CARNAVAL

Há 41 anos, o Galo da Madrugada desperta o Recife para iniciar a festa popular

Dois milhões de corações pulsam todos os anos no maior bloco de rua do mundo

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Em 2016, com o tema “Galo, Frevo e Manguebeat”, o desfile homenageou Chico Science, um dos maiores ícones da música pernambucana / EBC

As prévias da Folia de Momo já estão a todo vapor em Recife e Olinda. No entanto, como acontece há mais de 40 anos, oficialmente o “carnaval começa no Galo da Madrugada”, como já anuncia o hino do maior bloco de rua do mundo. O primeiro desfile do Galo aconteceu na madrugada do sábado de Zé Pereira do ano 1978, quando um grupo de amigos, liderados pelo empresário Enéas Freire, realizou o primeiro Clube de Máscaras O Galo da Madrugada, com o objetivo de reviver antigos carnavais de rua e dando continuidade à tradição carnavalesca recifense.

A estreia ocorreu em 23 de janeiro de 1978, às 5h da manhã, antes da abertura do comércio no centro da cidade, despertando os recifenses para os dias de folia que se iniciavam. O itinerário começou com a saída da sua sede na Rua Padre Floriano, 43, no bairro de São José. Reunindo 75 foliões fantasiados de alma, o Galo desfilou pelas ruas dos bairros de São José e Santo Antônio, no centro do Recife. 

O trajeto foi mantido por 32 anos, até sofrer alterações. Atualmente, o Galo começa em frente ao Forte das Cinco Pontas e dispersa na Rua do Sol. A saída oficial do bloco também não é mais de madrugada. Hoje em dia, o Galo sai às 10h da manhã e a folia se estende até o final da tarde. 

Na Ponte Duarte Coelho, é montada a estátua do Galo gigante, de mais de 30 m de altura. De um pequeno grupo de foliões, a folia do Galo passou a arrastar multidões, chegando a contar com mais de 2 milhões de pessoas a cada ano. Por isso, é considerado, desde 1995, o maior bloco carnavalesco do mundo, registrado no livro dos recordes. 

Mas a festa do Galo não envolve apenas quem ocupa as ruas para festejar. São centenas de trabalhadores comercializando água e comida para repor as energias dos foliões, ou vendendo os mais mirabolantes adereços e fantasias de plumas, tule e paetês, que vão desde personagens da cultura popular a máscaras de figurões da política. Até mesmo a vizinhança não deixa de festejar. Moradores ficam de suas janelas nos edifícios do centro acenando para o bloco que passa, jogando confetes e serpentinas. Os mais solidários atiram água para refrescar a multidão que torra sob o calor do verão, mas sem perder o sorriso. 

No meio daquela muvuca, sempre está Gildázio Moura, recifense que mora há cinco anos em Afogados da Ingazeira, a 386km da capital pernambucana. A distância geográfica não impede que ele saia todos os anos na madrugada da sexta-feira para o sábado, rumo a Recife, para cumprir seu ritual de carnaval, que ele já mantém permanentemente há cerca de 20 anos. “Meu carnaval sempre foi o Galo da Madrugada. Não curto o carnaval inteiro, mas o Galo é simbólico”, afirma. 

No Recife, Gildázio conta todos os anos com o apoio de colegas, que possuem uma casa localizada em uma rua sem saída no bairro da Boa Vista. No local, amigos e familiares se reúnem para compartilhar feijoada, cerveja, tira-gostos e risadas, confraternizando como exige a festa do Galo da Madrugada. 

A história de amor entre Gildázio e o Galo começou quando ele trabalhava no comércio no centro da cidade e o bloco ainda não era tão conhecido, há mais de 20 anos. Da sexta-feira para o sábado, virava a noite com os amigos até o amanhecer, quando iam vera saída do Galo. “A gente já chegava turbinado de manhã cedo. O Galo não era ainda o que é hoje. Naquela época o carnaval era diferente, a orquestra ia tocando com o povo desfilando, a poeira cobria o povo, que ia fazendo o passo atrás”, relembra. O bloco foi crescendo “extraordinariamente” e Gildázio tem algumas críticas a como esse processo se deu. No entanto, ele reconhece que “o Galo é, ainda, um ícone importante da abertura do carnaval”, mas reforça que ele deveria retornar mais à sua raiz. 

Ao longo dos anos, Gildázio pulou o bloco com diferentes fantasias. “Cada ano é especial”, explica. Em 2019, ele manterá a tradição e irá fantasiado de palhaço Bozo, vestindo uma faixa presidencial, em uma sátira ao presidente Jair Bolsonaro.  

Edição: Monyse Ravenna