Tradição

Na Várzea, Boi da Mata reúne comunidade para preservar cultura e meio ambiente

Há dez anos brincadeira fortalece o cuidado com a mata e fontes de água

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Brincadeira atrai principalmente as crianças do bairro / Danilo Melo

Brincadeira tradicional no norte e nordeste, o bumba meu boi tem várias versões, que mudam de acordo com o local e os brincantes. No Recife, na UR-7, o Boi da Mata consegue unir a preservação da cultura local e do meio ambiente, já que lá fica localizada uma das poucas áreas de Mata Atlântica que não foi desmatada. A proposta surgiu há 9 anos, quando um grupo de moradores do local percebeu no boi uma oportunidade de lazer e diversão para crianças e adultos do bairro e também uma forma de alertar para o cuidado com a mata que fica no local, realizando mutirões de limpeza e visita a fonte mineral de água.

“Nós vivemos em um bairro muito próximo a mata de São João da Várzea, que é propriedade do grupo Cornelio Brennand, que autoriza as atividades, mas nós entendemos que a mata é parte da comunidade. O boi tem essa mensagem de cuidar da mata, do olho d’água. A gente vem despertando o interesse das crianças e dos mais velhos que esperam o boi passar nas ruas do bairro”, explica Nathália Raquel, que faz parte da equipe que coordena a atividade cultural. Com muita influência das manifestações culturais da Várzea, como o Boi Teimoso, a Burra da Várzea, os grupos de maracatu, coco e capoeira, uma das maiores referências é também o Boi Misterioso de Afogados, conduzido por Biu do Ganzá e um dos primeiros bois de Pernambuco.

Com periodicidade mensal, sempre nos terceiros sábados de cada mês, o boi inicia pela manhã, saindo do Bosque do Bacurau, com uma trilha pela mata, com valor sugerido de R$ 5,00, que vai até as 13h, quando acontece a pausa para o almoço, com uma feijoada vegana que custa apenas R$ 13,00. Já a tarde é reservada para atividades comunitárias, como a implantação da horta agroecológica, que avança com os mutirões mensais do boi. No fim da tarde, a brincadeira encerra com o cortejo do boi pelas ruas do bairro.

Foto: Fran Silva

Atualmente, a organização do boi é feita por quatro pessoas: Nathália Raquel, Hilson Olegário, Luiz Filipe Brito e José Rodrigues. Pontualmente o grupo recebe a colaboração de outras pessoas e da comunidade, que reconhece a importância da atividade para conscientizar os moradores especialmente para a necessidade do descarte adequado do lixo, como reforça Nathália “O esgoto de uma comunidade passa pela mata, e durante trilha isso é um choque. A mata é um lugar que precisa de cuidado. Por desligamento, as pessoas acham que mata é lugar de jogar o que não presta. Então a gente acha plástico, papel, até tubo de tv. A gente leva os sacos para quem quiser recolher o lixo voluntariamente nessas três horas de caminhada.”

Para quem organiza e também para quem participa, a brincadeira é coisa séria, como Nathália explica “Na leitura que fazemos, que é de resgate da ancestralidade, a brincadeira é a forma mais genuína de aprender. Como as crianças aprendem? Brincando. É uma brincadeira muito séria, é uma forma legítima de saber. É cantando, tocando e dançando que a gente transmite saber”. Há pouco mais de dois anos o boi vem sendo mais reconhecido e acolhido pela comunidade, mas o desafio é expandir essa relação. “Nós conquistamos há pouco tempo a confiança e a simpatia da comunidade. Por um tempo sofremos uma marginalização por sermos uma brincadeira que resgata os ritmos e a cultura afroindígena, o que por um tempo assustou as pessoas. Hoje a área de convivência, que fica na Rua Vale do Jaguaribe, onde sai o cortejo do boi, é um espaço muito querido para as crianças, que vão ter onde brincar e praticar esportes, para os idosos, com uma área de passeio. Então a comunidade tem cuidado mais do espaço e nos incentivado” conclui.

Edição: Monyse Ravena