Pernambuco

Dois dias depois da UFPE, nova carta com ofensas a professores é divulgada na UPE

Documento lista nominalmente professores, disciplinas e cursos, e defende Bolsonaro, Ustra e projeto Escola Sem Partido

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Documento foi divulgado na UPE e logo passou a circular nas redes sociais / Divulgação

Nesta quinta-feira (8), uma carta intitulada “A doutrinação vai acabar” foi distribuída e divulgada nas redes sociais, listando nomes de docentes e pesquisadores da Universidade de Pernambuco (UPE). Sem assinatura, a mensagem traz ofensas e ameaças a profissionais e estudantes da Universidade, acusando-os de “doutrinadores”, “comunistas”, “gayzistas”, entre outras insultos. Além dos nomes de alguns professores, também é defendida a perseguição a alguns cursos de graduação, como Pedagogia e História. O pedagogo Paulo Freire, patrono da Educação Brasileira, e seu método educativo também são menosprezados no documento. 

Apesar de se tratar de um documento anônimo, os autores se autodeclaram como “soldados do Mito”, em uma referência ao apelido cunhado ao presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) por seus apoiadores. A carta também sai em defesa do projeto Escola Sem Partido e traz menção ao torturador da Ditadura Militar Coronel Brilhante Ustra, que coordenou mais de 500 sessões de tortura em pessoas que lutavam contra o regime militar no Brasil. Brilhante Ustra coordenou o DOI-codi do II Exército em São Paulo entre 1970 a 1974, período no qual foram registrados ao menos 45 mortes e desaparecimentos forçados, segundo a Comissão Nacional da Verdade. Falecido em 2015, Ustra foi o primeiro militar a ser processado no Brasil, mas nunca chegou a ser punido pelos seus crimes. 

Em conversa com o Brasil de Fato PE, a historiadora e professora Janaína Guimarães, referida nominalmente no documento, falou que os professores citados já estão cientes do acontecido e que irão entrar com uma ação no Ministério Público, a partir da Seção Sindical dos Docentes da Universidade de Pernambuco (ADUPE), representação da categoria, para pedir medida protetiva na Universidade. “Iremos fazer atos e tomar atitudes. Enquanto houver legislação, enquanto houver Constituição, a gente vai estar aqui reagindo. Estaremos na resistência sempre, em defesa da escola e da educação de qualidade”, reforça.

A professora afirmou que esse movimento de censura às suas aulas por parte de alguns estudantes já vem acontecendo desde 2016, quando ela ainda era professora do campus Petrolina, e chegou a tomar medidas judiciais contra ex-alunos que lançaram carta assinada por eles, difamando sua imagem profissional. Além disso, para Janaína, o documento divulgado na UPE vem inspirado no movimento iniciado essa semana na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), quando outra carta anônima foi divulgada atacando alunos e professores da universidade federal.

Escola Sem Partido

Janaína, que é integrante da Frente Escola Sem Mordaça de Pernambuco, também chamou a atenção para o fato desse movimento de estudantes vir influenciado pelo projeto Escola Sem Partido, abertamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro. Na opinião da docente, o projeto é uma tentativa de tornar escolas e universidades espaços impotentes. “Querem transformar a escola em um lugar onde não se façam discussões que são prescritas pela nossa Constituição. A gente não pode trabalhar na escola e na universidade sem discutir desigualdade social e das relações de poder, porque nossa sociedade é eminentemente desigual. A Constituição diz que nossa obrigação é diminuir essa desigualdade. Então, na verdade, [o Escola Sem Partido] é um projeto excludente de sociedade, que vê na escola e nos professores os seus grandes inimigos de construção ideológica”, conclui.

 

Edição: Monyse Ravena