ELEIÇÕES

Polarização é uma expressão superficial da política, segundo professora da UNIRIO

Para Clarisse Gurgel, guinada conservadora na Alerj e segundo turno com Witzel no Rio são reflexos do cenário nacional

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Clarisse Gurgel é cientista social e professora do Departamento de Ciências Sociais da UNIRIO / Divulgação

O resultado das eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro no primeiro turno surpreendeu os cariocas e colocou um desconhecido do eleitorado na liderança. Wilson Witzel (PSC) disputa o segundo turno com Eduardo Paes (DEM) contrariando todas as pesquisas de intenção de voto. Romário (PODE) que figurava o segundo lugar, ficou atrás do candidato do PSOL, Tarsício Motta. Em entrevista ao Brasil de Fato, a professora do Departamento de Ciências Sociais da UNIRIO e cientista social Clarisse Gurgel comenta sobre a polarização artificial que impulsionou o fenômeno Bolsonaro nessas eleições.

Brasil de Fato: Professora, podemos interpretar o resultado das eleições para o governo do Estado do Rio de Janeiro como um reflexo do cenário nacional?

Clarisse Gurgel: Sem dúvida nenhuma é um reflexo do cenário nacional. O PSL, partido do Bolsonaro, conseguiu muitos espaços na Câmara dos Deputados federal e no Senado, o Rio de Janeiro elegeu o filho de Bolsonaro. Aquelas figuras dos santinhos, as dobradinhas que serviam até de colinha para o eleitor e que, não à toa, se instituiu agora com o grau de alienação política. Essa dobrada com o Bolsonaro produziu efeitos imediatos, na minha avaliação o eleitor estava muito polarizado em torno das eleições nacionais presidenciais e deixou para os últimos instantes a definição de qual seria seu candidato para o governo. Essa manifestação do voto no Witzel é desse eleitor que estava atento ao fenômeno Bolsonaro e que na hora de manter sua coerência elegeu o candidato do Bolsonaro que, sem dúvida, contava com santinhos que serviam de cola, instituídas pelo governo Michel Temer. É uma surpresa muito grande para o eleitor, que demostra que o tempo de TV não conta e que o MDB, outrora PMDB, de fato sofreu abalos no Rio de Janeiro, mas sinaliza acima de tudo para o papel do Bolsonaro e das fantasias na política. O fato do Witzel ser um juiz fortalece essa fantasia de alguém novo, fora da sujeira da política, mais técnico, imparcial e que seria encarregado de não fazer política porque hoje governar não é fazer política, é administrar, no imaginário das pessoas. Como se governar não fosse, na sociedade em que a gente vive, tentar a todo custo conter um conflito estrutural do sistema que a gente vive. Que é o conflito entre os que trabalham arduamente e os que vivem do trabalho alheio, e que cada vez mais está tensionado.

É muito importante entender essa questão do imaginário. Na Alerj, nós temos uma bancada com uma guinada ainda mais conservadora, e a segunda maior bancada é para a esquerda com propostas de renovação. A gente também tem o elemento das mulheres eleitas com o legado de Marielle e que não podemos deixar de lado…

Isso é uma expressão da tal polarização, só que a gente tem uma tendência a tratar essa polarização como radicalidade. Radicalidade vem da ideia de ir à raiz das coisas, e talvez e gente não esteja sendo radical na hora de analisar a polarização que está se dando. Se a gente for radical, vamos perceber que nenhuma das polarizações vai à raiz. Temos uma bancada fortemente conservadora do PSL e dos partidos fisiológicos. Esses partidos fisiológicos conseguiram escapar das cláusulas de barreira impostas pela recente reforma política graças ao PSL e ao fenômeno do Bolsonaro. Outra coisa que não pode passar despercebida é a não eleição do Romero Jucá, que era líder de qualquer que fosse o governo, o que significa dizer que o pilar de articulação do modelo de governar caiu. E que pilar é esse? É um pilar que sustenta o mínimo de legalidade e parece que está rompido. O Lula e a Dilma eram governantes que como o próprio Lula diz, foi o maior conciliador de classe da história do mundo. Ele fez concurso público para classe média, manteve e ampliou projetos de assistência social como bolsa família, e liberou para fusões, parcerias público-privadas, OSs, que significavam precarização do trabalho e aumento do lucro das grandes empresas. Então ele favoreceu todas as classes sociais, os trabalhadores, a classe média e o grande empresariado. Acontece que isso vai emperrando o ritmo de reformas que precisam ser implementadas para conter a queda de lucro da burguesia, que é inevitável. Quanto mais eles investem com máquinas e colocam o povo na rua desempregado, transforma o desempregado em agora ele mesmo o empreendedor responsável por empregar pessoas, quanto mais ele faz isso, mais as pessoas não consomem e mais não conseguem fazer valer o investimento que fizeram em máquinas. Isso faz com que o lucro do empresariado caiu, e agora o capital está desesperado fazendo com que aqui e em qualquer país periférico as reformas que deixam o trabalhador mais barato e o empresariado mais liberado para explorar sejam feitas com mais rapidez.

Essa radicalização, no melhor sentido da palavra, serve para gente tentar entender o cenário com o qual o Brasil e o Rio de Janeiro se deparam hoje, entender e se posicionar a respeito. Não é?

O ponto é que agora é preciso estabelecer uma polarização artificial que dialoga com as angústias de qualquer sujeito. Que angústias são essas? Angústias de contradições até sobre nossa sexualidade e nossos desejos mais íntimos e angústias que dizem respeito às questões mais externas: que mundo é esse que nos obriga todo tempo a fazer dinheiro? Que mundo é esse que nos faz torcer para que o mês acabe e a gente possa viver esse mês? Que mundo é esse? Essas angústias precisam de alguma coisa ou alguém que dê vazão a elas, e o capital, não é à toa, encontrou seu parceiro que são os ricos do Brasil para ecoar uma polarização que elegesse a encarnação do mal absoluto no Brasil: o PT e o Lula. Assim os ricos ecoaram esse imaginário que se qualquer um parar pra elaborar vai entender que não há grande diferença entre Lula e Fernando Henrique Cardoso, e se há são diferenças que melhoraram a vida da classe trabalhadora. Essa massa angustiada não quer elaborar e refletir, ela quer se agarrar a essa encarnação do mal onde ela vai projetar e extravasar suas angústias inclusive no campo da sexualidade. Os pobres caíram de carona dessa onda muito mais pelas pautas morais do que pelas pautas econômicas porque se forem parar para pensar, desde Michel Temer que a pobreza e o desemprego cresceram.

As pautas morais, as pautas religiosas, numa confusão muito cruel na cabeça dos eleitores e eleitoras, que é moral.

Exatamente! Você vê um trabalhador pobre cearense, visivelmente calejado de tanto trabalhar que devia estar descansando na aposentadoria e que perdeu na marra e está prestes a perder mais com o próprio Lula e com o Michel Temer, mais com o Michel Temer e com o que virá. Esse cearense calejado pelo sol do nordeste na labuta votando em Bolsonaro, esse grau de alienação só se explica pela necessidade que a classe trabalhadora teve de pegar carona numa onda pensada racional de forjar a encarnação desse mal para expurgar aqueles que ainda trabalhavam com a conciliação de classe, tentando conter a classe trabalhadora e o empresariado, ele mina essa figura e agora coloca uma que não vai ter nenhum limite para implementar as reformas que vão elevar as taxas de lucro do empresariado. Se eles romperam com a legalidade, a gente vai trabalhar com a legitimidade, votar pesado no Haddad mesmo aqueles que não gostam. Vote nulo ou Haddad. Se não gosta do PT vote nulo. Pra ser contra o PT não precisa fascismo, tem outras alternativas. É com legitimidade e o voto em peso contra qualquer forma de fascismo para a gente ter condições de ir pra rua e dizer: isso nós não escolhemos.

Edição: Mariana Pitasse