Crônica

Coluna Luzes da Cidade | Meio pão e um livro

A imaginação pode operar milagres, como aplacar até a necessidade mais primeva

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Mariana Sanchez é colunista do Brasil de Fato Paraná / Arte: Vanda Moraes

Inaugurava-se a primeira biblioteca de Fuente Vaqueros e o poeta espanhol Federico García Lorca, que ali nascera, estava mesmo emocionado. Lorca, que jamais tinha um livro à mão, pois presenteava ao invés de acumular, sabia que o saber é oxigênio, livre e vital, e que deve, portanto, circular. Não só de pão vive o homem, disse o poeta, parodiando aquele que teria multiplicado o pão. E disse também isso: se sentisse fome e estivesse à míngua, não pediria um pão, mas meio pão e um livro.

Lembrei então uma história que me contaram no Peru, sobre uns amigos tão pobres, que a única comida que tinham eram as páginas de um livro de culinária achado no lixo. Aquelas fotografias de bolos e massas e frutos do mar forravam-lhes a barriga antes de dormirem, alimentavam seus sonhos. A imaginação pode operar milagres, como aplacar até a necessidade mais primeva. E Lorca sabia disso. Como sabia que a agonia de um corpo faminto dura pouco, mas a sede de saber pode durar uma vida inteira se não for saciada em liberdade.

Edição: Lia Bianchini