Abril Vermelho

Militantes marcham pela democracia e pela reforma agrária em cinco capitais

Milhares de pessoas caminharam por ruas e estradas em Belo Horizonte, Maceió, Cuiabá, Natal e João Pessoa

São Paulo

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"A gente marcha e coloca na cabeça do povo que eles têm direito de reclamar", afirma Jairo Nunes da Silva, que marcha ao lado da família / Rafaella Dotta/BdF-MG

Desde o dia 21 deste mês, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem promovido marchas "pela reforma agrária e pela democracia" que reuniram cerca de 6 mil pessoas em pelo menos cinco capitais brasileiras: Belo Horizonte (MG), Maceió (AL), Cuiabá (MT), Natal (RN) e João Pessoa (PB). 

As caminhadas fazem parte das atividades do Abril Vermelho, agenda de atos que ocorre todos os anos em memória do Massacre de Carajás, que aconteceu em 17 de abril de 1996, no Pará. Neste ano, porém, a pauta do movimento inclui a luta contra a ruptura democrática, já que, para os militantes, o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff é um golpe e, se for bem sucedido, trará sérias consequências à população, especialmente aos mais pobres.

“Um dos maiores objetivos é a luta pela democracia, contra o golpe, mas também entra outras pautas, relacionadas aos programas sociais, aos direitos dos trabalhadores, à saúde, à educação e à reforma agrária. É dialogar com a população que muitas vezes só tem acesso à informação por meio da grande mídia”, afirma Ester Hoffman, da coordenação nacional do MST.

Do interior para a cidade

Segundo integrantes do movimento, cada uma das passeatas partiu de cidades do interior em direção à capital de seu estado. No percurso, foram realizados debates e atividades culturais para dialogar com a população.

“Estamos lutando para ter melhoria e não ter derrota”, afirma Jairo Nunes da Silva, de 49 anos. “Estou marchando há sete dias. Fomos na Samarco e agora estamos aqui em Sabará (MG). Sem desanimar, marchando pra frente. Amanhã serão mais 15 quilômetros a pé”. Há um ano e meio no movimento, o assentado marcha ao lado de três filhos pequenos e da mulher grávida de oito meses. “Ela anda um pouco e depois vai pra ciranda. O ônibus que dá suporte”, explica.

A marcha mineira, organizada em parceria com a Frente Brasil Popular, começou em Ouro Preto na quinta (21) e chegou a Belo Horizonte nesta terça (26). No mesmo dia será feito um ato às 17h na praça da Liberdade, no centro. A organização contabilizou 3 mil participantes.

“A gente marcha e coloca na cabeça do povo que eles têm direito de reclamar. Algumas pessoas vêm criticar a [presidenta] Dilma [Rousseff], mas logo percebe que, se ela sair, vão cair num poço fundo. Se ela tivesse roubando, não estaríamos lutando pra ela ficar. O povo que colocou ela lá, e até hoje não acharam nada que ela roubou”, pondera Jairo, que também é pastor evangélico.

Segunda

Em Alagoas, a marcha partiu na manhã desta segunda (25) de União dos Palmares, berço da resistência negra do Quilombo dos Palmares. São previstos 80 km de caminhada até a capital Maceió, onde devem chegar na próxima quinta-feira (28).

No mesmo dia, iniciou também a marcha do Rio Grande do Norte, e o ponto de partida foi a cidade de Ceará Mirim, onde se reuniram cerca de 400 pessoas. Ainda na segunda, começou uma caminhada de 40 km que partiu da zona rural de Cuiabá (MT), prevista para terminar nesta terça (26) com atos no centro da cidade.

Paraíba

A marcha paraibana chegou nesta terça com cerca de 400 pessoas, após dez dias de marcha desde Campina Grande. “Quando chegamos, o povo vem ver o que está acontecendo. Aí, já começamos o debate”, explica Rosivan Batista da Silva, da direção nacional do MST-PB. Ele conta que também aconteceram debates formais em ginásios de escolas e em praças ao longo da marcha.

Após a chegada, o grupo teve ma reunião com o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), que assinou uma lei que garante o direito real de uso das terras do Perímetro Irrigado Várzea de Sousa.

Em seguida, seguirão para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), onde exigirão terra, crédito e programas sociais. “É muito cansativo. Marchamos dez horas seguidas. Tem gente que não aguenta. Mas, independentemente do que acontecer, continuaremos mobilizados”, enfatiza Rosivan.

Edição: Camila Rodrigues da Silva