Entrevista

Boulos sobre Estelita: "Uma área central que poderia ser usada para moradia popular"

Dirigente do MTST deu declarações sobre os 100 dias de governo Bolsonaro, direito à cidade e reforma da previdência

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Guilherme Boulos em entrevista ao Programa Brasil de Fato Pernambuco / Divulgação Psol

Na tarde desta quinta-feira (11), o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Guilherme Boulos participou de um bate-papo ao vivo no Programa Brasil de Fato Pernambuco, que foi ao ar às 14h na rádio Clube 720 AM. No encontro, Boulos respondeu às perguntas da apresentadora Iyalê Tahyrine e do colunista de política Vinícius Sobreira, em relação a temas como políticas públicas de moradia popular, movimento Ocupe Estelita, Reforma da Previdência e fez um balanço dos 100 primeiros dias do governo Jair Bolsonaro (PSL). 

Guilherme Boulos é reconhecido como uma das principais lideranças de esquerda atualmente e, além de participar há quase duas décadas de lutas envolvendo direito à cidade e déficit habitacional, foi também candidato à presidência da república pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol) nas eleições de 2018. 

100 dias do governo Bolsonaro

Guilherme Boulos iniciou a entrevista analisando as primeiras medidas tomadas pelo atual presidente Jair Bolsonaro, que completou 100 dias de gestão na última quarta-feira (10). Na opinião dele, as pessoas que votaram em Bolsonaro já estariam se dando conta de que “compraram gato por lebre”. De acordo com dirigente do MTST, “foram cem dias de ‘desgoverno’ e ficou mais claro do que nunca, que nós temos um presidente que não tem a capacidade ou o preparo para assumir esse cargo”. Para ele, o atual ocupante do mais alto cargo executivo do país continua se comportando como um “candidato raivoso” às eleições, que não desceu ainda do palanque eleitoral. 

Para Boulos, as indicações ministeriais do atual governo foram todas equivocadas, destacando o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo e o ex-ministro da Educação Ricardo Vélez, bem como o seu substituto na pasta, o atual ministro da Educação Abraham Weintraub. O entrevistado também aproveitou para desaprovar a postura de Bolsonaro nas redes sociais, afirmando que ele “só fala besteira no twitter” e não se preocupa com a agenda de desenvolvimento, de emprego e renda do país. Criticou, além disso, a atuação internacional do presidente, dizendo que ele “envergonha o Brasil” ao se submeter aos interesses norte-americanos e caracterizando como “desastrosa” a visita de Bolsonaro aos Estados Unidos, em que se reuniu com o presidente Donald Trump para, dentre outras coisas, negociar a exploração da base de lançamento de Alcântara, no Maranhão, pelos norte-americanos. O entrevistado também se disse preocupado com o futuro da Floresta Amazônica, sob ameaça dos interesses imperialistas

O dirigente do MTST também relembrou os vários escândalos envolvendo o sobrenome da família Bolsonaro que vieram à tona logo após as eleições, como os casos envolvendo candidatos laranjas pelo PSL e a aproximação do presidente com a milícia, com vizinhos acusados de matar a ex-vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, também do Psol, partido de Boulos. “A incerteza com a crise econômica junto com a falência do sistema político, criou uma desesperança, mas as pessoas que votaram nele pensando que iria ter alguma mudança já estão se desiludindo”, afirma. Também fez reprovações ao pacote anticrime de Sérgio Moro, defendido pelos apoiadores do governo como um pacote para resolver o problema com a segurança pública no Brasil, mas que, na verdade, estaria apenas “requentando medidas que já estão no Congresso Nacional e que, o que apresenta de novo, é uma desgraça: dá salvo conduto para policial matar gente e não ser, sequer, investigado”, declara.

Reforma da Previdência

Para Boulos, o Brasil está “sem comando” e, “além do despreparo, ele [Bolsonaro] apresentou uma agenda política que é um retrocesso histórico, não só para os próximos quatro anos, mas também para as próximas gerações”. Na opinião do dirigente do MTST, a proposta de Reforma da Previdência apresentada por Bolsonaro retira direitos dos trabalhadores brasileiros e não corta nenhum privilégio, como alega o presidente. “Nesses 100 dias deu para o povo perceber as garras desse governo. Um governo que fala baixo com banqueiros e grita alto com o povo e que busca atacar direitos e não atacar privilégios”, ressalta. 

Na entrevista, Boulos destacou alguns pontos da reforma que irão impactar a vida dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o Brasil, como os cortes ao Benefício de prestação continuada (BPC) e ao salário mínimo recebido por pessoas idosas aposentadas, além do tempo de trabalho, que aumenta para 40 anos o período de contribuição com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para que o trabalhador consiga receber a aposentadoria integralmente. 

“Ou seja, é uma Reforma da Previdência que faz com que a maioria se aposente no caixão e que, na prática, tem o objetivo de entregar a previdência para os bancos com regime de capitalização”, reforça. Por essas razões, Guilherme Boulos defendeu um movimento amplo de mobilização para barrar a Reforma da Previdência.

Nordeste e Bolsa Família

Quando perguntado sobre as medidas que a região nordeste deve esperar do governo Bolsonaro, Boulos lembrou que o presidente foi derrotado na região nas eleições 2018 e que se percebe um descaso sintomático do governo com o nordeste brasileiro. “É um descaso com o povo, com políticas públicas, com investimento social. Parece que tem um abismo entre a agenda do Bolsonaro e a agenda do povo brasileiro. O povo está querendo saber de geração de emprego, mas ele não apresenta uma única medida para emprego, para melhoria da renda, para política de habitação, reforma agrária e de saúde. Tudo o que eles conseguem apresentar é desmonte, retirada de direito e privatização”, declara.

Guilherme Boulos também lembrou que o presidente pretende vir ao nordeste para anunciar o 13º salário do Bolsa Família, mas, para Boulos, isso na verdade é uma jogada para reverter a queda de popularidade que Bolsonaro tem sofrido desde que foi eleito. “Vale lembrar que esse 13º do Bolsa Família está sendo proposto ao custo do reajuste do Bolsa Família. Eles vão congelar o reajuste, porque não dá tanta mídia, e vão criar o 13º, com esse mesmo valor que seria reajustado, para poder criar a impressão de que Bolsonaro está preocupado com os mais pobres do Brasil, que é uma impressão falsa”, explica.

O dirigente do MTST salientou que a economia nordestina tem crescido abaixo da média do país. Em 2018, o PIB nordestino cresceu apenas 0,6%, enquanto o do Brasil subiu 1,1%. Boulos relembrou que, em períodos anteriores, quando o nordeste recebia mais investimento federal, a economia da região apresentou saltos significativos. Em 2013, por exemplo, durante o governo Dilma, o nordeste apresentou um crescimento acima da média do país, chegando a quase 3%. 

Déficit Habitacional

Engajado há 18 anos nos movimentos de luta por moradia, integrando o MTST, Guilherme Boulos lembrou que existe hoje no Brasil 7 milhões e 700 mil famílias sem moradia ou vivendo em condições precárias, o que representa aproximadamente 30 milhões de pessoas. “O problema da moradia é muito grave e precisa ser tratado com política pública. Não vai resolver com porrada. Eu disse isso a Bolsonaro na eleição. Ele falou ‘Eu vou acabar com o MST e MTST’. Eu respondi: ‘Bolsonaro, você quer acabar com o MTST? Eu te ajudo: construa 7 milhões de casas no país e faça uma política de reforma urbana’, é a única forma de acabar”, afirma. 

Boulos também lembrou do Programa Minha Casa Minha Vida, criado pelos governos progressistas de Lula e Dilma e que completa 10 anos em 2019. Apesar de considerar que o programa tinha limites e que as construtoras continuavam tendo um papel decisivo no ramo da construção civil, o Minha Casa Minha Vida foi um avanço. 

“Em 2009, Lula cria o Minha Casa Minha Vida. Nós, dos movimentos, por um lado, reconhecemos o avanço, porque não tinha uma política habitacional e passou a ter. Teve um ponto importante, que era ter subsídio, a única chance de 83% do déficit habitacional ter casa é tendo subsídio, ou seja, o governo bancar e a pessoa pagar de acordo com o que pode”, afirma. 

No entanto, ele afirma que, após o impeachment de Dilma, o programa sofreu desmontes por Temer e Bolsonaro. Uma das primeiras medidas de Bolsonaro foi acabar Ministério das Cidades, responsável pela política habitacional no Brasil. Desde 1º de janeiro não se investe 1 real em contratação de moradia popular no Brasil. Então, a luta do movimento social, também por moradia e direito à cidade, passa por a gente retomar investimento público em moradia e habitação”, reforça. 

Ocupe Estelita

Durante a entrevista, Guilherme Boulos também foi perguntado sobre o movimento Ocupe Estelita, que constrói a luta pelo direito à cidade no Recife. O dirigente do MTST declarou que o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto é “solidário à luta do movimento Ocupe Estelita” e que o mandato das Juntas esteve presente no dia em que iniciaram as demolições no cais José Estelita, em março de 2019.

Para ele, “é lamentável que uma área central, que poderia ser utilizada para moradia popular, para reduzir o déficit habitacional do Recife, seja destinada para a especulação imobiliária”.

Edição: Monyse Ravena