MEMÓRIA

"Em 45 anos de buscas, não vi crueldade como essa", diz irmão de Fernando Santa Cruz

Manifestação reuniu família do militante assassinado pela ditadura e centenas de pessoas no Recife

Brasil de Fato | Recife (PE)

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No ato, presidenta nacional do PCdoB disse ser provável que um pedido de impeachment de Bolsonaro seja protocolado em breve / Brasil de Fato Pernambuco

Nesta sexta-feira (2), no Recife, centenas de pessoas se reuniram no Monumento Tortura Nunca Mais num ato de solidariedade a Fernando Santa Cruz e sua família. O nome do militante assassinado pela ditadura militar voltou aos noticiários após declarações do presidente Jair Bolsonaro que ofenderam familiares de pessoas mortas pelo regime militar.

Após desavenças com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o presidente da República quis atingir pessoalmente o presidente da Ordem, Felipe Santa Cruz, filho do militante assassinado. "Se o presidente da OAB quiser saber como o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele", disse Bolsonaro. Na mesma noite deu declarações infundadas de que o militante teria sido morto por colegas da organização de esquerda. O hoje presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, tinha apenas 1 ano e 10 meses quando seu pai foi assassinado pela ditadura.

No ato no Recife, Marcelo Santa Cruz, irmão de Fernando, lembrou as buscas que faziam por notícias do irmão. "Os órgãos de segurança debochavam de nós e nos davam informações falsas", disse Marcelo, revelando as similaridades com o comportamento de Bolsonaro. "Em 45 anos de busca por meu irmão, nunca vi uma crueldade como esta declaração feita pelo presidente", completou.

Ele também saiu em defesa do sobrinho e presidente da OAB. "Bolsonaro pode até discordar de Fernando ou Felipe, mas não pode dizer esse tipo de coisa para atingir a criança que perdeu o pai aos 2 anos de idade", disse Marcelo. Ele lembrou ainda que sua irmã mais velha, Rosalina Santa Cruz, também foi presa na ditadura e sofreu aborto devido às torturas com choques elétricos.

Para Marcelo, o objetivo de Bolsonaro não foi atingir só o presidente da OAB. "Ele sabia que ao fazer essa fala estava atacando também outros familiares de vítimas da ditadura", disse. As famílias já enviaram carta à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA) pedindo questionamentos a Jair Bolsonaro.

Na manifestação houve muitas referências à Elzita Santa Cruz, mãe dos irmãos Santa Cruz e que se tornou símbolo da luta por informações sobre os mortos e desaparecidos políticos do período militar. Sua história está registrada no livro "Onde está meu filho?". Dona Elzita faleceu no último dia 25 de junho, aos 105 anos.

No ato estiveram presentes parlamentares dos níveis municipal, estadual e federal, além da vice-governadora de Pernambuco e presidenta nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Luciana Santos. Ela informou que tem agendada para a próxima semana uma reunião com os demais presidentes dos partidos que fazem oposição a Bolsonaro (PT, PSB, PDT e PSOL, além do PCdoB) e que é possível que saiam do encontro com um pedido de impeachment para ser protocolado na Câmara Federal. "Gerações morreram para garantir nossa democracia e não podemos permitir a consolidação desse projeto de ditador. Jair Bolsonaro não é só da ditadura, ele é dos porões da ditadura", atacou.

Dani Portela, da Rede de Advogados Populares (Renap), lembrou a memória de seu pai, que a adotou após ter ficado estéril devido às sessões de tortura. "Ele morreu aos 87 anos ainda tendo insônia, porque ao fechar os olhos ele ainda lembrava os gritos das mulheres sendo torturdas e até um bebê", afirmou. Ivan Moraes (PSOL), vereador do Recife, disse que as declarações de Bolsonaro sobre Fernando Santa Cruz foram além dos limites. "Já não é mais sobre esquerda e direita, mas pela sobrevivência do que temos de humanidade dentro de nós".

Robeyoncé Lima, co-deputada estadual que integra as Juntas (PSOL), destacou que "não podemos naturalizar esse desrespeito à memória, à verdade e à justiça". O mandato das Juntas preside a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Também deputado estadual, João Paulo Lima (PCdoB) afirmou da importância de carregarmos em nós "a memória de um militante que doou sua vida para construir um mundo melhor".

O deputado federal Renildo Calheiros (PCdoB) criticou as parcelas mais ricas do Brasil por estarem dispostos a colocar alguém como Bolsonaro na Presidência da República. "Eles não ligam para democracia, não ligam para o povo, nem para soberania. Sequer amam o país. Eles gostariam de ter nascido nos Estados Unidos", disse. "Ele continua na Presidência porque está dando às elites o que elas querem, que é encher o bolso delas com as riquezas nacionais".

Renildo ainda classificou Bolsonaro como "psicopada perigoso". "Mas o pior de tudo é que ele chegou lá através da eleição", pontuou. E para mudar o cenário político, disse Renildo, a militância de esquerda precisa se desafiar a sair de seus círculos. "Essa luta pela democracia e soberania não pode ser uma luta só nossa, mas tem que ser da maioria do povo brasileiro", afirmou.

A estudante Camila Falcão, militante da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP), lembrou que Fernando Santa Cruz dá nome a diversos Centros Acadêmicos e Diretórios Acadêmicos de estudantes em todo o Brasil. "E Bolsonaro que se cuide, porque somos milhões de Fernandos Santa Cruz e estaremos nas ruas no próximo dia 13", afirmou, convocando os presentes para a manifestação nacional dos estudantes.

Representando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Paulo Mansan destacou a presença no ato de alguns militantes que resistiram à ditadura. "Se sobrevivemos e vencemos eles uma vez e não vamos baixar a cabeça. Enquanto ele dá armas e prega a morte, nós pregamos a esperança". Também estavam presentes os movimentos da população negra, de terreiro e sindical.

O militante

O pernambucano Fernando Santa Cruz, filho de Lincoln Santa Cruz e Elzita Santos, começou a participar do movimento estudantil ainda na escola secundarista. Durante uma passeata em 1967, já sob o regime militar mas antes do Ato Institucional nº5 (AI-5), ele e seu colega Ramirez Maranhão do Valle passaram uma semana presos por queimarem uma bandeira dos Estados Unidos. 

Já estudante universitário, no curso de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, e com um filho bebê, Fernando Santa Cruz foi assassinado em 1974, aos 26 anos, sem entregar informações que comprometeriam sua organização, a Ação Popular. Por quase 40 anos a família de Fernando Santa Cruz buscou informações sobre o corpo do jovem para que pudessem velá-lo.

Segundo revelou o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) Cláudio Guerra, em 2012, no livro "Memórias de uma Guerra Suja", Fernando Santa Cruz estava entre os 10 militantes que tiveram seus corpos incinerados por militares no forno da usina de açúcar Cambahyba, cujo proprietário era apoiador da ditadura. O atestado de óbito só foi entregue à família Santa Cruz no último dia 24 de julho de 2019, cinco dias antes das declarações de Bolsonaro.

Edição: Monyse Ravena