POVOS INDÍGENAS

Estudantes indígenas promovem encontro estadual no Paraná

EREI-Sul aconteceu em Curitiba, entre os dias 27 e 29 de novembro

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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O encontro teve também o intuito de fomentar um espaço de formação para lideranças e para a juventude indígena / Lia Bianchini

“Acadêmicos indígenas em resistência - trajetórias, direitos, territorialidade epistêmica”. Esse foi o tema do 4º Encontro Regional de Estudantes Indígenas do Sul do Brasil (EREI-Sul), que aconteceu entre os dias 27 e 29 de novembro, na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Ao longo dos três dias, foram debatidos temas como o desenvolvimentismo e as violações dos direitos dos Povos Indígenas, as políticas afirmativas para os povos indígenas, saúde indígena, atuação das mulheres indígenas no espaço político e a educação indígena no contexto da universidade.

“O EREI tem o intuito de pensar e fomentar a permanência indígena [na universidade], que não se resume somente à questão financeira, à bolsa, mas a um espaço coletivo nosso, em que a gente possa fomentar nossa narrativa, nosso modo de transmissão de saberes, as nossas ciências”, explica Nyg Kaingang, estudante de Serviço Social da UFPR.

No Paraná, os indígenas contam com uma política exclusiva de acesso à universidade: o Vestibular dos Povos Indígenas do Paraná, que já acontece há 19 edições. A UFPR é uma da universidades participantes, junto à Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO), Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) e Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR). A cada ano, as universidades estaduais destinam seis vagas para indígenas do Paraná e a UFPR destina dez vagas para indígenas de todo o Brasil.

Obstáculos no caminho

Apesar da política afirmativa, segundo Nyg, ainda existe um longo caminho a ser percorrido pelos estudantes indígenas para que suas presenças sejam verdadeiramente aceitas e incorporadas ao ambiente da universidade. “Construir o EREI foi um processo muito desafiador, porque sabemos que as instituições ainda são muito conservadoras, elas não se atentam a essa questão da presença indígena. A gente busca essa dita interculturalidade que nos falam, mas a gente não consegue ver, porque ainda é uma coisa que vem dos brancos, que não querem entender o que é nosso. A gente pode contribuir também para transformar esse espaço”, diz.

Além das barreiras a serem transpostas no ambiente institucional e universitário, existe ainda a barreira da forte valorização da cultura colonizadora na região sul do Brasil. Atualmente, nos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina vivem os povos Guarani, Kaingang, Xokleng e Xetá. Nyg Kaingang lembra que, no passado, Santa Catarina foi um estado que adotou como política pública o extermínio indígena, “a caça aos bugres”.

“A colonização continua. Ainda existe esse racismo, esse preconceito com relação aos indígenas. O histórico na região sul é muito pesado. Mas, ao mesmo tempo, o nosso existir enquanto Xokleng, enquanto Kaingang, enquanto povos do sul é um enfrentamento direto, um processo constante. Enquanto indígenas, a gente está em constante transformação para poder aguentar e tocar nossa luta”, afirma Nyg.

Participaram do EREI indígenas de diferentes povos e territórios, entre crianças, jovens e idosos. O encontro teve também o intuito de fomentar um espaço de formação para lideranças e para a juventude indígena, sendo parte do processo de construção do movimento indígena, em diálogo com organizações representativas como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Articulação dos Povos Indígenas do Sul (Arpin-Sul).

 

Edição: Pedro Carrano