 1964 foi Magalhães Pinto, à época governador de Minas Gerais. 

A região leste do estado era um ponto estratégico por causa do seu potencial siderúrgico, mas ao mesmo tempo, poderia tornar-se também uma referência sindical, o que não era de interesse para quem buscava minar resistências populares a um possível golpe de Estado. Essa foi uma das razões pela qual o governador negou algumas vezes pedidos para emancipação dos distritos de Ipatinga e Timóteo.  Contudo, havia interesses políticos da elite local para uma independência e consequentemente redistribuição de poderes nos distritos que cresciam.

Esse evento, que depois ficou conhecido como Massacre de Ipatinga, foi fundamental para que a elite regional conseguisse seus objetivos. De acordo com o pesquisador Vagner Bravos, foi firmado um acordo, uma moeda de troca, para provocar o esquecimento sobre o assassinato dos trabalhadores naquele outubro de 1963. O estado daria a emancipação dos distritos e seriam desenvolvidas estratégias para forçar uma amnésia coletiva. Assim, falar sobre o dia 7 de outubro era passível de punição caso fosse feito por um trabalhador da Usiminas (e essa retaliação se estendia a familiares diretos). Nos dias de “aniversários” do acontecido, nenhuma atividade era feita para manter viva essa memória operária. Quando diretamente questionados, a Polícia Militar, médicos e demais envolvidos negavam oferecer dados mais concretos sobre aquela manhã e os dias seguintes.

Esquecimento segue

Após tantos anos do acontecido e mesmo com algumas publicações sobre o tema, que vão de livros, teses, músicas, peças de teatro e documentários, o Massacre de Ipatinga não é tratado com o devido cuidado nas escolas da região. Seja da rede municipal, estadual ou particular, o padrão é não falar sobre o assunto, raros são os professores que abordam o tema em suas aulas. Por isso, é muito comum encontrar pessoas, principalmente jovens, que sequer ouviram falar do massacre e que se espantam ao descobrir que parentes próximos estavam entre os envolvidos.

Os envolvidos e envolvidas diretamente estão morrendo. São senhores e senhoras que estão na faixa acima de 70 anos e que nem sempre se dispõem a falar sobre o assunto, pois o medo de retaliações ainda os persegue. Mas graças àqueles que se permitem, existe um movimento de resistência à amnésia provocada. Esse grande vizinho que cerca a população de Ipatinga, apesar de tentar esconder seu passado, é parte marcante na vida da família de sete trabalhadores e de uma criança que são reconhecidos oficialmente como assassinados, além de pelo menos outros três desaparecidos e inúmeras dúvidas que pairam a 55 anos sobre essa região.

Oficialmente, foram oito mortos. Mas podem ter sido mais de 40

A realidade da época era essa: muitos trabalhadores vindos de diversas regiões do país em busca de um lugar que prometia ser próspero. Em alguns casos, vinham emendando uma obra na outra e suas famílias não sabiam seu paradeiro certo. Essa é uma das hipóteses sobre as dúvidas acerca do número total de mortos pelo massacre, pois as famílias não sabiam do paradeiro e não teriam como reclamar o corpo desaparecido. Os números oficiais falam de sete vítimas fatais no dia, uma no decorrer da semana – o operário e fotógrafo José Isabel morreu no hospital e segundo seu filho, Rossi do Nascimento “meu pai estava bem, o tiro que ele tomou foi na região lombar e os laudos apontam que ele estava bem, mas quem seria a testemunha dos fatos? Quem conhecia os policiais e seus nomes?”. Não são considerados também as 59 dispensas por abandono de trabalho, feita pela Usiminas, nos meses seguintes ou desaparecidos, como os três nomes trazidos pelo relatório da Comissão da Verdade em Minas Gerais. Segundo o jornalista Marcelo Freitas, as famílias de Fábio Rodrigues de Souza, Jesulino França de Souza e João Flávio Neto, desde o dia 7 de outubro de 1963 não tiveram mais notícias de seus parentes.  A dúvida sobre o número total de mortos é reforçada também por outros discursos de testemunhas da época, como o falecido padre Abdala que sempre relatava que contou mais de quarenta mortes ou o depoimento do motorista Larte Abelha. Ele diz que chegou em Ipatinga no dia 8 para descarregar mantimentos para o bandejão da empresa. “Na sequência fui mandado de volta para Belo Horizonte, para buscar 50 caixões e quatro tambores de sangue que deixei no almoxarifado da Usiminas”.  Onde estariam esses caixões? Para quem eles serviram? Poucas pessoas poderiam afirmar o destino dos mesmos, mas para a Usiminas, o silêncio sempre foi a resposta dada.

Rossi do Nascimento, filho de vítima do massacre

Mais fotos



O operário Adil Albano

Cley Villian, motorista do caminhão

O operário Jacaré

Helena Vieira, moradora



 

*Esse texto foi escrito com base em pesquisas feitas aproximadamente desde 2003.

*Nilmar Lage é jornalista e documentarista, nascido em 07 de outubro de 1981, sua curiosidade pelo Massacre começou antes de ingressar na faculdade de jornalismo, mas foi a partir de 2003 que começou a pesquisar mais sobre o tema e colecionar personagens que foram apresentados primeiramente no documentário “Senta a Pua”, que dirigiu em parceria com Thiago Moreira. Nilmar segue em pesquisa sobre o tema e possui entrevistas ainda inéditas nas quais apura pontos mal resolvidos nessa história. 

 



 

 

Edição: Joana Tavares