Mobilização

“O período não é só de resistência, é também de construção de um Brasil novo"

Integrante do Levante Popular da Juventude fala do ânimo necessário para as lutas que virão

Belo Horizonte

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Para Luciléia, os ataques aos direitos trabalhistas apontam para um futuro incerto e instável / Pedro Faria

Puxando a bateria e canções criativas sobre a política brasileira, o Levante Popular da Juventude é dos movimentos populares que constrói o “Acampamento pela Democracia”, na Praça da Liberdade, desde o dia 1º de maio. Segundo Luciléia Miranda, estudante e integrante da coordenação do movimento, a juventude tem muito a perder com o golpe em curso, mas também muito a contribuir nas mobilizações por mais direitos. Ela fala sobre o cenário nacional, os “escrachos” e bandeiras de lutas atuais.

Brasil de Fato - Qual o objetivo do acampamento montado na Praça da Liberdade?

Luciléia Miranda - O “Acampamento pela Democracia”, organizado pela Frente Brasil Popular, tem o objetivo de denunciar o golpe em curso hoje no Brasil e discutir com a população os impactos deste atentado à democracia na vida dos trabalhadores e trabalhadoras. E são muitos os impactos, que vão desde a retirada de direitos trabalhistas até o corte de programas sociais como o Bolsa Família. O Levante Popular da Juventude participa da Frente Brasil Popular e constrói o acampamento por acreditar que a juventude também será afetada, principalmente com a precarização do trabalho e com a perda de investimentos em educação.  Os ataques aos direitos trabalhistas colocam para nós um futuro incerto e instável. 

Levante fez um ato na casa do senador Antonio Anastasia (PSDB) no dia 1 de maio, que foi chamado de “escracho”.  O que são esses escrachos e por que Anastasia?

Os escrachos são atos em que expomos figuras públicas que cometeram ações contra o povo. Vamos diretamente até a figura em seu local de moradia, de trabalho ou em algum evento em que esteja presente. No caso do senador Anastasia, a denúncia se deu por dois motivos: o primeiro deles é porque seu partido, o PSDB, é parte da articulação do golpe em curso e o senador cumpre um papel fundamental de relator do processo de impeachment no Senado. Além disso, denunciamos também que Anastasia não tem moral para julgar o processo, já que quando era governador de Minas Gerais cometeu a “cavalgada fiscal”, declarando verbas com vacinas para cavalos como gastos com saúde. 

O Levante tem denunciado recorrentemente o deputado Eduardo Cunha. Por que essa é uma pauta da juventude? Como avaliam a liminar contra ele?

Desde o ano passado, Eduardo Cunha está na lista dos maiores inimigos da juventude. Isso porque, ao assumir a presidência da Câmara dos Deputados, ele colocou em votação diversos projetos que retrocedem em nossos direitos. Um exemplo é a redução da maioridade penal que, longe de resolver o problema da criminalidade, só contribui para o encarceramento da juventude negra e pobre das periferias. O deputado também aparece como um dos articuladores do golpe contra a democracia. É citado em vários esquemas de corrupção e conduz o processo com o objetivo claro de chegar ao poder e parar as investigações contra si mesmo. Vamos continuar cobrando para que ele seja punido por seus crimes. Só essa liminar de afastamento não basta. 

Como vocês fazem para mobilizar os jovens para a participação política?

A situação não é nada favorável, mas em outros momentos da história do Brasil, a juventude já mostrou sua força e capacidade de impulsionar grandes mudanças. Durante a ditadura militar, a luta dos e das jovens foi fundamental para restaurar a democracia. E é com este espírito de quem “não foge da raia a troco de nada”, que novamente nos colocamos para defender o Brasil com muito ânimo e alegria. A inovação nas formas de luta, com a batucada, o teatro, a dança e as intervenções artísticas, é parte importante das mobilizações da juventude e marca a nossa forma de lutar.

Que saídas o movimento vê para a situação política do Brasil?

Em primeiro lugar, é importante nos mantermos mobilizados e organizados, seja em sindicatos, movimentos sociais, associações de bairro ou no movimento estudantil. E o período não é só de resistência ao golpe e à retirada de direitos, é também de construção de propostas para um Brasil novo. Devemos recuperar um projeto de país que coloque na ordem do dia reformas estruturais. Destacamos a democratização dos meios de comunicação e uma Constituinte Exclusiva para a Reforma Política . A primeira, para que o povo possa ter acesso às informações sem a manipulação de grandes veículos como a Rede Globo. Já a última, propõe uma modificação do sistema político que o torne mais democrático, com mais participação popular efetiva nas decisões.