AMÉRICA LATINA

Estudantes colombianos que vivem no Brasil fazem manifesto em apoio à greve

As principais cidades da Colômbia registraram nesta quinta (21) alta adesão à paralisação geral contra as privatizações

Belo Horizonte

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Estudantes denunciam assassinatos, corrupção do governo colombiano e proposta de reforma da aposentoria / Levante Popular da Juventude

Estudantes de Belo Horizonte se reuniram para mandar um recado a estudantes colombianos. Uma roda de conversa aconteceu no dia 20 de novembro, organizada pelo Levante Popular da Juventude com os estudantes do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O assunto foi o golpe na Bolívia e a conjuntura política da América Latina.

Para o debate foram convidados o professor Célio Horta e estudantes da Colômbia, intercambistas na UFMG. Durante a conversa, foi lido um Manifesto dos Estudantes Colombianos em apoio à Greve Geral que acontece nesta quinta (21) contra os ataques aos direitos do povo colombiano e a grande violência por parte do Estado. O manifesto fala da conjuntura política do país e lista as principais medidas que, na opinião dos estudantes, promove injustiça contra a população colombiana. Entre as medidas, por exemplo, o assassinato de 777 líderes sociais desde 2016.

Confira o manifesto:

Manifesto de estudantes internacionais

Conjuntura da Colômbia

Em meio a 39,35% de abstenções nas últimas eleições, a corrupção e com uma forte campanha de medo por parte da direita colombiana, no dia 7 de agosto de 2018 é empossado o novo presidente, improvisado, conhecido mais por seu “carisma” do que por sua experiência e liderança. Ivan Duque chega ao poder com o apoio do partido político Centro Democrático, liderado por Álvaro Uribe Velez, ex-presidente da Colômbia e atual senador. Duque começou seu governo promovendo uma política de “segurança democrática ao povo colombiano”, que nada mais é do que uma pantomima contra a paz, uma fachada em prol da guerra, na qual acontecem crimes de Estado, desaparecimentos, assassinatos, ameaças e inumeráveis atos contra os direitos humanos, encabeçado por Ivan Duque e sua política de medo.

Diante disso, muitos coletivos se unem para protestar contra um governo injusto: um povo que demanda justiça pelo assassinato de mais de 155 líderes sociais, a militarização das cidades, ameaças a estudantes e líderes. Este povo que hoje se organiza começará o dia 21 de novembro de 2019 uma Greve Geral na Colômbia com o objetivo de mostrar a inconformidade e sua luta contra a inoperância, injustiça e corrupção do atual governo e será apoiada por trabalhadores, indígenas, líderes sociais e estudantes.

Por isso, como colombianas e colombianos no exterior, vemos a responsabilidade de chamar à consciência do que está acontecendo em nosso país e as razões pelas quais apoiamos o povo que se manifesta neste 21 de novembro na Colômbia, como abertura da Greve Nacional. Somos contrários às seguintes medidas:

1)      Assassinato por parte do exército de 18 crianças, entre 12 e 17 anos, que foram recrutadas pela guerrilha num combate em San Vicente del Caguán, umas das regiões mais afetadas pelo conflito armado.

2)      Assassinato de líderes sociais indígenas, afro-colombianos e camponeses, defensores de direitos sociais e ambientais, sendo o número de mortos deste ano de 155 e um total de 777 desde  2016.

3)      Escândalos de corrupção por parte de diferentes políticos filiados aos partidos do governo atual e seus aliados.

4)      Propostas de reformar a idade da aposentadoria, além de querer reformar as condições de trabalho para que os menores de 25 anos ganhem menos do salário mínimo para “incentivar a economia”.

5)      Sucateamento da educação.

6)      Interesse por parte do governo em implementar a reeleição indefinida para perpetuar-se no poder.

7)      Resolução 350 de 2019, que regula a pesca artesanal e incidental das barbatanas de tubarão, além de outras medidas contra da proteção do meio ambiente como o uso do fracking.

8)      Censura que está cometendo o governo contra redes de televisão como o Canal Uno, assim como o ataque a estudantes, profissionais e entidades, além da perseguição e estigmatização contra a Greve Nacional.

Ante tudo isso, rejeitamos esses atos de violência e solicitamos ao Governo Nacional que:

1)      Avance nas ações institucionais necessárias para garantir a proteção das comunidades declaradas em alto risco, e evitar novos ataques. É fundamental que o governo priorize as alertas urgentes da Defensoria do Povo, avance na implantação do Sistema Integral de Segurança para o Exercício da Política –SISEP- estabelecido no Acordo, e articule os cenários de pós acordo como estabelecido na Lei 1448 de 2011 ou Lei de Vítimas e Restituição de Terras.

2)      Escute de forma prioritária a todas as comunidades que têm sofrido diversos atos de violência nos três anos do pós acordo, e dê resposta oportuna, integral e urgente. Essas comunidades demandam atenção humanitária e soluções de proteção integral, de acordo com suas dinâmicas geográficas e socioculturais. As ações militares contra os grupos armados deverão sempre estar sob o Direito Internacional Humanitário.

3)      Avance na implementação do Acordo de Paz, particularmente na Reforma Rural Integral e nos Planos de Desenvolvimento com Foco Territorial, já que estamos seguros que é a estratégia mais eficaz para superar a desigualdade no interior e enfrentar a guerra. Organizações criminosas transnacionais e outros grupos ilegais têm aproveitado o abandono estatal territorial que o acordo pretendia enfrentar.

4)      Assuma as responsabilidades políticas antes os atos acontecidos. Com isso, pedimos que, em cumprimento do Artigo 44 da Constituição, que ampare os direitos da população infantil, se tomem medidas necessárias para levar o devido processo judicial às pessoas que ordenaram o bombardeio das 18 crianças camponesas.

5)      Transforme sua linguagem estigmatizante frente aos atores e setores sociais que trabalham pela paz, independentemente da sua filiação política. É dever do governo cuidar pela diversidade de vozes do espectro político no debate público, pois desta forma se assegura um entorno deliberativo e democrático.

Finalmente convidamos a diversos grupos e organizações sociais e políticas a acompanhar este processo difícil que está acontecendo na Colômbia e na América Latina. Precisamos de seu apoio, pois assim mesmo podemos visibilizar as problemáticas e diferentes mecanismos de pressão para encontrar soluções.

Obrigado pela atenção. 

Atenciosamente, 

Esteban Zabala Gómez - Antropólogo da Universidad Nacional de Colombia e mestrando em História da UFMG.

Nicol Santana Tovar- Estudante de Licenciatura em geografia, atualmente fazendo intercâmbio na Universidade Federal de Minas Gerais. 

Julian Camilo Triana Infante - Físico da Universidad Nacional de Colombia e mestrando em Física da UFMG.

Maria Alejandra Leal Acosta- Estudante de graduação em teatro, atualmente fazendo intercâmbio na Universidade Federal de Minas Gerais.

Edição: Joana Tavares