VIOLÊNCIA

Polícia prende milicianos suspeitos de participarem de morte de Marielle e Anderson

Mãe e esposa de ex-PM suspeito de comandarem execução trabalharam até novembro em gabinete do filho de Jair Bolsonaro

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

,
Assassinato de vereadora envolve "políticos e agentes públicos", disse ex-ministro da Segurança Raul Jungmann / Dayane Pires/CMRJ

A polícia prendeu nesta terça-feira (22) suspeitos de participarem de morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes: o tenente reformado Maurício Silva da Costa, o major Ronald Paulo Alves Pereira, e os milicianos Laerte Silva de Lima, Manoel de Brito Batista e Benedito Aurélio Ferreira Carvalho.

Chefe da milícia de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio de Janeiro, e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Adriano Magalhães da Nóbrega também está entre os alvos da operação Os Intocáveis, deflagrada nesta terça-feira (22). A ação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e a Polícia Civil, tem relação com o assassinato em março do ano passado da vereadora Marielle Franco (Psol).

O miliciano já recebeu uma homenagem de autoria do então deputado Flávio Bolsonaro (PSL), proposta na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), em 2003, por sua “dedicação, brilhantismo e galhardia”, segundo o filho do presidente Jair Bolsonaro. Segundo reportagem do jornal O Globo, até novembro do ano passado, a mãe e a mulher do miliciano trabalhavam no gabinete de Flávio, na Alerj. Adriano teve prisão decretada, mas é considerado foragido. Outro miliciano preso na operação, o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira também já foi homenageado por Flávio Bolsonaro.

A milícia de Rio das Pedras é considerada a organização criminosa mais forte e mais perigosa a atuar no Rio de Janeiro. Os criminosos são acusados de homicídios, ocultação de bens vindos de atividades ilegais por meio de “laranjas”, falsificação de documentos, pagamento de propina a agentes públicos, agiotagem, uso de ligações clandestinas de água e luz e uso da força e demonstração de poder como meio de intimidação.

Nesta segunda-feira (21), quando a operação contra a milícia ainda não havia sido deflagrada, o jornal O Globo informou que Fabrício Queiroz, o ex-motorista de Flávio Bolsonaro, se escondeu em uma casa na favela de Rio das Pedras em dezembro do ano passado, logo depois de vir à tona o escândalo das movimentações bancárias de R$ 7 milhões. As operações foram descobertas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Uma das interrogações da imprensa e do Ministério Público no caso que envolve os depósitos em contas de integrantes da família Bolsonaro diz respeito ao rápido crescimento do patrimônio de Flávio Bolsonaro. Reportagem do jornal “Folha de S.Paulo” desta terça-feira (22) mostra que, ao contrário do que o senador eleito afirma, sua evolução financeira teve início antes dele se tornar empresário.

O atual presidente da República Jair Bolsonaro (PSL), que frequentemente elogia torturadores da ditadura militar, sempre defendeu como deputado federal pelo Rio de Janeiro a atuação das milícias. Bolsonaro já afirmou que “o crime de extermínio (praticado por milicianos) será muito bem-vindo”. 

“Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”, disse Bolsonaro, em um de seus discursos na Câmara Federal, contrariando todas as estatísticas do alto índice de violência contra moradores em comunidades onde milicianos atuam.

Já o senador eleito Flávio Bolsonaro, no alvo de investigações do Ministério Público, votou contra a instalação da CPI das Milícias, em 2007, como deputado estadual. O herdeiro de Bolsonaro foi além e chegou a propor um projeto de lei para regulamentar a atividade das “polícias mineiras”. “Dizem que as milícias cobram tarifas, mas eu conheço comunidades em que os trabalhadores fazem questão de pagar R$ 15 para não ter traficantes", afirmou Flávio Bolsonaro, à época.

O assassinato da vereadora Marielle e do motorista Anderson Gomes completará um ano em março. Nos últimos meses do governo de Michel Temer, o então ministro da Segurança Pública Raul Jungmann, ao ser pressionado para dar solução ao caso, afirmou que a morte da parlamentar envolvia “sem sombra de dúvida, políticos e agentes públicos”. Desde então, nada mais foi dito sobre quem seriam os políticos implicados no crime.

Edição: Mariana Pitasse