CULTURA

Censura de Bolsonaro: governo sofre revés com filmes e peças de temática LGBT

Espetáculos ganham projeção com ataques; Para Marieta Severo, atos de censura lembram práticas da ditadura militar

Brasil de Fato| Rio de Janeiro (RJ)

,
Ato em frente ao CCBB-RJ contra censura prévia de peça reuniu centenas de pessoas / Mídia Ninja

A ditadura militar não ensinou aos governantes da extrema-direita que a censura à cultura é um tiro que quase sempre sai pela culatra. Começou com o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), que tentou impedir a circulação na Bienal do Livro de uma história em quadrinhos que trazia um beijo de um casal homoafetivo. Horas depois de anunciar a censura, a revista já havia esgotado e a publicação ganhou mais projeção graças a Crivella, que foi criticado internacionalmente.

Desde semana passada, a população e os produtores culturais (incluindo diretores e atores) vêm enfrentando os ataques do presidente Jair Bolsonaro (PSL) com respostas e reações, depois da tentativa do governo federal de impedir o patrocínio e a produção, além de censurar a exibição e a apresentação de peças de teatro e filmes com temáticas que desagradaram ao Palácio do Planalto.

Um dos alvos da censura foi o espetáculo “Caranguejo Overdrive”, que vem sendo premiado desde 2016 e que faria parte da comemoração de 30 anos do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Centro do Rio. A censura, contudo, ganhou repercussão e na última sexta-feira (11) a peça teve trechos encenados em frente ao CCBB como um ato de protesto à censura. 

Coincidentemente, no mesmo dia e horário, a direção do CCBB se manifestou pela primeira vez, alegando que o texto de “Caranguejo Overdrive” contrariava o edital público que impede manifestações político-partidárias em apresentações culturais. A peça, no entanto, nunca teve o texto modificado, sempre fez críticas a assuntos que estão no noticiário, mas jamais havia sofrido censura.

Presente no ato em frente ao CCBB, a atriz e produtora Marieta Severo comparou os atos de Bolsonaro aos praticados durante a censura no período da ditadura militar. Ao microfone, ela afirmou que “não tivemos imaginação suficiente para pensar que estaríamos novamente neste lugar perigoso”.

“Naquela época, também não imaginávamos que a coisa fosse piorar tanto. Tudo começa dessa forma, com o cancelamento ou uma proibição. Espero que não voltemos a viver aquilo, mas é preciso estar sempre atento”, disse a atriz, ao microfone, no palco onde trechos de “Caranguejo Overdrive”, que teve temporada estendida e com entradas esgotadas no Espaço Sergio Porto, na Zona Sul do Rio.

Na Caixa Cultural, a censura de Bolsonaro recaiu sobre a peça “Lembro todo dia de você”, que tinha como protagonista um personagem homossexual e soropositivo. Uma das questões do governo federal era novamente com um beijo gay encenado no palco. Nesta segunda-feira (14), aliás, a ONU divulgou que o Brasil teve aumento de 21% no número de novas infecções por HIV.

Censura prévia

Em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”, funcionários da Caixa Cultural de diferentes estados contaram que o governo de Bolsonaro criou mecanismos de censura prévia e perseguição aberta a determinadas obras e autores. Em uma das fichas para concorrer em editais da Caixa, pede-se informações sobre “histórico do artista nas redes sociais”. Esses tópicos não existiam em anos anteriores, segundo os funcionários da Caixa.

Mais reação

Um dos maiores agitadores culturais e atual secretário municipal de São Paulo, Alê Youssef prometeu criar um festival chamado Verão Sem Censura em que serão encenadas todas as peças vetadas pelo governo federal, incluindo “Caranguejo Overdrive” e outros espetáculos proibidos em sedes da Caixa Cultural de todo país, como “Gritos” e “Abrazo”.

Bolsonaro também sofreu outro revés na semana passada em relação ao desmonte que vem fazendo da produção cinematográfica e da Agência Nacional de Cinema (Ancine). A Justiça Federal que o ministro da Cidadania, Osmar Terra, e a Ancine retomem o edital para projetos audiovisuais em emissoras públicas que contemplou no ano passado filmes de temática LGBT, acusando a pasta de impedir as produções por “inequívoca discriminação por orientação sexual e identidade de gênero”.

A pressão que vem sendo feita sobre o Ministério da Cidadania, que passou a comandar a área de cultura após a extinção do MinC (Ministério da Cultura), também fez Osmar Terra recuar na exoneração de 19 servidores do Centro de Artes Cênicas (Ceacen) da Funarte. Deputados do PT, PDT e Psol entraram com uma representação contra o ministro.

“Os tempos para a cultura não estão fáceis, peças de teatro, mostra de cinema e ciclo de palestras, investimentos no audiovisual com temáticas diversas sendo censurados, assim como há anos veem acontecendo com as religiões de matriz africana e o samba. Não podemos permitir que continue”, disse o babalawô Ivanir dos Santos, durante o ato no CCBB-RJ.

Edição: Vivian Virissimo