TRADIÇÃO

Carnaval e política, Eu Acho é Pouco se prepara para mais um ano de folia em Olinda

Há 42 anos, o bloco que nasceu como oposição á ditadura militar hoje continua como costume passado entre gerações

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Bloco sai aos sábados e terças de carnaval em Olinda / Aurélio Velho

São 65 músicos, quatro bonecos, um estandarte, um dragão e uma pequena multidão de cerca de 10 mil pessoas. Isso é tudo necessário para colocar nas ruas o Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesco Eu Acho é Pouco, fundado em 1977. Obra de um grupo de pernambucanos e alagoanos que queriam brincar o carnaval longe da antiga rivalidade dos blocos olindenses, o Eu Acho é Pouco nasceu no fim da década de 1970 com o nome Língua Ferina, já que os fundadores do bloco eram militantes, ex-presos políticos e opositores à ditadura militar vigente no país. Apenas no ano seguinte o novo nome do bloco foi oficializado e colocado nas ruas como é conhecido hoje.

Além da tradição de engajamento político do bloco, algo que caracteriza o Eu Acho é Pouco é a sua identidade visual. O vermelho e amarelo das camisas e tecidos, o dragão de metros de comprimento, o estandarte de losangos e franjas e as letras que formam o nome do bloco com uma “tronxura”, como definiu o criador Petrônio Cunha, encantam quem vê o bloco nas ruas. “Cantar que ‘o dragão tá doidão’ dentro do dragão é um dos meus jeitos de brincar carnaval, além do momento que é uma honra gigante, que é segurar o estandarte. Segurar o estandarte é carregar uma multidão”, destaca Roberto Efrem Filho, folião que acompanha o Eu Acho é Pouco desde 2003, quando foi para Olinda com os amigos da universidade e conheceu o bloco.

Nos primeiros anos, a concentração era na rua de São Bento, nº 358, a então casa de Sônia e Ivaldevan. Com o crescimento do bloco, a largada foi alterada para o Praça dos Milagres, com saídas no sábado de Zé Pereira e na terça gorda, ás 17h. A escolha das cores foi feita em conjunto, com a brincadeira de que o vermelho simbolizava a União Soviética e o amarelo a China, países que na época eram potências mundiais e referência para esquerda em todo o mundo. Ainda no primeiro ano de bloco, se pensou em usar uma estampa única, que foi comprada e rendeu muitas fantasias, mas só na década de 1980 é que surgiu a iniciativa de vender o tecido com estampa própria, o que abre um mundo de possibilidades e fantasias para a folia. 

Já no começo dos anos 2000, os filhos e netos dessa primeira geração de fundadores tomou as rédeas do Eu Acho é Pouco, com a tarefa de garantir financeiramente que o bloco saísse, dadas as dificuldades do período. O que se manteve foi o respeito à opinião da “velha guarda” e as tradições do bloco, que sempre podem ser alteradas, mas sem perder a essência de bloco de um grupo de amigos, que chama outros amigos, que chama outros amigos, como os próprios fundadores diziam. O que também se manteve foi a relação dos temas do bloco com a política brasileira, sempre se posicionando à esquerda. Se a primeira geração estampava em suas camisas e temas como a constituinte, diretas já, anistia, cuba e dívida externa, a nova geração marcou posição nas eleições presidenciais de 2002 e 2006, que elegeram Luís Inácio Lula da Silva (PT), de 2010 e 2014 com a sucessora Dilma Rousseff (PT), e nas eleições municipais de 2004, apoiando João Paulo, então candidato do PT. 

Roberto reforça o tom político da escolha dos temas do bloco“O Eu Acho é Pouco tem sido uma referência fundamental nas lutas democráticas desde que ele se criou. Nos últimos anos o bloco tem se posicionado em defesa dos direitos e da democracia. Estar no carnaval com a camisa vermelha e amarela é um ato político”. Em 2019, a arte da camisa é assinada por Juliana Calheiros e traz frases como “carnaval é política”, “ninguém solta a mão de ninguém”, “lula livre” e “ditadura nunca mais”.

 A homenageada do ano é Maria Alice, a baixinha, uma das fundadoras do bloco que por anos recebeu em casa as reuniões de organização do bloco. Faltando pouco dias do carnaval, os preparativos para que o dragão saia pelas ruas de Olinda já estão funcionando, com as camisas e tecidos à venda, o baile vermelho e amarelo marcado para o sábado (09) e o também tradicional ensaio aberto agendado para o dia 17

Edição: Monyse Ravenna