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Bolívar, presente!

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Bolívar queria libertar todo o continente, não apenas dos espanhóis, mas de todo tipo de opressão - Reprodução
Nenhuma política genocida da extrema direita nos tirará a esperança e a força de lutar

Nesses dias, um vídeo pago pelo governo norte-americano e espalhado pela internet apresenta Simon Bolívar como bandido e assassino. Isso nos obriga a retomar a memória do grande libertador e profeta da unidade latino-americana. Nesta semana, o 24 de julho nos lembra o dia do seu nascimento em Caracas no ano de 1783. 


 No mesmo país, sede do império, onde, atualmente, o governo promove e executa guerra de notícias falsas, no final do século XIX, José Marti, um dos maiores intelectuais e pensadores da América Latina e Caribe, escrevia: “No princípio do século (XIX), desde as entranhas até os cumes mais altos, ao se estremecer, a América se fez homem e foi Simon Bolívar. (...) A América toda fervia. Vivia fervendo, há séculos. Jorrava sangue por todas as frestas, até que as montanhas se abalam e do meio das serras sai alguém que é um monte mais alto que sobre os demais brilha eterno. Por entre todos os líderes americanos, resplandece Bolívar. Ninguém o vê quieto. Ele nunca o foi. Sua luta foi andar até vencer. Nós os cubanos, o veremos sempre organizando com Sucre, a expedição que não chegou a realizar: para libertar Cuba! (...) Quem tem pátria, a honre. Quem ainda não a tem, a conquiste. Estas são as únicas homenagens dignas de Bolívar”.  “O que ardorosamente o motivava era a nossa libertação. Sua linguagem foi a da nossa natureza. Sua pátria era o nosso continente... 


Quando se fala em Bolívar, a pessoa já se vê frente ao monte ao que, mais do que a neve, serve um encapotado ginete de coroa... De Bolívar se pode falar tendo a montanha como tribuna. Entre relâmpagos e raios, ele trazia nas mãos o destino de povos livres e, aos pés, a tirania agrilhoada. (...) Era um homem extraordinário. Viveu como entre chamas e o era. O que amou e o que ele diz é como tição de fogo” ((Obras Completas, vol. 8, Nuestra América, Editorial de Ciências Sociales, La Habana, 1975, pp. 251 – 253 e pp. 242- 243). 


 Simon Bolívar nasceu de uma família nobre e rica da Venezuela. Perdeu os pais muito cedo e teve como tutor Simon Rodriguez, filósofo que defendia a importância da educação para a libertação da sociedade e propunha abrir as escolas às crianças negras e indígenas. Desde jovem, Bolívar envolveu-se em movimentos rebeldes contra o governo espanhol. 


Em 1799, aos 15 anos de idade, foi enviado pelos tios à Espanha. Passou três anos na Europa, onde, aos 17 anos, casou com Maria Tereza Rodriguez y Alaiza, filha de uma das famílias aristocráticas da Espanha. Com ela, voltou a Caracas. Poucos anos depois, Maria Tereza morreu de febre amarela. Bolívar prometeu nunca mais casar. Quis dedicar toda a sua vida à libertação da América do Sul. Dizia: “Ainda que a guerra seja o resumo de todos os males, a tirania é o resumo de todas as guerras”.  “Juro diante do Deus de meus pais, que não permitirei que meu braço descanse, nem minha alma sossegue, até romper com os grilhões que nos oprimem”.  


Com a bandeira Liberdade ou Morte, fez 2.400 homens marcharem através das selvas do rio Orinoco, durante a temporada de chuvas e depois subir os Andes, em suas trilhas geladas. Queria libertar todo o continente, não apenas dos espanhóis, mas de todo tipo de opressão. A marcha de cinco mil quilômetros através dos Andes, a quatro mil metros de altitude, é considerada um dos maiores feitos militares da história. Tinha o sonho de unificar a América Latina. De fato, conseguiu libertar seis países. Com os generais San Martin, Sucre e O´Higgins, liderou as lutas de libertação do Equador, do Chile, da Bolívia e até da Argentina.


Bolívar venceu exércitos inimigos e enfrentou todas as dificuldades da natureza e da vida. No entanto, sucumbiu à ambição pessoal e à estreiteza de visão dos seus próprios companheiros de luta, que foram tomando o poder nos diversos países conquistados.  Ao contrário de muitos que nascem pobres e morrem ricos, Bolívar nasceu rico em berço de ouro. Morreu pobre e abandonado, não porque desperdiçou suas riquezas, mas porque as abandonou para permanecer fiel aos seus ideais. 


Quase 200 anos depois de sua morte, o continente continua dividido e dominado pelo império econômico das multinacionais, do poderio militar norte-americano e de uma elite escravocrata que não muda. Há pouco mais de 20 anos, na Venezuela, Hugo Chávez retomava e atualizava o espírito do Bolivarianismo propondo aprofundar suas três propostas fundamentais: integrar todo o continente em uma só pátria grande, respeitando a autonomia e liberdade de cada país, mas criando uma solidariedade continental; libertar o continente de todo tipo de imperialismo e dominação internos e externos; caminhar para uma justiça socioeconômica que possibilite um novo tipo de socialismo democrático e a partir das culturas originais latino-americanas. 


Com este programa, em poucos anos, Chávez conseguiu eliminar a fome e o analfabetismo na Venezuela. Em 2008, a ONU declarou que, em toda a América Latina, a Venezuela era o país que mais tinha conseguido diminuir as desigualdades sociais. Nos últimos 10 anos, a guerra midiática e de bloqueio econômico promovida pelo império norte-americano criou um clima de instabilidade social e econômica. Assassinou pessoas e demoliu muitas das conquistas do bolivarianismo. No entanto, não conseguiu destruir os ideais revolucionários do povo e a esperança de todas as pessoas que lutam pacificamente por um novo mundo possível. 


Profetas e poetas nos asseguram: é quando a noite se torna mais escura que a madrugada chega mais luminosa. Nenhuma política genocida da extrema direita nos tirará a esperança e a força de lutar. Viva Bolívar!

Edição: Monyse Ravena