Futebol

Torcidas cariocas unificadas lançam manifesto em defesa da democracia

Plenária mobilizou torcedores em prol de uma agenda coletiva de lutas até o segundo turno

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Representantes do principais times cariocas marcaram presença como Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense e América / Brasil de Fato/RJ

Cerca de 50 representantes das principais torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro se reuniram na noite da última quinta-feira (18) para uma plenária que celebra a união das arquibancadas contra a perda de direitos e a criminalização de torcidas e movimentos populares. Para Bernard Brito, do Coletivo Tricolores de Esquerda e do Coletivo Torcedores pela Democracia, a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) é sinônimo de mais ações contra as torcidas organizadas.

“Existe um projeto de um aliado dele, Major Olímpio, que é a favor da repressão maior nos estádios”, explica Brito. “Nós fizemos uma plenária unificada de coletivos de torcedores, membros de torcidas organizadas e movimentos de futebol, um manifesto declarando o voto no Haddad e estamos nos unindo para fazer várias atividades até o dia 28”, destacou.

Bernard se refere à atuação do Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe), que pode ficar ainda mais violenta caso a proposta do candidato do PSL - a excludente de ilicitude - passe a valer dando retaguarda jurídica para a polícia matar em serviço sem ser punido ou responsabilizado pelo ato. E também do projeto de lei do deputado federal eleito pelo estado de São Paulo, Major Olímpico (PSL), que prevê a extinção das torcidas organizadas.

Vitória Oliveira é estudante de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), integra o Movimento Guerreiros do Almirante (GDA), do Vasco da Gama, e também faz parte do Mulheres de Arquibancada (MDA), que luta pelo direito das mulheres nos estádios e tem como lema resistência e empoderamento. Ela lembra que os dois movimentos dos quais faz parte são apartidários, mas isso não quer dizer que são apolíticos. “Nesses momentos em que a gente precisa de uma resistência maior contra uma onda muita conservadora que beira o fascismo precisamos nos posicionar”, afirmou a estudante.

Para ela, o futebol está voltando a ser das elites que querem a criminalização do torcedor, por isso a importância de se fortalecer enquanto núcleo. “A gente acha que a ação conservadora nunca vai chegar aos estádios, mas chegou. Vemos torcidas fazendo cantos racistas no Brasil. Precisamos estar nas trincheiras conversando com o povo que hoje em dia não tem dinheiro pra frequentar o Maracanã”, declarou.

Do Coletivo Popular Alvinegro, Diogo Cavalheiro leciona Filosofia na rede estadual de ensino e também defende o futebol como parte da cultura popular. “Somos contra a elitização e reivindicamos que haja uma real popularização do acesso ao estádio não só com relação ao preço, mas também ao horário dos jogos, por exemplo, coisas que facilitam o acesso daqueles que têm menor poder aquisitivo”, apontou o professor.

O coletivo, segundo Cavalheiro, também atua no sentido de combater o preconceito para as pessoas que não se sentiam à vontade nos estádios - como mulheres e homossexuais - possam frequentar com mais tranquilidade os jogos.

Rosana da Câmara Teixeira é rubro-negra, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Laboratório de Educação e Patrimônio Cultural (Laboep-FEUFF) e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Esporte e Sociedade (Nepess-UFF). Ela considera a plenária fundamental nesse momento dramático da história política brasileira. A união das torcidas em prol de uma agenda de luta comum independente das diferenças, segundo ela, traz esperança de atrair torcedores indecisos e que podem fazer uma melhor avaliação do quadro político e do que está sendo colocado nesse momento.  

“Na verdade nós temos uma disputa que não é exatamente partidária, ela é entre democracia e fascismo. A participação de coletivos, torcidas organizadas e todos os torcedores de futebol nesse momento é fundamental pra demostrar que o futebol é sim lugar de política, militância, organização, festa, mas é também o lugar da mobilização coletiva e da defesa da democracia e dos direitos sociais que neste momento estão em risco”, comenta.

 

Leia o manifesto completo:

 

Manifesto de torcidas e torcedores/as em defesa da democracia

Nós, torcedores e torcedoras cariocas, ligados às torcidas organizadas e coletivos de torcedores/as que representam os clubes do estado do Rio de Janeiro ou simplesmente apaixonados/as pelo futebol e unidos/as por um ideal comum: a manutenção do Estado Democrático de Direito, isto é, a defesa dos direitos humanos, a garantia de que os governantes respeitem a vontade popular, a proteção jurídica a todos/as os/as cidadãos/ãs com base na Constituição, apresentamos este manifesto contra a candidatura que representa iminente ameaça a estes valores e à cultura do futebol.

Acreditamos que representamos aqueles/as que fazem da arquibancada um espaço democrático e uma celebração da alegria, que não se curvam e nem se curvarão à elitização do futebol (ingressos caros, jogos em horário incompatível com a realidade dos trabalhadores/as, entre outras ações com este fim), tampouco ao machismo e assédio contra a mulheres, nem à criminalização das torcidas e movimentos populares.

É preciso refutar com firmeza a mentira de que futebol e política não se misturam. Essa ideia é usada por aqueles que tentam, a todo custo, apagar a memória viva da população brasileira. Não nos esqueçamos jamais que da arquibancada lutamos e resistimos nos tempos mais difíceis da história desse país. Nossas torcidas organizadas, genuínas representantes da paixão de torcer surgiram, em grande parte, no auge da ditadura militar iniciada em 1964. Infelizes são aqueles que colocam sob sombras a importante relação entre futebol, torcedor/a e política. Desejamos, por meio deste movimento, contribuir para o resgate da origem popular, progressista e de resistência que caracteriza essas torcidas!

Por isso, ressaltamos que a ascensão do discurso de ódio fomentado por um candidato ao cargo de Presidente da República, aliada ao alarmante número de homens e mulheres que apoiam e propagam suas ideias, ensejou que nos mobilizássemos para a criação deste documento. Ocupando o lugar de torcedores/as, minoria em muitas vezes marginalizada e desvalorizada, temos a obrigação de resistir a qualquer postura autoritária que fere nossa existência, seja nos estádios, seja no dia-a-dia. Afinal, as minorias não precisam escolher entre se curvar ou desaparecer. Elas podem, unidas, lutar contra a opressão e manterem-se vivas!

Partimos da premissa que, enquanto classe, devemos defender e lutar por nossos direitos, os quais são levados ao esquecimento com frequência. Devemos preservar traços fundamentais da nossa cultura, aquela fundada sobre cimento, a cultura de arquibancada. Devemos, deste modo, dizer NÃO a qualquer postura ou discurso que coloque em risco a diversidade, as nossas formas de expressão nos estádios (com bandeiras, faixas, bateria, cantos, hinos, etc), a participação de crianças torcedoras nos estádios pela falta de infraestrutura e uma sociedade culturalmente rica.

Ademais, ser omisso diante de propostas que atacam impiedosamente direitos e garantias das minorias, da massa trabalhadora assalariada e inclusive de nós, torcedores/as, é compactuar com o massacre cultural que está por vir. Afinal, será consumada a intenção de enterrar a paixão de torcer junto às memórias e cinzas de um passado de ouro, de luta popular. Passado esse que poderá ser apagado, junto à derrubada da nossa democracia, tão recente, simbólica e, ao mesmo tempo, frágil em tempos de crise, quando o discurso de cunho fascista, baseado na crença da superioridade de um ser humano sobre o outro, no ódio ao diferente e submissão do povo a um líder autoritário que ganha força.

Convidamos, a partir desse manifesto, que todos os torcedores e torcedoras que valorizam a cultura pela qual se unem, que sabem quão preciosa e importante é a democracia para construção de um Estado igualitário, estável e soberano, sejam, daqui em diante, pilares na luta pela preservação do Estado democrático, construído por tanta luta, suor e sangue. É preciso resistir ao fascismo e lutar em favor da democracia. Por isso, repudiamos a candidatura de Jair Bolsonaro e apoiamos a chapa Fernando Haddad e Manuela D’Ávila à Presidência da República.

Paz entre nós, resistência ao fascismo!

Assinam este Manifesto:

ANARCOMUNAMÉRICA

ANATORG

CASTORES DA GUILHERME

COLETIVO CHICO GUANABARA

COLETIVO POPULAR ALVINEGRO

COMUNA RUBRO NEGRA

ESQUERDA RUBRO NEGRA

ESQUERDA VASCAÍNA

FLAMENGO ANTIFASCISTA

FLAMENGO DA GENTE

FLUMINENSE ANTIFASCISTA

FLUMUNISTAS

FRENTE INTERNACIONALISTA DOS SEM TETO

INSTITUTO HENFIL

MENGÃO FORO ANTI-GOLPISTA

MULHERES DE ARQUIBANCADA

RESISTÊNCIA RUBRO NEGRA

TORCEDORES PELA DEMOCRACIA

TRICOLORES DE ESQUERDA

VASCAÍNAS CONTRA O ASSÉDIO

Edição: Jaqueline Deister