Minas Gerais

Coluna

Assédio eleitoral e a obra da escravidão

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Antonio Augusto - TSE
Governo Bolsonaro fez desta eleição a mais suja da história

Em 1922, Alberto Santos Dumont correspondia-se, da Europa, com o proprietário vizinho de sua fazenda Cabangu, em Minas Gerais, José Jorge Sá Fortes. Este, numa das cartas, informa a Dumont que o vaqueiro de sua fazenda pedia licença ao patrão para se casar. Na carta seguinte, o pai da aviação responde: “diga a ele que tem minha licença e minha benção”.

Sim, 100 anos atrás um empregado – não um escravo -, pedia licença ao patrão para se casar. E mesmo um homem como Santos Dumont, ícone da modernidade, frequentador das altas rodas do “grande monde” parisiense, não estranhava conceder, no Brasil, licença e benção a um vaqueiro para se casar. Santos Dumont e seu vizinho eram homens de sua época: natural, para eles, a extrema subserviência dos pobres à elite em uma sociedade que terminara (formalmente) com a escravidão há pouco mais de 30 anos.

As coisas mudaram. Mas nem tanto como deveriam. Em 2022, muitos empregadores ainda pensam que seus empregados lhes devem pedir licença - para votar. O assédio eleitoral no pleito deste ano foi enorme. Em igrejas, prefeituras, empresas, até em famílias. Nos vários tipos de relações sociais em que há disparidade de poder, lá esteve a coação eleitoral a favor de Jair Bolsonaro, prática imoral e ilegal.

O Ministério Público do Trabalho recebeu 2.749 denúncias de assédio eleitoral em empresas e instituições públicas em todo país. Minas Gerais, infelizmente, foi o estado com mais ocorrências. É apenas a ponta do iceberg. Difícil medir o impacto nas urnas dessa coação generalizada. Assim como de outras ações do governo Bolsonaro, que fizeram desta eleição a mais suja e desigual desde a República Velha.

Voto de cabestro ontem e hoje

Um indicativo pode ser o que ocorreu em Coronel Sapucaia, Mato Grosso do Sul, onde Lula e Bolsonaro empataram no 1º turno: 4.254 votos para cada. Pouco antes do 2º turno, a equipe do Profissão Reporter, do jornalista Caco Barcellos, flagrou uma reunião em que centenas de beneficiários do Auxílio Brasil foram convocados para serem coagidos a votar em Bolsonaro. No 2º turno, os votos em Bolsonaro no município cresceram 6%, foram 4.530. Lula diminuiu, 4.090 votos.

Não se pode afirmar que todos esses votos a mais em Bolsonaro deveram-se ao assédio. Com certeza, entretanto, essa prática criminosa rendeu frutos, em Coronel Sapucaia e no Brasil. Mas não tanto como se almejou, por causa da resistência popular e do voto secreto na urna eletrônica.

Na época de Santos Dumont, o voto não era secreto, e as eleições eram um vexame nacional: descaradamente manipuladas e/ou fraudadas. Em todo o Brasil, os “coronéis”, poderosos locais, arregimentavam seus “currais eleitorais” (nome sugestivo do desprezo com que os cidadãos eram tratados) para votar em determinados candidatos. O infame “voto de cabresto”, do qual parte, esperamos que minoritária, da elite brasileira parece ter saudades, enquanto a maioria do povo quer respeito e liberdade, e repele a tutela – sem essa de pedir licença para casar, e para votar também!

A criação, no governo Vargas, da Justiça Eleitoral respondeu ao anseio de tantos críticos desse sistema eleitoral vergonhoso da República Velha. E caso a Justiça Eleitoral não garantisse, nesta eleição de 2022, o voto secreto, pela urna eletrônica, o desastre seria maior.

Vitória heróica e antipetismo

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva foi uma vitória heróica, dramática, não só das esquerdas, mas de todas as forças que defendem a democracia e um nível mínimo de ordem e civilidade. Uma batalha que não podia ser perdida, sob pena de se aprofundar, no país, o caos miliciano num grau que seria difícil reverter a curto prazo.  O governo Lula é outra batalha que não pode ser perdida. E nessa batalha a questão das elites e das classes médias é uma das mais importantes.

A parcela dos poderosos que embarcaram na canoa furada da coação eleitoral foi movida pelo antipetismo. Este não é novidade, uma tendência da maioria das elites e de parte das classes médias, as quais, na prática, estão mais próximas dos de baixo, mas na ideologia identificam-se, numa ilusão trágica, com os de cima.

Antipetismo insuflado, cuidadosamente nutrido, primeiro pela mídia tradicional e em seguida, num grau mais perverso e elevado ainda, pelo sistema de mentiras e desinformação que a extrema direita montou, no Brasil e no exterior. Máquina diabólica que joga milhões de suas vítimas (sim, é isso que são, embora sejam transformadas em monstros também) em uma realidade paralela, verdadeira lavagem cerebral coletiva.

Desarmar essa bomba é fundamental. Certamente é importante punir a corrupção e malfeitos do governo Bolsonaro, os criminosos que fizeram assédio eleitoral, que financiaram e foram coniventes com os bloqueios de rodovias. De nada adiantará, contudo, se a extrema direita continuar operando, impunemente, lavagem cerebral em massa.

Combater a obra da escravidão

Joaquim Nabuco, pouco antes da Lei Aurea, disse que acabar formalmente com a escravidão era fácil. Difícil, tarefa de gerações, seria combater a obra da escravidão. A obra da escravidão eram as consequências profundas, enraizadas, nos planos político, econômico e sociocultural de uma nação formada no escravismo e na invasão e conquista de terras dos povos originários.

Vemos a obra da escravidão em ação quando o assédio eleitoral se espalha como nesta última eleição, e, por trás dele, a engrenagem de criação de realidade paralela do fascismo nacional e internacional.

A tarefa crucial – mais que política, civilizatória mesmo – é derrotar essa máquina perversa que alimenta a obra da escravidão. Assédio eleitoral nunca mais!!!

Rubens Goyatá Campante é doutor em Sociologia pela UFMG e pesquisador do CERBRAS/UFMG

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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

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Edição: Elis Almeida