Golpe

Lutar contra impeachment é defender classe trabalhadora, avaliam especialistas

Em debate realizado pelo Brasil de Fato, analistas apontam que há em curso uma ofensiva contra direitos

São Paulo

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Para os debatedores, há uma ofensiva de setores conservadores em toda América Latina / BdF

Na etapa final da votação do impeachment, o Brasil de Fato promoveu debate nesta segunda-feira (29) sobre as perspectivas diante do processo de ruptura institucional no país. O evento contou com a participação de Joana Montaleone, pós-doutoranda em História na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Gilberto Cervinski, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB); e Gustavo Codas, economista e ex-assessor de relações exteriores no governo Fernando Lugo. Para eles, o processo contra Dilma Rousseff significa não só uma ofensiva contra a democracia brasileira, mas também contra os direitos e as conquistas dos trabalhadores.

Enquanto ocorria o debate, a presidenta afastada era questionada pelos senadores, após apresentar o discurso de defesa. “A fala da presidenta Dilma foi diferente e muito positivo. Ela teve uma postura altiva, corajosa, com argumentos claros. É um discurso que marca muito que é um golpe e não um rito legal. Ela aponta que a forma é legal, mas o conteúdo é ilegal e ilegítimo”, avaliou Joana.

Para Cervinski, “a resistência de Dilma até o final tem um profundo significado simbólico ao povo brasileiro”.

Ofensiva regional

Codas aponta que o Brasil está inserido em uma ofensiva conservadora regional na América Latina. “O que nós temos visto é uma contraofensiva baseada na desestabilização econômica. Por via eleitoral, como na Argentina, ou pela via do golpe, como em Honduras e no Paraguai. Se as forças de direita são incapazes de ganhar eleições, ocorre o que estamos observando no Brasil”, analisou.

Ele compara o processo brasileiro com o que ocorreu no Paraguai. “Lá, pela debilidade institucional, não houve qualquer respeito e cuidado com as formalidades. Fora isso, é muito parecido. As acusações foram todas fúteis. No Brasil, se fez o mesmo que se fez no Paraguai, mas com o cuidado de se manter as formas. Em ambos os casos, não houve crime de responsabilidade, apenas uma maioria parlamentar contra o governo”, explicou Codas.

Golpe

Para os debatedores, a articulação contra o segundo governo de Dilma se iniciou logo após o fim das eleições em 2014.

“Eles não esperavam perder. Quando viram o que ocorreu, rapidamente foi articulado um plano B. Após um mês do resultado eleitoral, já havia pessoas pedindo impeachment. Aquilo foi fomentado pela mídia. Foi inaceitável para eles, que também perceberam que poderiam perder a próxima. A opção foi partir para um golpe parlamentar”, afirmou Joana.

Para a historiadora, é possível comparar aspectos deste processo com o que levou à instauração da ditadura militar. “A atuação dos empresários em 64 foi muito evidente. [Hoje], a força do empresariado em cima do Congresso se dá através do dinheiro para as campanhas”, declarou.

Nesse sentido, Cervinski explica que a ofensiva representada pelo impeachment de Dilma significa um ataque aos direitos e às conquistas sociais. “Trata-se de um golpe contra a classe trabalhadora. Nessa etapa do capitalismo, a burguesia busca recompor suas taxas de lucro, retirando todas conquistas. Para aplicar esse plano, que implica a retirada de direitos, eles precisam de um processo ilegítimo. Pelo voto é impossível esse projeto chegar ao governo, exige um golpe. No Brasil, historicamente, quando a classe trabalhadora tem ganhos, há processos de reação e de golpe. Nossa luta vai além da defesa da democracia, temos que defender os direitos do povo”, apontou.

O dirigente do MAB avalia que o capital internacional sairá vitorioso desse processo. “A burguesia associada ao imperialismo - quem da burguesia não aderiu, foi coagido. A burocracia rica do Estado - partes do Judiciário, da Polícia Federal, do Ministério Público. Junto também está a classe média. Eles se unificam contra a esquerda e a classe trabalhadora”, complementa.

Desafios

Durante o debate, foi ressaltada a necessidade de que, caso se confirme o impeachment, ocorra um processo de unidade e de reorganização da esquerda.

“No caso brasileiro, o que se está se desenhando é uma estratégia das forças reacionárias com duas frentes: uma repressiva, com controle da Polícia Federal e dos órgãos de inteligência. Ao mesmo tempo, esse governo prepara mecanismo de cooptação de setores sociais. Nisso, está o Paulinho da Força, oferecendo como alternativa algumas migalhas. O sentido geral é anti-popular e, frente à resistência, aplicarão a repressão”, contextualizou Codas.

Cervinski destacou que este período histórico exige preparação da classe trabalhadora. "Nós estamos entrando em um período comparável à crise de 1929. Nesses momentos, os ricos sempre fazem os pobres pagarem a conta. O desafio não é pensar na próxima eleição. É necessário pensar em um projeto de esquerda, uma alternativa ao capitalismo. Nós temos que explicar ao povo o que o golpe significa”, avaliou. Ele reforçou ainda que o espaço prioritário dos trabalhadores é a rua, tendo em vista que os "espaços institucionais passarão a ser de hegemonia completa do capital". 

Joana enfatizou ainda o caráter misógino dos métodos utilizados contra a presidenta e a importância da luta de mulheres. “O golpe é contra todas mulheres, se desconstruiu a imagem de Dilma como mulher de esquerda. O feminismo será uma forma muito importante de resistência”, apontou.

Resistência

Codas destacou que o impeachment apresenta um caráter ambíguo: se demonstra força da direita, também evidencia fragilidades. “O fato de que para mudar o governo eles tiveram que dar um golpe, mostra a fragilidade do programa que eles propõem. No início dos anos 1990, essas ideias tinham poder eleitoral. Quando eles começarem a implementar sua agenda, não terão argumentos. A fragilidade do projeto conservador que está tomando o governo é muito grande frente ao povo. Tem que ter unidade, comunicação e reformulação estratégica”, disse.

Joana aposta que a ocorrência do golpe mobilizará reações. "Da mesma maneira que nasceu a direita fascista quando Lula ganhou a primeira eleição, e ela foi crescendo. Se o golpe se consolidar, haverá a emergência de uma resistência”, destacou.