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Coluna

O que é que a gente realmente quer do novo treinador da Seleção Brasileira?

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Carlo Ancelotti passou por diversos clubes do futebol europeu e é o atual campeão da Liga dos Campeões e do Mundial de Clubes pelo Real Madrid - Reprodução / Twitter / Real Madrid CF
Quem acompanha o escrete canarinho sabe bem que os ciclos da equipe são marcados por rupturas totais

*Luiz Ferreira

De acordo com a ESPN, a Seleção Brasileira já teria um novo treinador “engatilhado”. Trata-se de Carlo Ancelotti, atual campeão da Liga dos Campeões da UEFA e do Mundial de Clubes no comando do Real Madrid e que coleciona passagens (e vários títulos) em outros gigantes do futebol do velho continente como Chelsea, Milan, Paris Saint-Germain e Bayern de Munique. O italiano assinaria contrato até agosto de 2026 (logo depois da próxima Copa do Mundo) e os detalhes ainda estariam sendo discutidos. Tanto Carlo Ancelotti como a CBF negaram o acerto.

Especulações deste tipo fazem parte do noticiário esportivo. Ainda mais depois da eliminação traumática da Seleção Brasileira no Mundial do Catar. Já se falou nos espanhóis Pep Guardiola e Luís Enrique (técnico da Espanha na última Copa do Mundo), nos portugueses Jorge Jesus e Abel Ferreira e nos brasileiros Dorival Júnior, Fernando Diniz e Mano Menezes. O pouco que se sabe sobre o assunto vem das palavras do presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, que afirmou que deseja um técnico “de respeito e ofensivo” além de não descartar a chegada de um estrangeiro.

Quem acompanha o escrete canarinho sabe bem que os ciclos da equipe (na sua grande maioria) são marcados por rupturas totais com o trabalho que vinha sendo feito anteriormente. Dunga substituiu Carlos Alberto Parreira depois da  bagunça na Copa de 2006 na clara escolha da CBF por um treinador “linha dura”. Mano Menezes assumiu depois do Mundial da África do Sul e perdeu o cargo para Luiz Felipe Scolari (em uma reedição fracassada da “Família Scolari” em 2014). Dunga voltou depois da Copa no Brasil e foi substituído por Tite ainda em 2016.

A escolha por um treinador estrangeiro, para muitos, significa mais uma ruptura nesse sentido.

A diferença é que ela seria ainda mais profunda por conta do choque de culturas e dos métodos de trabalho estranhos para todos nós aqui por estas bandas.

Pessoalmente, não sou contrário à contratação de um técnico estrangeiro para a Seleção Brasileira, mas também não faço campanha para tal. Meu pensamento é mais simples e muito mais pragmático. Eu não dou a mínima se ele nasceu no Brasil, na Espanha, na Itália, em Madagascar, nas Ilhas Maldivas, em alguma das luas de Júpiter ou se veio de algum outro sistema interplanetário. Se esse cara é o melhor treinador à disposição, eu quero ele no meu time.

Vejam bem que se fala muito em nacionalidade, em estilo de jogo, na postura diante do elenco e da imprensa, mas pouco se fala sobre aquilo que é o mais importante. Na prática, isso pode ser resumido pela pergunta do título desta crônica: o que é que a gente realmente quer do técnico da Seleção Brasileira?

Na prática, não adianta nada você trazer o Ancelotti ou o Guardiola pra Seleção Brasileira sem que qualquer um deles tenha um mínimo de condições de trabalho e no meio de um calendário mais bagunçado que a defesa do Brasil no 7 a 1 pra Alemanha. Trazer qualquer estrangeiro pra cá na esperança de que as coisas se resolvam como num passe de mágica é mostrar um completo desconhecimento do que passamos por aqui. E isso pra não falar em desonestidade.

Me permitam fazer um paralelo com a Seleção Feminina. Pia Sundhage assumiu o comando da equipe logo depois da Copa do Mundo de 2019 e foi implementando seus métodos de trabalho aos poucos. Entendeu que a modalidade como um todo precisava se igualar aos grandes centros do futebol feminino em todos os aspectos: preparo físico, preparação e captação de atletas, fortalecimento das competições nacionais, reformulação do elenco e maior atenção às categorias de base.

Tenho muitas críticas a alguns pontos do trabalho tático de Pia Sundhage, mas é impressionante como a Seleção Feminina ganhou muito em competitividade e consistência nos últimos meses.

Fora o grande número de jogadoras que se destacaram por aqui e que já se mandaram para a Europa e para os Estados Unidos. Enquanto alguns comentaristas se questionam por que A ou B não são mais convocadas, pouquíssimos (basicamente apenas os bravos membros da mídia independente) chamam a atenção para a qualidade dos campos à disposição das nossas jogadoras e sobre a falta de zelo dos nossos grandes clubes com relação ao futebol feminino.

Será que torcedores e imprensa esportiva estão prontos para uma ruptura desse tamanho? Sinceramente, eu acho que não. Isso porque tem muita gente que ainda acha que o futebol como um todo ainda está nos anos 1980 e 1990 e que as coisas são resolvidas na base do papo e da resenha. O objetivo ainda é “colocar a bola na casinha”, mas muita coisa mudou nos últimos trinta anos.

E sejamos sinceros… A impressão que eu tenho é a de que alguns colegas pensam que a simples chegada de Ancelotti, Jorge Jesus ou Guardiola é a solução de todos os problemas da Seleção Brasileira. Mas todos se esquecem de que qualquer selecionado nacional é o retrato do futebol de cada país.

Querem melhor exemplo do que a Argentina campeã mundial em 2022?

A própria AFA (Associação do Futebol Argentino) percebeu que os melhores jogadores estavam fora do país e trataram de levantar um centro de treinamento na Europa para que todos que atuam por lá pudessem se reunir e treinar juntos ao longo dos meses que antecederam a Copa do Mundo do Catar. Houve o reconhecimento por parte da própria entidade que comanda o futebol portenho de que a liga local não oferecia o material humano desejado para se formar uma seleção forte. A solução foi buscar esses todos esses jogadores no exterior. E vale lembrar que o técnico Lionel Scaloni era auxiliar de Jorge Sampaoli na Copa de 2018.

Não estou dizendo que deveríamos fazer o mesmo que nossos “hermanos”. A solução de cada problema depende do contexto de cada país. E na minha humilde opinião, nós não queremos “apenas” um treinador para a Seleção Brasileira. Queremos uma espécie de “Harry Porter futebolístico” com capacidade de trazer todos os resultados que queremos sem que a estrutura seja modificada.

Não sou contrário à chegada de um estrangeiro na Seleção Brasileira. Mas ver muita gente tratando isso como a “solução de todos os problemas” me deixa meio ressabiado com relação ao que estas pessoas pensam sobre o que realmente é o futebol brasileiro.

Tem uma galerinha aí que pensa que isso aqui é o paraíso. Não sei se por ingenuidade ou conveniência.

*Luiz Ferreira escreve toda semana para a coluna Papo Esportivo do Brasil de Fato RJ sobre os bastidores do mundo dos atletas, das competições e dos principais clubes de futebol. Luiz é produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista e grande amante de esportes.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Mariana Pitasse