Recessão

Artigo: Os benefícios da reforma agrária para a indústria da mecanização agrícola

Políticas para agricultura familiar e camponesa seria a via de expansão sustentável do mercado de máquinas e tratores

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Agricultura familiar é "galinha dos ovos de ouro" do mercado para as máquinas agrícolas
Agricultura familiar é "galinha dos ovos de ouro" do mercado para as máquinas agrícolas - Pixabay

O governo Temer promove a recessão econômica mais severa da história do Brasil, com consequências desastrosas nos indicadores socioeconômicos da população brasileira.

No caso da indústria, a retração ocorrida nos níveis da produção setorial em 2016 tangenciou os 7%. No segmento das máquinas agrícolas, após o record de 100.400 unidades da produção brasileira alcançado em 2013, a recessão Temer conseguiu desabar a produção nacional para o pior resultado em uma década: somente 53.017 unidades foram produzidas no ano passado.

Na realidade, além de refletir o quadro recessivo geral do país, o desempenho do segmento de máquinas agrícolas reflete, também, uma anomalia estrutural da economia agrícola brasileira.

Conceitualmente, a indústria está centrada na produção de máquinas ajustadas para atender o modelo de monoculturas em escala, que alicerça o agronegócio no Brasil. Essa trava estrutural limita o potencial de desenvolvimento da agricultura familiar, a verdadeira ‘galinha dos ovos de ouro’ em termos de mercado para as máquinas agrícolas.

Com efeito, de acordo com o Censo Agropecuário de 2006, o número de máquinas e implementos agrícolas existente nos estabelecimentos agropecuários naquele momento era de 4.439.349 unidades, das quais, 59% nos estabelecimentos com área de até 50 hectares. Os estabelecimentos de 20 a menos de 50 hectares detinham 5,3 vezes mais máquinas e implementos agrícolas do que os estabelecimentos de 1000 a menos de 2500 hectares.

Corroborando o quadro acima, a análise das estatísticas do crédito rural, a partir da nova metodologia implantada pelo Banco Central, mostra que, em 2013, foram financiadas 34.435 máquinas agrícolas e 36.247 tratores com os recursos do crédito. As participações do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura familiar (Pronaf) nesses financiamentos foram, respectivamente, de 60% e 41%. 

Em 2016, esses financiamentos declinaram para 15.550 máquinas (-58%) e 26.097 tratores (-28%), um reflexo da recessão Temer. Ainda assim, 35% das máquinas e 53% dos tratores foram financiados pelo Pronaf.

Vê-se, pois, que a agricultura familiar representa um enorme potencial de mercado para esses bens -- e com enorme elasticidade, dado que 3,3 milhões de imóveis rurais são classificados como minifúndios. Portanto, fora deste mercado, restam áreas equivalente a apenas 15% da área acumulada por 130 mil grandes propriedades, das quais, 53% classificadas como improdutivas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). 

Qualquer executivo dessa indústria deveria estar atento a essa realidade. Contudo, em vez de o setor atuar pela sua expansão, não apenas se acomoda, mas financia o ambiente político determinante das mazelas estruturais das áreas rurais, apostando em remotas possibilidades no mercado externo. Parece que, por estarem domesticados no ‘espírito animal’, falta aos empresários maior compromisso com o desenvolvimento do Brasil.

A reforma agrária com políticas preponderantemente voltadas para o fortalecimento da agricultura familiar e camponesa seria a via para a expansão sustentável do mercado de máquinas agrícolas.

Se o setor rejeita esse axioma, pelo menos deveria buscar inspiração no Plano de Metas, de onde emergiu a indústria da mecanização agrícola no Brasil (no bojo da instalação da indústria de tratores com a garantia de conteúdos nacionais), para lutar contra a desnacionalização da economia que acompanha a grande recessão do governo Temer.

*Gerson Teixeira é presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA).

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