Coluna

Como deseducar uma nação

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29 de Março de 2019 às 14:24

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Ministro da Educação faz parte dos revisionistas que não consideram que o Brasil viveu um golpe militar em 1964 / Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Função de Vélez é destruir a educação para abrir o flanco de ataque à verdade

A crise do Ministério da Educação e a defesa da celebração do golpe militar de 1964 não são fatos isolados. Fazem parte da mesma forma de conceber o conhecimento e do mesmo projeto político: deseducar a sociedade, desvalorizar o saber, instaurar o revisionismo, exterminar os critérios de verdade em nome do individualismo e dos interesses do mercado.

O ministro da educação, Ricardo Vélez Rodriguez, só se sustenta no cargo por falta de brio. Criticado pelo próprio patrão, já coleciona avaliações negativas em termos gerenciais, políticos, técnicos e de caráter. Falsificou dados de seu currículo na plataforma Lattes; determinou que frase de campanha se tornasse prática obrigatória nas escolas ao lado da entoação do hino nacional; perdeu seguidos colaboradores que não quiseram se associar às práticas de arrasa-civilização.

Tem muito mais para tão pouco tempo. Submeteu-se a pressões ideológicas externas espúrias; foi destratado com os habituais requintes de grosseria por seu patrono no cargo, Olavo de Carvalho, ficando como um joguete entre o mitômano da Virginia e a ala militar nativa; não foi capaz de manter um diálogo técnico e político com o Congresso, em sessão humilhante na qual parecia um aluno que não estudou para a prova.

Cancelou a realização da avaliação das crianças em fase de alfabetização, anunciando um vácuo de quatro anos que impediria a correção das políticas inclusive pelos estados e municípios; nomeou colaboradores para postos importantes, que foram demitidos antes de tomar posse sem sua aquiescência. Generalizou sua antropologia dos brasileiros, chamando a todos de ladrões (curiosamente, usando para isso a palavra “canibal”, que quer dizer outra coisa).

As lambanças seguem numa espiral sem fim. Garantiu que abriria o sigilo do Enem ao presidente, para evitar eventuais distorções sexistas na prova e depois entregou a avaliação “transversal” do exame a uma comissão com presença de um monarquista de carteirinha. Suspendeu temporariamente programas da pasta em nome do discurso da austeridade que só atinge a área dos direitos sociais. Criticou material didático por razões extrapedagógicas para marcar posição nas hostes do atraso.

É bem verdade que, em muitos desses casos, voltou atrás. Não por força da razão, do debate de ideias, da troca de experiência com especialistas da área ou da humildade em aprender e reconhecer erros. Quando retrocedeu, foi sempre por fraqueza e apego quase fisiológico ao cargo. Jogou a culpa na imprensa (um clássico no governo Bolsonaro), nos demitidos, nos adversários. Nunca assumiu a responsabilidade por suas decisões equivocadas.

Não há dúvidas de que é um ministro ruim. Péssimo mesmo. No entanto, soma-se ao seu perfil inepto e carreirista outras atitudes que são ainda mais graves em razão da natureza da pasta. Não é apenas mais um mau ministro (nisso a competição é grande no atual governo). É o pior ministro da educação que se tem notícia por razões intrínsecas ao cargo destinado a conduzir a formação da atual e das próximas gerações.

Ricardo Vélez faz parte dos revisionistas que não consideram que o Brasil viveu um golpe militar em 1964 e passou por um período de mais de 20 anos de ditadura a princípio sanguinária, depois extremamente violenta e sempre discricionária. Aceitar ou não que se tratava de uma ditadura não é questão de decisão pessoal ou interpretação de situação complexas, mas de um desconhecimento da história e de uma negação dos fatos tão solares como foram sombrios os porões do arbítrio.

Seguindo setores ligados ao presidente, que há décadas enaltece a ditadura e seus executores, inclusive torturadores, Vélez estabelece um padrão que nega o conhecimento científico e a realidade, em nome de interesses ideológicos. Defende uma espécie de terra plana da história e das ciências sociais.

A ditadura foi uma cruel realidade, com centenas de mortos, perseguidos, presos, torturados. Extirpou liberdades civis e políticas, cometeu crimes contra a humanidade. Com Congresso fechado, eleições suspensas, vida associativa manietada, controle de tribunais. Imprensa censurada, artistas limitados em sua expressão de forma brutal, violência policial patrocinada pelo Estado contra movimentos de oposição. São fatos conhecidos, registrados, estudados por pesquisadores em todo o mundo. Que habitam até hoje a memória dos que sofreram sua brutalidade.

A repercussão internacional à determinação presidencial de se “comemorar devidamente” o horror, como era de se esperar, tem sido dura e exata. Mesmo países que são tratados como modelos, por suas políticas conservadoras e de direita, fazem questão de deixar claro sua discordância com a defesa da ditadura de qualquer natureza. A extrema-direita brasileira, como é tratada em toda a imprensa livre do mundo, por aqui é tomada apenas como folcloricamente conservadora.  Ou mesmo irresponsavelmente ignorante.

A ligação entre a defesa da ditadura e um ministério da educação inexpressivo tem como fundamento a mesma origem. Ao recusar o conhecimento, aos desprestigiar o saber, ao atacar as universidades e os centros de pesquisa, ao tentar controlar a criação artística com perseguições moralistas e preconceituosas, ao valorizar a opinião individual expressa em canais de ódio e desinformação, constrói-se o castelo da ignorância que vem sendo habitado pela nova direita raivosa e inculta.

Vélez, que não se sabe quanto dura no cargo, pode ser descartável. Mas sua função parece ser estratégica: destruir a educação para abrir o flanco de ataque à verdade. Depois da fake história, o terreno estará preparado para a fake saúde, fake segurança, fake habitação, fake previdência. Tudo que é sólido se desmanchará no ar em nome de uma pós-verdade patrocinada pelo mercado e seus interesses.

Edição: Joana Tavares