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As travessuras de um menino coroinha

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"Eu fui um desses meninos. Gostava de bater sino. Naquele tempo existia um tipo de batida de sino para cada acontecimento", diz Mouzar / Fotos Públicas
Tudo quanto era menino católico de cidades pequenas gostava de ser coroinha

Comi que nem um padre! Não tem nada de desrespeitoso nessa frase.

Ela é de um tempo em que os padres viajavam muito pras roças, fazendo casamentos e batizados, benzendo, rezando missas… 

O respeito e a admiração que tinham pelos padres era muito grande. Então, quando um padre aparecia na casa de alguém, ofereciam a ele o que tinha de bom e de melhor. E para beber também. Sempre tinham uma cachacinha boa pra oferecer às visitas especiais.

Tudo quanto era menino católico de cidades pequenas gostava de ser coroinha, uma coisa que ia além da religiosidade: era também uma diversão. E acompanhar o padre nessas viagens para a roça também era uma coisa que a gente gostava.

Eu fui um desses meninos. Gostava de bater sino. Naquele tempo existia um tipo de batida de sino para cada acontecimento. Chamando pra missa era um tipo de batida; avisando de um enterro era outro… 

Mas o que eu mais gostava mesmo era, nas rezas, de ficar com o turíbulo, que é um pequeno vaso para colocar brasas. Tem três correntes e um lugar pra gente segurar e ficar chacoalhando para manter as brasas acesas. 

Num momento da reza, um outro coroinha pegava uma colherzinha de incenso e jogava nas brasas. Saía uma fumaça com cheirinho gostoso, e o padre falava umas palavras em latim. 

Uns dez dias depois que comecei a ser coroinha, o padre deixou eu ficar com o turíbulo, mas falou que tinha só que chacoalhar pra lá e pra cá… Nada de rodear no ar, como se fosse uma roda gigante. Isso era proibido, não sei por quê. Era como se fosse um pecado. 

Mas eu não resistia, achava divertido demais rodar o turíbulo no meio da reza. Algumas pessoas riam, o padre ficava desconfiado, olhava pra trás e me flagrava rodeando o turíbulo. Aí me destituiu dessa função.

Bom, o que eu queria contar não tem nada a ver com essa história toda. É de um padre meu amigo, que um dia foi fazer uns batizados e casamentos na roça e viu que um homem não fazia o sinal da cruz, que lá chamavam de “pelo sinal”. Ficava com o dedo parado no meio do rosto.

Depois da reza, o padre foi falar com ele:

— Seu Zé… Eu reparei que o senhor parece que não sabe fazer o pelo sinal.

O homem respondeu:

— A prosa eu sei. O que eu não sei é esparramar na cara.

 

Edição: Camila Salmazio