JUSTIÇA

Antigo prédio do DOPS em BH receberá Memorial dos Direitos Humanos

Local, que foi centro de tortura durante a ditadura militar, recebeu ex-presos políticos nesta semana

Belo Horizonte

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Prédio Dops, na avenida Afonso Pena, recebe ato por direitos humanos no aniversário de 53 anos do golpe militar, em 2017 / Lidyane Ponciano / CUT Minas

Fechada há aproximadamente um ano, a antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (Dops-MG), no Centro de BH, dará lugar ao Memorial dos Direitos Humanos. O prédio, que na ditadura militar funcionou como centro de detenção, tortura e assassinato, passará por uma reforma, a partir de dezembro, com recursos do Fundo Estadual de Direitos Difusos (Fundif).

“Os centros de memória, quando instalados, possibilitam à sociedade conhecer o que um dia se configurou como violação de direitos. Essa história pode vir para a área externa do conhecimento e permitir a não repetição do que aconteceu”, comenta a pesquisadora Vanuza Nunes, diretora de Verdade e Memória da Secretaria de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac).

Na terça-feira (4), a Sedpac, em parceria com o Centro de Justiça de Transição da UFMG, encerrou um ciclo de visitas guiadas ao imóvel. Além de estudantes e pesquisadores, estiveram presentes perseguidos políticos da ditadura militar. Entre eles, o psicanalista Jorge Pimenta Filho, ex-integrante da Ação Popular. Ele ficou detido no local entre janeiro e março de 1974, sendo depois transferido para outras unidades. Na sede do DOPS, o psicanalista foi torturado com choques elétricos, pau de arara e afogamentos.

“Aqui foram presos muitos trabalhadores: bancários, metalúrgicos, camponeses, índios, quilombolas e também o pessoal do movimento de favelas de Belo Horizonte. Nos anos 60, havia um movimento muito importante por moradia e dignidade e eles foram presos. Então, isso aqui foi um órgão de repressão aos movimentos sociais”, relata Jorge.

Atingir a alma: objetivo da tortura

O operário Sálvio Humberto Penna foi preso no dia 7 de dezembro de 1971 em sua residência, na Cidade Industrial, juntamente com sua esposa, recém-operada em um parto com fórceps, e o filho de apenas cinco dias. Encaminhado ao último andar do Dops, Sálvio atravessou longas sessões com choques elétricos, pancadas, queimaduras e tortura psicológica. O operário ficou detido no local até março do ano seguinte, quando foi encaminhado à Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora.

Sálvio conta que o objetivo central da tortura era atingir a alma do militante, destruindo-o como pessoa. “Não era o fato de serem maus que os fazia torturadores, eles eram agentes públicos e a tortura era política de Estado para, além de arrancar informações, destruir a pessoa que resistia ao regime, fisicamente, moralmente, psicologicamente. A intenção era chegar à alma da pessoa”, recorda o operário. No Dops, era praticamente impossível organizar uma resistência coletiva.

“Na medida em que você ficasse isolado, não podia encontrar com outros presos, tinha que montar esquemas pessoais de resistência. Nos períodos de medo, apreensão, sentimentos de derrota, tinha que trabalhar o sentido de que aquilo era um resultado da luta assumida lá fora. Usar o que se leu nos livros, depoimentos de outras pessoas, a história da luta no mundo. Era muito duro, mas a gente tinha que resistir para não ser destruído”, comenta.

Já na cadeia, segundo ele, era possível organizar uma resistência mais coletiva. “Aí, junto com outros presos políticos, criamos ações, praticávamos esporte, cursos de formação e leitura, pré-vestibular, supletivos. A gente tentava que a cadeia não fosse o nosso túmulo, mas um lugar onde a gente também resistisse”, conclui.

Mostra de Direitos Humanos

O antigo prédio do Dops, futuro Memorial de Direitos Humanos, recebe, entre os dias 10 e 14 de dezembro, a II Mostra de Direitos Humanos. A abertura acontece na segunda-feira (10), com a cerimônia de entrega do Prêmio Mineiro de Direitos Humanos. A programação do evento também conta com apresentações musicais, performances artísticas, sessões comentadas de filmes e um ato em homenagem aos presos políticos, mortos e desaparecidos.

Confira a programação completa: bit.ly/MostraDH18

Endereço: Av. Afonso Pena, 2351. Centro, BH

 

Edição: Joana Tavares