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Marx e o mercado

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Força humana de trabalho, em vez de ser reconhecida e valorizada para livre criação, foi transformada em mercadoria - Foto: Reprodução
A mercadoria e a sua produção existiu antes do capitalismo

Qual é a diferença entre o dinheiro e o capital? Marx achava que a diferença estava na forma de circulação característica de cada um dos dois.

As sociedades antigas faziam o dinheiro funcionar quase que tão somente como um meio próprio para facilitar o comércio. Ou seja, quem possuísse uma mercadoria, a venderia para ter dinheiro e assim poder comprar outra mercadoria que lhe interessasse.

Já, na sociedade moderna, o dinheiro, a partir do século XVI, começa cada vez mais, a se converter em capital, uma vez que quem possuísse dinheiro, compraria uma mercadoria, na intenção de vendê-la e assim tirar vantagem, recuperando o que gastou, com um aumento. Então, neste caso, o dinheiro, por seu destino, tornasse capital. O valor de troca – não o uso – é o motivo que impulsiona a finalidade concreta da operação.

O capital não tem consideração pela saúde do trabalhador

Sendo assim, o dinheiro deixa de ser meio, para ser fim. Portanto, quem possui o dinheiro age como um capitalista, e o investe para fazê-lo aumentar.

Mas, de onde vem o aumento do dinheiro?

Terá o dinheiro a capacidade milagrosa de se multiplicar nos movimentos que o obrigam a fazer? Marx entende que não.

A mercadoria e a sua produção existiu antes do capitalismo, tudo o que se produzia para o mercado, era mercadoria, ou seja, mercadoria era tudo o que se produzia para vender e não para o uso imediato do produtor. Foi o sistema capitalista que a generalizou.

Quando o capitalismo se expandiu, o “sistema de produção” também foi se estendendo para o mercado. Pode-se dizer que o capitalismo alienou a vida humana.

Então, tudo no capitalismo foi transformado em mercadoria. Tudo foi reduzido a um valor que pudesse ser medido em dinheiro. O dinheiro foi manchando todos os cultos, e tornando referentes todos os valores.

Força humana de trabalho virou mercadoria

A própria força humana de trabalho – em vez de ser reconhecida e valorizada como o meio essencial que o homem possui para a livre criação de si mesmo – foi, por outro ângulo, sendo transformada em mercadoria.

Para Marx, no capitalismo “o trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades”, necessidades essas, que não seriam é claro, as do trabalhador, e sim de quem possui os meios de produção. “Na manufatura e no artesanato, o trabalhador utiliza a ferramenta; na fábrica, ele é um servo da máquina”, ou seja, “o processo da produção passou a dominar o homem, em vez de ser dominado por ele”.

As leis do mercado se impõem ao trabalho, onde os preços, os números e as tarifas de rendimento comandam as operações. As pessoas figuram no quadro da produção apenas como instrumento.

O deslocamento das peças no mercado vão aparecer como um deslocamento automático, bem superior à vontade humana.

Fetichismo da mercadoria

Economistas fisiocratas chegaram a estudar os fenômenos da economia como se esses fenômenos fossem dirigidos por uma lei natural. Adam Smith entendia que esses fenômenos se apresentavam por meio de uma “mão invisível”. A atividade produtora no sistema capitalista não é exercida em termos “humanamente ocasionais”, e sim levada a cair sob o domínio de uma “racionalidade inumana”.

Assim sendo, a mercadoria não é alvo de uma sentença de um trabalho humano objetivo. Seu legítimo significado está encoberto sob uma figura que se remeta e impossibilite que os homens vejam na economia uma realidade que eles criaram, podendo sempre ser modificada. Essa foi a forma que Marx chamou de o “fetichismo da mercadoria”.

Quanto mais produz, menos tem para consumir

Sendo assim, para Marx: “Quanto mais o operário produz, menos tem para consumir; quanto mais cria valores, mais se deprecia”.

A utilidade de uma mercadoria constituirá para Marx, o seu valor de uso. Ou seja, “isso não depende de se, na apropriação de seus tributos úteis pelo homem, este emprega maior ou menor quantidade de trabalho. O valor de uso só se realiza na utilização ou no consumo. Valores de uso constituem o conteúdo material da riqueza, seja qual for sua forma social. Na forma de sociedade que vamos observar, eles são simultaneamente os veículos materiais do valor de troca”.

Para Marx, “o capital não tem a menor consideração pela saúde ou duração de vida do trabalhador, a não ser quando a sociedade o força a respeitá-las”. A livre concorrência irá fazer “com que as leis imanentes à produção capitalista vigorem frente ao capitalista individual como leis externas compulsórias”.                     

Antonio Manoel Mendonça de Araujo é professor de Economia, Conselheiro do Sindicato dos Economistas (SINDECON/MG) e ex-Coordenador da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED-MG)

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Este é um artigo de opinião e a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Edição: Elis Almeida