CHUVAS

Editorial | Lavar as mãos não adianta, porque a água está cheia de barro e sangue

As famílias atingidas são sempre pobres, que moram em áreas de risco não por escolha, mas por necessidade

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Não devemos naturalizar estes acontecimentos, mas cobrar dos responsáveis que tomem medidas prévias para conter estas tragédias / Reprodução

Todo ano quando chega o inverno é a mesma coisa: cobertores há muito guardados com cheiro de mofo, ventiladores há muito usados dão uma trégua, a chuva cai e pela fresta das telhas ela entra sem convite - corre, pega um balde! As crianças brincam de pular nas poças, a senhora briga com o motorista do ônibus que passou depressa e molhou sua saia. Você chega em casa, se desfaz da sua roupa molhada, se abraça a uma toalha e, com a xícara de café nas mãos, liga a TV e, para sua surpresa (ou não), o inverno é para muitas pessoas muito mais do que pequenos transtornos do dia a dia.

Nas últimas semanas os noticiários estiveram cheios de notícias sobre a dura realidade daqueles que convivem com o risco dos deslizamentos de terra e inundações. As mortes causadas pelas chuvas, principalmente na Região Metropolitana do Recife, chocaram a todos. Doze pessoas morreram só na madrugada do dia 24, outras tantas tiveram prejuízos por conta da água que invadiu suas casas.

Passada a primeira manchete, enquanto muitos ainda tentavam salvar vidas e pertences, vimos os representantes do poder público - ou melhor, seus porta-vozes - irem à mídia tentar explicar o inexplicável. A frase ‘estamos trabalhando’ foi repetida inúmeras vezes entre explicações vagas que não dizem muita coisa. A realidade é que, para quem mora em zonas de risco, fazer vale mais do que dizer. E a lógica é bem simples: fazer salva vidas, dizer não.

Não devemos naturalizar estes acontecimentos. Cobrar dos responsáveis que tomem medidas prévias para conter estas tragédias é um dever de todos e é dever deles assumirem suas responsabilidades com antecedência para prevenir, ao invés de tentar remediar. Se todos sabem o enredo que se repete todo ano em épocas de chuva, por que não se toma providências para mudar esta situação? Lavar as mãos não adianta, porque a água está cheia de barro e sangue.

Curiosamente esta situação não é uma particularidade da região metropolitana. Ao longo dos anos temos visto cenários idênticos em diversas cidades do interior, com maior ou menor intensidade. Outro fato curioso é que em todos os casos as famílias atingidas são sempre famílias pobres, que moram em áreas de risco não por escolha, mas por necessidade. Alguns discursos até tentam culpar as vítimas e a população, falam do excesso de lixo em áreas de escoamento - e o lixo é de fato um problema. Mas o que não se fala é que essa mesma população muitas vezes são as ilhas de solidariedade que surgem espontaneamente para ajudar seus vizinhos, desabrigados, desolados.

A postura dos que tentam soterrar a realidade com frases repetidas do ano passado - e do ano anterior e do outro - deve ser observada pela população. Não só pelos atingidos, pois estes não esquecerão tão fácil, mas deve ser observada principalmente pelos que acompanham tudo abraçados em toalhas secas, com suas mãos aquecidas pelo quente café, prestes a mudar o canal, para descobrir que o noticiário é o mesmo.

Edição: Monyse Ravenna