Esporte

Coluna Curto e Grosso | A domesticação do público nos estádios no Brasil

Com o aumento do preço dos ingressos de jogos, classe trabalhadora dá lugar às classes média e alta

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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O futebol é um negócio cada vez mais lucrativo no Brasil / Foto: Rodrigo Gazzanel/Agência Corinthians

Retomo a discussão das “arenas” no futebol brasileiro na esteira do carnaval, que novamente mostrou o poder que a multidão reunida tem para expressar os anseios políticos do povo e seu potencial de fazer mudanças. Tanto quanto o carnaval, o futebol é um evento identificado com as camadas pobres da população brasileira. De um tempo pra cá, elas têm sido gradativamente excluídas de uma de suas manifestações culturais favoritas.

O público presente nas arenas é diferente daquele dos velhos estádios brasileiros. Embora a classe trabalhadora ainda vá ao estádio, com o aumento do preço dos ingressos, sua presença diminuiu, dando lugar às classes média e alta da população. Essas classes se sentem à vontade nas arenas, que lhes oferecem um caráter de exclusividade, de pertencimento a uma elite capaz de usufruir daquele serviço. Ao mesmo tempo, o trabalhador ou a trabalhadora pobre que decide ir ao estádio, após se esforçar para pagar o bilhete, sente-se estranho (a) no lugar onde os serviços são caros e grande parte do público tem outra origem social.

Ao domesticar o público da arquibancada, a burguesia envolvida com o futebol e as forças políticas da ordem alcançaram pelo menos duas vitórias em prol de seus interesses de classe. Uma foi o aumento do faturamento em bilheteria. Por exemplo, não é raro ver o Palmeiras superar a marca de R$ 1,5 milhão por jogo no Allianz Parque. O futebol é um negócio cada vez mais lucrativo no Brasil.

A outra vitória foi o maior controle da população. Toda manifestação coletiva de grande monta guarda potencialmente uma capacidade explosiva enorme, o que gera medo nos donos do poder. Basta ver o controle e a repressão da polícia contra as torcidas, às vezes sem qualquer motivação. O público domesticado pelos serviços das arenas e seus preços caros, anestesiado por seu sentimento de “exclusividade”, é ideologicamente mais próximo dos valores das classes dominantes e, por isso, mais afeito a aceitar as medidas repressivas nos estádios. Paralelamente, a classe trabalhadora se vê privada da possibilidade de expressar um sentimento coletivo e exigir mudanças.

Por isso, a luta das torcidas por ingressos populares, no momento em que as classes dominantes criam uma crise política, econômica e social para defender seus interesses, é perigosa para a burguesia e pode ser pedagógica para a luta popular que se vislumbra no horizonte.

Edição: Wallace Oliveira