Opinião

Editorial | Passou a hora das desculpas

“Chegou a hora de saber para que existem as instituições”

Porto Alegre

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“A cada dia, o clã testa o que resta de democracia. Quando não são os filhos é o pai” / Divulgação

Durante 30 anos, Jair Bolsonaro, na condição de criatura bizarra do baixo clero da Câmara, proferiu barbaridades. Exaltou torturadores, ofendeu pais e mães que buscavam os restos mortais dos filhos desaparecidos, debochou de mulheres, negros e índios, prometeu assassinar opositores e fechar o Congresso Nacional. Discursou em defesa das milícias que se espalham pelo país. Cuspiu na democracia cada vez que teve oportunidade. Deveria ter tido o mandato cassado várias vezes não fosse a complacência da Casa, dos partidos e da mídia. Nunca foi levado a sério.

Eleito presidente em eleição maculada pela exclusão do franco favorito e pela fraude, produziu mais do mesmo, com mais poder e, portanto, representando ameaça de outra e superior dimensão. À parte a exibição cotidiana de ignorância e incompetência, colecionou um rosário de violências contra o Estado Democrático de Direito. Ele e seus filhos agrediram e agridem reiteradamente o Legislativo e o Supremo. Ameaçam a imprensa que não se acadelou.

Valendo-se da postura servil da mais triste figura que ocupou o Ministério da Justiça, passaram a usar a PF como polícia particular da família. A obstrução da justiça confessada no caso do seu condomínio infestado de milicianos é apenas mais um dos tantos episódios capazes de permitir a abertura de um processo de impeachment.

Parece claro o que está acontecendo: a cada dia, o clã testa o que resta de democracia. Quando não são os filhos é o pai. O roteiro se repete: desaforo, reação, desculpas. E as desculpas são aceitas para no dia ou na semana seguinte outro episódio do mesmo gênero comprovar que são tão críveis quanto as explicações do assessor Fabrício Queiroz para sua condição de depositante compulsivo nas contas bancárias dos Bolsonaro.

Passou da hora de aceitar desculpas. Chegou a hora de saber para que existem as instituições. Se para defender o regime democrático ou apenas para servir de biombo para o fascismo. Se estão, de fato, funcionando ou cumprem somente o papel de bibelô de uma ditadura. Não é tempo de cultivar ilusões que só constroem a derrota. É a hora da verdade. Na pior das hipóteses, a sociedade saberá quem terá ao seu lado para enfrentar o que já está a caminho.

Edição: Katia Marko e Ayrton Centeno