Crônica

Coluna | Sônia sambando

É domingo e ela samba como se o mundo não desmoronasse

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Assim exibida, nem parece alguém que caiu na clandestinidade. / Elisandro Dalcin

É domingo e ela samba como se o mundo não desmoronasse, outra vez, ao som e à fúria de 80 tiros. Ela samba porque não sabe, e porque pra ela o mundo há tempos desabou. Estar viva neste corpo é um milagre. Escapar da prisão e da tortura, um milagre. Só um corpo livre pode sambar assim. Como se não tivesse perdido o companheiro assassinado, Sônia samba. Assim exibida, nem parece alguém que caiu na clandestinidade. A ex-guerrilheira da VAR-Palmares e do MR-8 que deu e recebeu tiros – um na virilha, outro na perna, um terceiro nessa cabeça que agora balança ao som do Jorge Ben. Outrora a pistola 44 dando retaguarda, empunhando o fuzil sete meia dois de Lamarca, mas agora Sônia samba vestida com as roupas e as armas de Jorge. O suingue de africana, argelina filha de espanhol antifranquista, tantas fronteiras singradas, grávida e exilada, do chile de Allende à França de sua mãe ao Brasil da Anistia. Sônia sambando com os sapatos que pisaram a passeata dos Cem Mil. Sorrindo como se não tivesse vivido na carne tanto susto. Como se.

Mariana Sanchez – tradutora, escritora, fotógrafa e jornalista.

Edição: Laís Melo