RECONHECIMENTO

Muquifu, Museu dos Quilombos: onde nossa história tem valor

Em BH, museu no Morro do Papagaio expõe histórias das favelas e quilombos do estado

Belo Horizonte

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Na parede do museu, o menino Jesus divide a cena com doutores da lei e a conhecida mulher negra da comunidade do morro do Papagaio / Reprodução

Diante de uma sociedade discriminatória - em que se elegem patrões e eliminam-se trabalhadores, que expurga dos grandes centros para as periferias os ditos indignos - o Museu dos Quilombos é um grito dos excluídos. A frase “onde nossa história tem valor” é de Lourdinha Lima, cuidadora de idosos e moradora do Morro do Papagaio.

Essa frase, que é também um grito, não é apenas emitida da periferia. É um grito emitido por uma mulher, portanto carrega no colo uma herança cultural machista e misógina, que a coloca como inferior. Lourdinha, além de ser mulher, é negra. E ser negra é escutar ainda hoje o som estridente do chicote que ecoa do centro para a periferia, é ser sabotada, é ser a malandrinha que nasceu para o trabalho duro. É também ser do samba, do quilombo e ser do Muquifu. É por essas e outras determinações que a história da mulher, do negro, do indígena se torna história de valor, de resistência e de luta.


A arte é manifestação do espírito aguerrido de um povo


É neste sentido que o “Museu Muquifu”, em Belo Horizonte, é um espaço de valorização de uma história condenada pela sociedade. O “Museu dos Quilombos e Favelas Urbanas” fica no Morro do Papagaio, na zona sul da cidade, ao lado do templo sagrado das “Santas Pretas”, que é também um espaço de resistência.

Ao pisar nesse solo sagrado me deparei com a arte sendo expressa em traços marcantes numa mistura de cores e vida periférica. Percebe-se a arte como manifestação do espírito aguerrido de um povo.

Na parede do templo, das Santas Pretas, inscreve-se a conhecida cena do menino Jesus em meio a doutores e mestres da lei. Contudo, na imagem do Muquifu, está uma mulher em meio àqueles homens, uma mulher negra. O menino Jesus esboçado na parede é aquele que divide a cena em dois lados, de um lado há os doutores da lei e de outro lado há a conhecida mulher negra da comunidade do morro do Papagaio, que está viva e no meio de nós.

Chama atenção o fato de a mulher e doutores estarem ancorados por um livro aberto. Entretanto há uma sutil diferença no ornamento dado à mulher, apenas no seu livro as letras estão escritas. O que nos leva a repensar o papel da mulher hoje e, principalmente, o da mulher crescida na periferia.

Nessa perspectiva, podemos pensar no processo de emancipação da mulher como sujeito de dignidade e liberdade na sociedade atual. Não como uma muleta para o homem, mas como sujeito de ação. É sabido que ao longo da história as mulheres sofreram e ainda sofrem a discriminação ou diminuição do seu ser. Nessa pintura vemos a mulher sendo reconhecida, não apenas dentro da Igreja, mas fora da Igreja, na sociedade, pois aquela mulher traçada na parede do templo é uma mulher da comunidade que se tornou sujeito de ação e emancipou-se. É um exemplo para que as demais possam fazer o mesmo. Aquela mulher é a primeira da comunidade a cursar um curso superior e se doutorar.

Que os leitores visitem o espaço “Muquifu”, um museu na periferia de Belo Horizonte onde nossa história tem valor.

Vitor Vinicios da Silva é graduando em filosofia no Instituto Santo Tomás de Aquino

Edição: Joana Tavares