Depoimentos

Vidas nas lavouras

Sete trabalhadores/as contam como é a lida nas plantações de café no Sul de Minas

Especial para o Brasil de Fato

,
Aos 50 anos, Ângela Maria Pereira Camargo sonha com a aposentadoria / Rogério Hilário

João: “Salário mínimo só existe na carteira”

Aos 44 anos, João Tereza Alves, nascido em Conceição do Rio Verde,  há três meses está, pela primeira vez, numa lavoura de café. “Antes era volante, trabalhava em roças diversas. Comecei a trabalhar com 14, 15 anos. Sei que a colheita ocupa a gente por cinco meses. No restante do ano, vou procurar outras lavouras”, diz. 

Com carteira assinada, João recebe por produção, valor que tem como base o salário mínimo. “Ganho por quinzena. O salário mínimo só existe na carteira. Quando acaba a panha, acontece o acerto. Tem mês que produzo mais e, noutro, menos. Não tem como exigir sempre o salário mínimo. Em alguns meses, eu tiro mais. No mês passado, tirei R$ 1.030”, conta.

João pretende se aposentar, porém, conhece as dificuldades. “Tenho cerca de 15 anos de registro.” O problema, na sua opinião, pode ser a idade. “Acredito que com 53 anos daria. Não tive carteira assinada direto. Se fosse assim, aposentaria em 2017. Isso é uma raridade no meio rural”, afirma.

Ângela: “Estou pelejando para aposentar. Tomo remédio para controlar a pressão, o diabetes e o colesterol”

Aos 50 anos,  Ângela Maria Pereira Camargo sonha com a aposentadoria. Com pressão alta e diabetes - a glicemia já chegou a 300, ela às vezes passa mal no serviço - Ângela trabalha na roça, principalmente nos cafezais, há mais de 30 anos. Quase todo este tempo sem carteira assinada. “Estou pelejando para aposentar. Tomo remédio para controlar a pressão, o diabetes e o colesterol”, diz.

Quando não está na colheita, durante a safra, ela capina e faz qualquer serviço na roça para sobreviver, apesar de ser casada com um empregado fixo, Joaquim Donizete Camargo, na Fazenda Sítio Jacaré, em Varginha.

“Meu marido tem serviço todo dia, a gente não tem. Trabalho de quatro a cinco meses na safra e o restante do tempo sou dona de casa. Com a aposentadoria melhoraria um pouco para mim”, acredita.

Elizabeth: “Chego a dar uns gritos de desespero. Pensam que estou louca” 

Elizabeth Madalena de Jesus Lourenço (foto), 60 anos, trabalha em todas as lavouras da região, seja de tomate ou café, desde os 16 anos. A carteira de trabalho foi assinada poucas vezes. Há cinco anos tenta se aposentar, sem sucesso. Apresentou todos os documentos, participou de audiências no Fórum. O juiz da comarca demorou muito para marcar a primeira audiência do processo de aposentadoria. Levou mais tempo ainda para enviar a carta ao INSS. Precisa urgentemente do benefício, pois não consegue trabalhar mais.

“Este ano não quiseram me dar serviço. No ano passado, não assinaram a minha carteira. Não depositaram o Fundo de Garantia. Chegou a idade, tem que aposentar. Não posso trabalhar no sol quente, tenho problema de pressão alta”, diz. “A minha peleja já dura cinco anos. Morro, mas não consigo receber a minha aposentadoria. Sou uma mulher lutadora. Chego a dar uns gritos de desespero. Pensam que estou louca”, suplica Elizabeth.

Francisco: “É um martírio. Já sofri muito com o café. Não desejo isso a ninguém, trabalhar nessas lavouras”

Francisco Camilo Ferreira, 62 anos, nasceu em Cruzília, mas mudou para Conceição do Rio Verde aos 4 anos. Com 8, já estava com o pai na roça, acertando nós de taquara. Depois, foi para a enxada. Com 10, trabalhavam ele, o pai e os irmãos emprestados na Fazenda Nossa Senhora de Aparecida, de Ivan de Costa. Com Geraldo Mota, na Fazenda Dois Córregos, foram nove anos sem carteira assinada.

Há um ano e meio luta para se aposentar. “Já quebrei perna, pés, desloquei o ombro esquerdo no trabalho. Não consigo carregar peso no braço esquerdo. Tenho platina no braço. Trabalhei o ano passado todo sem carteira assinada, com Dimas Carneiro [fazendeiro]. E ainda estou na Justiça para receber, pois não me pagaram. Tem fazendeiro que me deve R$ 800 há dez anos. Ele é conhecido como Nadinho e ameaça quem cobra dele. Disse que ia contratar pistoleiro pra  me matar. Outros me deram o cano também”, denuncia. 

“Não tenho nada. Moro de favores.  É uma luta para aposentar. Precisei entrar na Justiça. Faço qualquer serviço, mas trabalhei mais com café”, acrescenta. “É um martírio. Já sofri muito com o café. Não desejo isso a ninguém, trabalhar nessas lavouras. As condições são péssimas, os alojamentos são muito ruins e o desrespeito é geral. A luta é muito dura”, constata.

José: “O futuro no campo é zerado. Só Deus e a misericórdia”

José Gonçalo Fortunato, 62 anos, de Conceição do Rio Verde, se aposentou por problemas de saúde – reumatismo, dor na coluna e diabetes. Carteira assinada mesmo, só por oito anos. O restante foi na informalidade, quase uma regra geral nas lavouras de café. A mulher, Manuela Maria Fortunato, aos 59 anos não consegue se aposentar. Já vem tentando há um bom tempo e tem direito ao benefício desde os 55 anos. Sofre de bronquite. 

Para ele, nada mudou nestes anos todos no meio rural, as dificuldades são as mesmas. “Presenciei muitos acidentes. Uma vez me intoxiquei curando gado. Não adquiri nada nesse tempo todo de trabalho. Nem moradia. Na época, morava nas fazendas e as casas não tinham água, não tinham banheiro. Ia a pé para o serviço. Não tinha hora para começar nem para largar a colheita de café. Não tinha hora para chegar em casa, não recebia hora extra. Até hoje é a mesma coisa. O futuro no campo é zerado. Só Deus e a misericórdia”, suspira.

Maria: “Se Deus tivesse dó e me  sarasse, poderia fazer alguma coisa”

Maria dos Reis Silva, 71 anos, de Conceição do Rio Verde. Após dezenas de anos trabalhando  na lavoura, tem como herança uma úlcera varicosa na perna direita e aposentadoria de um salário mínimo. Gasta boa parte do dinheiro com medicamentos e gaze para tratar da ferida que não fecha e é consequência de erro médico em uma cirurgia para enxerto. Nunca trabalhou com carteira assinada.  Luta, há um ano e meio, para conseguir a pensão do marido, José Augusto da Silva, falecido há uma década.

“Não tinha problema de saúde, mas dei falta de sorte ao machucar com o rodo. Hoje gasto a maior parte do que recebo com remédios para o coração, pressão e para a perna.  Os médicos do Hospital Bom Pastor, em Vista Alegre, erraram meu tratamento. Não quis processar o hospital, porque pobre, se mexe muito, perde ainda mais”, diz Maria Rita.

“Toda a minha vida eu trabalhei na roça. Machuquei na panha [colheita] de café há 25 anos.  Um rodo bateu na minha canela e, desde então, sofri infecção e  fiz tratamento: enxerto, com pele retirada da coxa. Mas nada de sarar a ferida. Minha perna, do joelho para baixo, está em carne viva. Foi um custo para me aposentar, demorou mais de cinco anos. Consegui pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais, com ajuda do Pedro Crispim”, conta Maria Rita. 

Antônio José da Silva, de 46 anos, um dos seis filhos de Maria Rita, também denuncia erro hospitalar. Por isso, acredita, não consegue trabalhar há três anos. “Surgiu um caroço na perna, que ficou inchada. Sem qualquer exame, ele foi espremido por enfermeiros do Hospital São Francisco de Assis (Conceição do Rio Verde), infeccionou e tenho trombose. Mesmo assim, só consegui o auxílio-doença em Três Corações. Tentei, sem sucesso, em Conceição do Rio Verde e em Caxambu”, lamenta.

Alessandro: “É muito difícil encontrar emprego fora da safra” 

Mesmo jovem – apenas 38 anos -, Alessandro Rodrigues de Souza está na lavoura há 25 anos. Ainda criança, tirava leite. Atualmente, mantém-se ocupado na roça por cinco a seis meses. No restante do ano, tenta se virar em outras ocupações. “É muito difícil encontrar emprego fora da safra. Antes tinha sempre trabalho, até mesmo antes e depois da colheita. Agora a oferta está diminuindo. A colheita durava de quatro a cinco meses. Agora chega a durar três meses por causa das máquinas. Faço o que aparecer, como serviço de pedreiro. O trabalho na roça está ficando sem futuro. As oportunidades vão só diminuindo a cada ano”, avalia.

Apesar das pressões para que todos obedeçam a lei do silêncio, Alessandro revela que acontecem muitas irregularidades. “Há casos de menores de idade trabalhando, gente que trabalha a troco de pinga e comida. Trabalhadores sem equipamentos de segurança. Fazem, também, o trabalhador assinar papel dizendo que recebe o equipamento, mas não recebem. E muitos acidentes acontecem. Equipamentos para mexer com agrotóxicos são essenciais todos os anos.  O risco é enorme”, denuncia.

Confira outras matérias do Especial: Café tipo exportação, trabalho tipo escravidão