ANÁLISE

2015 e 2019: os primeiros 100 dias de Paulo Câmara nos dois mandatos

Em 2015 o governador teve um início de governo conturbado

Brasil de Fato | Recife (PE)

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No segundo mandadto, Câmara tem novos desafios no cenário local e nacional / José Cruz/Agência Brasil

O governador Paulo Câmara (PSB) completou, na quarta-feira (10), seus 100 dias de novo governo. Apesar de ser uma continuidade da gestão iniciada em 2015, Câmara tem novos desafios no cenário local e nacional e, para enfrentá-los, formou uma nova composição de forças.

Em 2015 Paulo Câmara teve um início de governo conturbado. O PSB já tinha Pernambuco como centro de poder, mas ainda buscava se reconstruir após a morte de Eduardo Campos e precisava consolidar o crescimento construído pelo falecido líder e confirmado nas urnas.

Logo no início do mandato Câmara buscou diálogo com Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e com Lula (PT). O partido acabara de dar um apoio sem sucesso à candidatura de Aécio Neves (PSDB) contra Dilma Rousseff (PT) na eleição presidencial.

A crise econômica começava a atingir a população brasileira, com a subida do desemprego, e se aprofundava com a crise política nacional, tendo Eduardo Cunha - então presidente da Câmara - como personagem central. Naquele momento cresciam as mobilizações da direita pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT) sofria com o isolamento de antigos aliados, num movimento apoiado pelo PSB.

A posição dos socialistas se refletia nas articulações no estado. A primeira linha do secretariado em 2015 incluiu, por exemplo, o PSDB. Enquanto no bloco de oposição estavam parcelas da direita, como o DEM e o PTB; e da esquerda, como o PT e o PSOL.

Em 2019 o PSB já tem uma estabilidade como uma das principais forças do Congresso Nacional, tendo a segunda maior bancada do campo de centro-esquerda, atrás apenas do PT. O partido também ganhou mais tranquilidade nas disputas internas. Se antes o PSDB exercia muita influência nas hostes socialistas, atraindo principalmente lideranças do PSB no Sudeste, o fiasco eleitoral dos tucanos desmobilizou as alas mais à direita dentro do PSB.

Em Pernambuco, como em todo o Nordeste, a sigla apoiou a candidatura de Fernando Haddad (PT). No Congresso o PSB fincou o pé no campo da centro-esquerda - flertou com PDT e PCdoB, mas formou bloco com o PT e com o PSOL.

O cenário político nacional influenciou diretamente as alianças locais. O PT, antes ferrenho opositor, avaliou ser necessário caminhar junto ao PSB para defender o estado contra o avanço da extrema-direita. Também integram a base de governo o PCdoB e o PDT. Até o PSOL, sempre crítico às gestões do PSB, abrandou o tom para não fazer coro com o bloco de oposição, hoje composto por siglas alinhadas a Bolsonaro, como o DEM, PSC, PSDB e PRTB.

As crises econômica e política, que há quatro anos eram grandes ameaças, hoje já são uma realidade com as quais é preciso lidar diariamente. Com desemprego elevado e arrecadação em baixa, os índices sociais tendem a piorar. O governo precisa manter a máquina funcionando e os serviços públicos atendendo a população de maneira respeitável.

Se em 2015 Paulo Camara tinha esperança na saída de uma presidenta para o quadro econômico melhorar, hoje evita falar das escolhas feitas naquele período. A crise política nacional abriria caminho para a eleição do hoje presidente Jair Bolsonaro (PSL), do qual o PSB parece não esperar solução alguma. Dois dos três governadores socialistas estão no Nordeste e compõem um consórcio que une juridicamente os nove estados da região, abrindo caminho para a contratação de serviços e elaboração de políticas de maneira conjunta.

Em 2015, além dos impasses políticos e da carência de lideranças, o partido sofria com os problemas da gestão do estado. O número de homicídios batia recorde e o medo era aumentado pelas rebeliões e fugas em presídios do estado. Agora, em 2019, Os primeiros meses mostram uma redução superior a 20% no número de homicídios em relação a 2018.

Naquele início do primeiro mandato Paulo Camara também viria a quebrar, pela primeira vez, sua promessa de campanha da tarifa única para ônibus, que custaria em R$2,15 segundo sua propaganda eleitoral. Quatro anos depois a promessa já é motivo de chacota, pois as tarifas já chegam a R$3,20 e R$4, 40.

Na economia, enquanto Câmara assumiu o estado em recessão, vindo de um 2014 em que a economia teve o pior desempenho (+2%) em uma década, o primeiro ano do governador foi de cenário ainda pior, com retração de 3,5% na atividade econômica.

Em 2019 o governador começa o ano com a notícia de que o Produto Interno Bruto (PIB) do estado, ainda que timidamente, cresceu (+1,9%). Câmara também comemora a atração de investimentos em indústria e serviços, mas ainda há um longo caminho a percorrer, pois o desemprego segue elevado e atinge aproximadamente 15,5% dos trabalhadores.

Edição: Monyse Ravenna