EXTERMÍNIO

Em PE, um jovem negro tem 11,5 vezes mais chances de ser assassinado que um branco

O estado tem a 4ª maior taxa de homicídios da população negra no Nordeste e a 7ª do Brasil

Recife (PE)

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Comunidade do Ibura e movimentos de juventude realizam protesto contra o fim do extermínio da juventude negra. / Amauri Lins/ Levante Popular da Juventude

Era noite da segunda-feira (25.07), quando um menino de 14 anos foi morto por um sargento reformado da Polícia Militar, na comunidade do Ibura de Baixo. Na sexta-feira (05.08), um menino de 10 anos foi morto, durante ação da Polícia Militar, no bairro do Totó. Dois dias depois, um menino de 14 anos foi morto durante trocas de tiros entre PMs e suspeitos de assalto, no Vasco da Gama. Três meninos negros são mortos em menos de duas semanas no Recife. Três meninos negros de periferia. Coincidência?

Em 2016, foi publicado o Mapa da Violência, que aponta que o homicídio de jovens negros saltou de 17.499 para 23.160 entre 2002 e 2012. Em Pernambuco, a chance de um jovem negro ser assassinado é 11,5 vezes maior que a de um branco da mesma faixa etária. O dado integra o estudo Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2014.

Na noite em que foi assassinado, Mário, que também na noite havia “montado” uma bicicleta com peças usadas, estava na pracinha perto da escola onde estudava. Ele e um amigo colidiram com um sargento reformado da polícia militar em sua moto. A batida rendeu um arranhão na perna do homem. Essa foi a sentença de morte de Mário.

“O homem começou a esculhambar os meninos. Ele estava bêbado. Mandou Henrique ir embora e deu uma coronhada na cabeça de Mário. Henrique voltou para tentar impedir que ele agredisse mais o meu filho. O policial mandou Mário deitar no chão e atirou. Henrique correu para a parte do manguezal para tentar se esconder e o policial foi atrás disparando. Quando voltou, deu mais dois tiros no meu filho”, relata Joelma Andrade de Lima, mãe do menino morto. Ela tinha chegado em casa do trabalho e ficou sabendo do fato pelos vizinhos.

Joelma é mãe de mais duas meninas, uma de quatro e outra de cinco anos, e conta que Mário era um garoto dedicado e que a ajudava bastante. “Mário estudava de manhã, trabalhava vendendo gás com o vizinho durante a tarde e na lanchonete da avó do amigo no período da noite. Ele quem levava as meninas para a escola, enquanto eu estava trabalhando. Era muito meu amigo”, lembra.

Na segunda (01.08), a comunidade e alguns movimentos sociais fizeram um ato no Ibura, bairro onde Mário morava na Zona Sul do Recife, para cobrar resposta dos órgãos públicos sobre o caso e denunciar o extermínio da juventude negra. “Eu vou lutar até o fim para que o policial perca a farda e seja colocado em um presídio público. Para ele não fazer isso com mãe e família nenhuma mais”, afirma Joelma.



Beatriz Santos, jovem feminista negra e integrante do Coletivo Cara Preta, um dos que estava no ato no Ibura, observa que o assunto do extermínio da juventude negra tem sido bastante falado atualmente, mas que é uma questão muito antiga no nosso país. “Esse processo de exterminar jovens e o povo negro acontece desde a época do Brasil Colônia. E o tiro de revólver é a ação mais radical de um sistema que nega para essa população acesso à universidade, a saúde e tantos outros direitos”, reflete.

Os números expostos pelo Mapa da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 2014, apontam que, entre 2002 e 2012, o número de homicídios de jovens negros no Brasil aumentou 38,7%, enquanto o número de assassinatos de jovens brancos caiu 24,8%. Felipe Reis Melo, militante do Levante Popular da Juventude, reflete que mudar esse cenário depende de vários fatores.

“Primeiro é necessário cobrar que o estado garanta as mínimas condições de vida para a juventude e a população que vive nas periferias, em sua maioria negra. Saneamento básico, escolas de bairro de qualidade, postos de saúde, maior número de atividades de lazer. Porque é revoltante se ver tratado como lixo. Outro ponto muito urgente é a questão da desmilitarização da polícia. A formação da polícia precisa parar de ser formação de guerra. A polícia quando entra na favela atua como se todas as pessoas que vivem na comunidade fossem inimigas”, coloca Felipe Reis.

A revolta da mãe de Mário se transforma em força a cada dia que passa. “Não é porque eu sou da favela, da periferia, que eu sou marginal. Estou como se fosse esquecida. Não tive apoio nenhum do Estado. Mas vou continuar lutando”. Ela luta, junto com a comunidade e os movimentos de juventude, por um mundo mais justo, para que os jovens negros são sejam mais mortos por policiais, para que a população da periferia, para que o povo negro tenha a liberdade de viver e sonhar.