Discriminação

"Não vamos conseguir superar o racismo sem que toda a sociedade assuma isso"

Ana Carolina Dartora discutiu o enraizamento do racismo no Brasil em roda de conversa na Vigília Lula Livre

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Dartora afirma que é preciso que "as pessoas brancas reconheçam seus privilégios e abram mão deles” / Joka Madruga / PT Nacional

Pautar o racismo como um problema atual, que envolve a sociedade como um todo, tem sido um dos maiores desafios do movimento negro. É o que defende Ana Carolina Dartora, professora de História na rede estadual de ensino do Paraná, mestra em educação e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

Nesta terça (20), dia em que se celebrou a Consciência Negra, Dartora esteve na Vigília Lula Livre, em Curitiba, para uma roda de conversa sobre o enraizamento do racismo na sociedade brasileira. Para a professora, o primeiro desafio que o movimento negro tem conseguido superar é o da construção de identidade própria. Ela entende que os esforços do movimento para resgatar a história do povo negro fortaleceram a consciência sobre o que é ser negro no Brasil. O próximo passo, agora, é “recolocar o debate, para que as pessoas brancas reconheçam seus privilégios e abram mão deles”.

“Um dos maiores desafios que o movimento negro tem hoje é recolocar o debate colocando essa questão da branquitude. A branquitude moldando as relações, como a branquitude determina lugares na sociedade, como a branquitude se protege, como cria estratégias, discursos para continuar perpetuando seus privilégios”, explica.

De acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população negra representa 114,8 milhões de brasileiros, mais da metade da população total – 207,1 milhões de habitantes. No entanto, na parcela mais pobre, com renda média familiar de R$130 por pessoa, negros e negras equivalem a 76%.

“A gente não vai conseguir superar o racismo no Brasil sem que toda a sociedade assuma isso. É preciso que a gente adquira vocabulário para falar sobre racismo, é preciso que você, enquanto branca, saiba falar de racismo, assim como eu, enquanto uma mulher negra, também saiba falar de racismo. Só assim a gente constrói equidade, igualdade, unindo as vozes”, acrescenta Dartora.

Discussão revolucionária

Além do recorte de cor, a desigualdade social no Brasil tem gênero. Conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 7,4% das mulheres negras brasileiras vivem em situação de extrema pobreza e 13,4% em situação de pobreza, enquanto que entre as brancas, 3,1% estão em situação de extrema pobreza e 5,5% em situação de pobreza. Em relação à escolaridade, apenas 5,2% das mulheres negras alcançam o ensino superior, quase 13 pontos percentuais a menos que as brancas.

As mulheres negras são também os principais alvos de violência. De acordo com o diagnóstico de homicídios no Brasil, do Ministério da Justiça, elas têm duas vezes mais chances de serem assassinadas que as brancas, e representam 67,8% das mulheres mortas por agressão.

Para Ana Carolina Dartora, o feminismo negro é um dos movimento mais organizados no Brasil e tem conseguido pautar um debate revolucionário. Ela entende que, mesmo que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) promova uma pauta de retirada de direitos, as mulheres negras continuarão construindo a resistência.

“As mulheres negras realmente estão na base da sociedade brasileira. São elas que estão nos piores empregos, são elas as primeiras impactadas com a violência, com a precarização do trabalho. Mas eu sinto que é um movimento que está bem organizado e a perspectiva, apesar de Bolsonaro, é continuar fazendo a resistência. Enquanto mulher negra, a palavra resistência é histórica. Resistir é nossa maior capacidade e é o que a gente vai continuar fazendo”, diz Dartora.

A Vigília Lula Livre tem promovido debates, rodas de conversa e manifestações artísticas desde abril, quando ocorreu a prisão arbitrária do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira