Ingenuidade

Inspirado em escritor angolano, Mouzar Benedito lança livro em que revisita infância

Com humor e leveza, O Mistério do Obelisco é narrado por uma criança de sete anos do interior de Minas Gerais

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Com o lançamento de O Mistério do Obelisco, Mouzar Benedito chega ao seu 47º livro publicado. / Arquivo pessoal

O Mistério do Obelisco é o mais novo livro do escritor Mouzar Benedito, colunista do Brasil de Fato. A publicação, lançada pela Editora Limiar neste mês, traz uma peculiaridade: o narrador é uma criança de sete anos, morador da Vila, como era chamada pelos moradores a pequena cidade de Nova Resende (MG) na década de 1950.

A ficção que retrata a ingenuidade do personagem, uma criança do interior, em descobrir para quê e porquê existe um obelisco no meio da praça principal se mistura com as lembranças da própria infância do autor.

O lançamento será realizado no dia 5 de janeiro, a partir das 19 horas, em São Paulo. O local é o Empanadas Bar, que fica na Rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena, em São Paulo. 

Confira a entrevista com o autor: 

Brasil de Fato: Qual é o enredo dessa nova publicação? No que você se inspirou?

Mouzar Benedito: Nesse livro eu procurei contar de uma forma ingênua a visão de criança de uma região de Minas Gerais, da década de 1950. É uma visão muito simples, mas muito curiosa do mundo. Eu era uma criança muito curiosa, como eram todas as crianças, e queria entender certas coisas. Então, uma das coisas que me implicava ali, e implica os personagens do livro também, é o obelisco que tinha na praça em frente à igreja. Para que tem aquilo lá? Para que serve aquilo lá? Como foi feito? E eu saia perguntando para os adultos e parecia que tinha um complô de todo mundo, cada um inventando uma história mais maluca que a outra sobre o motivo de ter aquele obelisco alí. Então, ele [o personagem] vai tentando descobrir o livro inteiro e tem um monte de história sobre o modo de vida daquela época: criança com sete anos já trabalhando, uma cidade que tinha só até o quarto ano primário, o mundo era muito diferente para a gente. 

O narrador, então, é uma criança de 7 anos de uma história que se passa em 1954 na chamada Vila…

Sim, a cidade de Nova Resende, em Minas Gerais, era tão pequena que os próprios moradores a chamavam de Vila, mas tinha cinema e passava filme todo dia, mesmo sendo uma cidadezinha com 2 mil habitantes. 

Seu trabalho sempre teve alguma ligação com o universo infantil, os livros sobre o folclore brasileiro são exemplos disso. Agora, nessa nova publicação, você explora de novo esse universo, mas, desta vez, é a sua própria infância. Então, o enredo desse livro é ficção ou realidade? 

É ficção e é realidade. Muitas coisas, obviamente, a gente pega da própria experiência e das experiências dos meus amiguinhos e das minhas amiguinhas, da escola, do modo de vida… Aliás, uma das coisas que eu me lembrei muito enquanto escrevia esse livro foi que eu estive em um lugar chamado São José do Paiaiá, na Bahia, em um povoado no qual eu fiquei três horas na rua principal e não passou um carro. E nessa minha infância, eu também contei um episódio muito semelhante a este, porque não passava carro [na minha cidade]. 

Na orelha do livro, você escreve que foi motivado a escrever esse livro depois de ler algumas obras do poeta e escritor angolano Ondjack. O que na escrita dele te provocou esse desejo? 

O primeiro livro dele que eu li chama AvóDezanove e o Segredo do Soviético. O Agostinho Neto foi o herói da libertação de Angola. Então, na infância do Ondjaki, os russos estavam construindo em Luanda, capital de Angola, um mausoléu do Augustinho Neto para ser uma espécie de museu. Ele estava sendo construído em uma praia, num bairro muito popular, bonito, mas bem pobre. Então, os moradores começaram a ter medo de que, quando fosse inaugurado, os pobres fossem expulsos do lugar por se tornar um ambiente luxuoso. Aí, as crianças começam a articular um modo de impedir a construção daquilo, detonar o mausoléu. Eu achei muito divertido e acabei lembrando da minha infância, daquelas curiosidades todas. E eu achei muito interessante também que ele junta os nomes e viram uma palavra só. Por exemplo: Mouzar Benedito ficaria ‘Mouzarbenedito’ ou Rádio Brasil de Fato seria ‘radiobrasildefato’. Eu achei muito interessante isso, aproveitei dele e cito, não estou chupando sem dar crédito ao autor. 

Acredito que muita gente deve se identificar com os causos que você conta no Mistério do Obelisco…

Antes de publicar [o livro], eu passei para alguns amigos e os mais antigos disseram "nossa, parece que foi na minha cidade". Os mais novos questionaram: "Isso existia mesmo?". E [retrato] aquela visão ingênua de todo mundo, de criança, de lugar muito pequeno. Não tinha televisão, rádio era pouca gente que tinha, jornal chegava muito pouco. Chegava uma jardineira por dia com passageiros e esse era o nosso único contato com o mundo. 

Edição: Camila Salmazio