Impeachment

“Estamos juntos nesta luta”, diz Dilma durante ato em Brasília

Presidenta afastada participou do “Ato em defesa da democracia”, organizado pela Frente Brasil Popular nessa quarta (24)

Brasília (DF)

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Dilma recebe flores do grupo "Rosas pela Democracia" durante ato em Brasília / Oliver Kornblihtt/ Mídia Ninja

Centenas de pessoas lotaram o Teatro dos Bancários, em Brasília, na noite dessa quarta-feira (24) para demarcar apoio à presidenta afastada Dilma Rousseff durante o “Ato em defesa da democracia”. Organizado pela Frente Brasil Popular, o evento contou com a presença de parlamentares, ex-ministros e diversas entidades sociais.

Esse foi o último ato público de Dilma antes do julgamento final do processo de impeachment no Senado, que começa nesta quinta-feira (25) e se encerra na próxima semana. Após ser calorosamente recebida pelos presentes, ela discursou durante cerca de 30 minutos e se mostrou resistente diante das acusações, reiterando que não cometeu crime de responsabilidade. “Estão me condenando por algo fantástico, por um não crime”, bradou, embalada por gritos de guerra do público, que entoava frases como “Fora,Temer” e “Dilma, guerreira da pátria brasileira”.

Em resposta às recentes pressões e especulações vindas de setores mais conservadores da opinião pública, Dilma também afastou a possibilidade de renunciar ao cargo de presidenta. “Durante todo esse processo, houve muitos ataques à minha pessoa, usando aqueles instrumentos que eles usam sempre que querem atingir uma mulher. A renúncia era algo que eles achavam que ia acontecer porque eles têm um estereótipo da mulher na cabeça. Essa é sempre a primeira proposta que aparece e a última a sumir, mas eu não renuncio porque não cometi nenhum crime e nunca recebi dinheiro de corrupção”, reforçou.

Ela também fez uma comparação metafórica com os fatos políticos vividos pelo ex-presidente Getúlio Vargas. “Getúlio suicidou-se porque queria preservar a democracia no nosso país; ele sabia que ela estava em risco naquele momento. Mas nós somos responsáveis por termos construído um outro tempo histórico. E por que isso é importante? Porque hoje eu não tenho que renunciar, não tenho que me suicidar, não tenho que fugir pro Uruguai. É um outro momento, e nós contribuímos pra ele na base da democracia. Estamos juntos nesta luta”, discursou.

Durante o ato, Dilma Rousseff também ressaltou que ainda acredita nas instituições brasileiras. “Quando falam ‘ah, mas vocês foram lá no Congresso e se defenderam, foram no Supremo e se defenderam, então, estão referendando esse processo, estão assinando embaixo’, eu digo que não estamos não. Nós respeitamos as instituições, não os golpistas. Eu acredito nas instituições”, pontuou.

Entre os ex-ministros que acompanharam a presidenta afastada no ato, estavam Míriam Belchior (Planejamento), Jaques Wagner (Casa Civil), Patrus Ananias (Desenvolvimento Agrário), Miguel Rossetto (Secretaria-Geral) e Eleonora Menicucci (Políticas para as Mulheres).

Também marcaram presença os deputados federais Paulo Pimenta (PT-RS), Moema Gramacho (PT-BA) e Erika Kokay (PT-DF); o dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), Alexandre Conceição; e o ex-secretário especial do Trabalho José Lopez Feijó.

Presença popular

O ato em Brasília contou com a adesão de diversas entidades populares, entre elas o MST, o Levante Popular da Juventude, a Consulta Popular, a União Nacional dos Estudantes (UNE), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), a Central dos Movimentos Populares (CMP), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o grupo Rosas pela Democracia – do qual Dilma recebeu flores como símbolo de solidariedade –, entre outros. “A ideia é ressignificar a rosa e transformá-la num ícone de apoio, luta e resistência”, explicou Tati Magalhães, membro do coletivo.

“A participação de todos os movimentos tem sido muito importante neste processo. Preciso reconhecer principalmente o grande apoio que tenho recebido das mulheres e, quando falo que tenho capacidade de resistir, é porque tenho que honrar as mulheres do meu país. (…) Sou a primeira de muitas mulheres presidentas que este país ainda vai ter”, disse Dilma.

Para a deputada Moema Gramacho (PT-BA), o preconceito de gênero é uma das coisas que circundam a figura de Dilma Rousseff diante da opinião pública nacional. “Dilma é uma guerreira e nunca se curva. (…) Há um discurso misógino contra ela. Basta observar a forma como sempre a trataram. Isso está presente nas charges, por exemplo, na forma como se referem a ela e na própria negação do termo ‘presidenta’’, salientou a parlamentar, que diz acreditar numa reversão do placar na votação do impeachment.

“Nós entendemos que o que está ocorrendo no Brasil é um golpe e que é muito importante a união da esquerda, até porque todas as forças mais conservadoras e reacionárias do Brasil se uniram pra um ataque aos direitos trabalhistas e aos avanços que obtivemos nesses últimos anos, apesar dos equívocos”, disse Fábio Miranda, da direção distrital da Consulta Popular.

Opinião semelhante tem o militante Rodrigo Couto de Almeida, do Levante Popular da Juventude, que também compareceu ao ato. “Este é um momento crítico da política brasileira e é importante que a juventude compreenda o que está por trás de tudo isso, pois envolve os nossos direitos e também a flexibilização dos direitos trabalhistas, além de outras medidas que vêm no pacote, como possível redução da maioridade penal e aumento do encarceramento da juventude preta e pobre. Temos nossas críticas aos governos do PT, mas entendemos que neste momento o que está em jogo é a democracia”, considerou.

Durante o ato, a militante do MST Ana Moraes leu uma carta de apoio a Dilma editada pela Frente Brasil Popular. No documento, as entidades que integram a Frente destacaram as políticas inclusivas e os programas sociais dos governos do PT, como o Bolsa Família e o programa “Minha Casa, Minha Vida”.

No entanto, pediram que, em caso de retorno ao cargo, Dilma retome uma agenda política que recupere a economia, gerando emprego e renda, aumente os investimentos na produção agrícola voltada ao mercado interno, regule o capital financeiro e efetive a reforma tributária, entre outras coisas.

Governo interino

Ao longo do discurso, Dilma reiterou as críticas que vem fazendo às iniciativas legislativas do governo interino. Entre elas, destacou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, que estabelece um teto para os gastos públicos num horizonte de 20 anos.

A medida deve atingir os investimentos nas chamadas áreas sociais (saúde, educação, assistência social e Previdência) e vem sendo bastante criticada porque tende a reduzir os gastos federais nesses setores.

“Nós sabemos o que vem por aí, até porque todo dia eles falam que, depois de passado o impeachment, se eles ganharem, vão tomar medidas impopulares. Eles falam na maior cara de pau, e essa é uma das coisas que configuram os motivos pelos quais este golpe está em andamento”, criticou a presidenta afastada.

Ela também teceu fortes críticas à forma como o governo interino vem conduzindo a política externa. Dilma afirmou que Temer pratica uma política de “subordinação e de diminuição do Brasil em âmbito internacional”.

“É muito grave o fato de estarem tentando desorganizar a Unasul, por exemplo. E, como bem disse uma vez Chico Buarque, eles falam fino com os Estados Unidos e falam grosso com a Bolívia. Não podemos aceitar isso. Queremos um país que afirme sua soberania”, completou, criticando ainda o PL 4567, que retira da Petrobras a exclusividade sobre a exploração do pré-sal.

Mídia & Política

Durante o discurso, Dilma também reprovou mais uma vez a conduta dos meios de comunicação de massa na cobertura política do país. “Este golpe teve a participação da mídia, monopolista e oligopolista, e isso ficou muito claro para a imprensa internacional. (…) É por isso também que o setor de comunicação precisa ser regulado, pois é algo que controla uma cadeia de informações sem garantir espaço democrático para todas as posições”, defendeu.

A falta de regulação da comunicação vem sendo apontada publicamente pelo Partido dos Trabalhadores (PT) como uma das falhas do governo que sedimentaram o caminho do impeachment. Logo após a votação da abertura do processo no Senado, em maio deste ano, a executiva nacional da sigla editou uma resolução em que a legenda reconhece oficialmente a monopolização dos meios de comunicação como um dos problemas que ajudaram a desidratar o governo do PT.

OEA

Durante o ato, o deputado federal Paulo Pimenta (PT/RS) informou ao Brasil de Fato que nesta quinta-feira (25) a Organização dos Estados Americanos (OEA) deve marcar a data do julgamento do processo de impeachment em curso no Brasil.

Ele é um dos parlamentares que assinam a medida cautelar protocolada junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da OEA, no último dia 9. Na peça, foi solicitado que a Comissão determine algumas medidas ao Estado brasileiro, entre elas a anulação do impeachment e a restituição imediata de Dilma ao cargo de presidenta.

Segundo Pimenta, há uma expectativa de que o julgamento na OEA ocorra na próxima segunda-feira (29), portanto, antes da votação no Senado. Em caso de uma decisão favorável a Dilma, o Estado brasileiro, em tese, deve cumpri-la, pelo fato de o país ser membro da OEA e signatário de diversos tratados internacionais que conjugam os Estados-membros.

“Uma eventual postura diferente diante da decisão da Comissão levaria o país a ficar à margem de tudo que envolve a comunidade internacional e os protocolos internacionais. Não creio que o Brasil cometeria essa insensatez”, disse o deputado, que compareceu ao ato para reforçar o apoio parlamentar a Dilma Rousseff.



Edição: Luiz Felipe Albuquerque