Opressão

Opinião | Marielle e a violência racista, machista, lesbofóbica e de classe

No Brasil, é impossível analisar separadamente as relações patriarcais de gênero, raça, etnia e classe social

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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A execução da Marielle aprofunda o cenário de instabilidade democrática instaurado, fundamentalmente, com o golpe em 2016 / Fernando Frazão/Agência Brasil

Na última semana, um crime brutal que ceifou a vida da vereadora Marielle Franco (PSOL) no Rio de Janeiro possibilitou uma série de análises sobre as reais motivações desta investida contra a nossa democracia.

Nas redes, por exemplo, o apelo ao fato de ter sido assassinada uma mulher negra (em alguns casos explicitando sua orientação sexual – lésbica) se tornou o mote de muitas análises e agitação. Noutra direção, também havia contraposições: Marielle, antes de tudo, era da classe trabalhadora, era pobre e da periferia. Os debates passaram a polarizar a compreensão da situação de classe com o fato da sua condição de mulher, negra e lésbica.

No entanto, é necessário que se faça a pergunta: se o patriarcado (e seu caráter heterossexista) e o racismo são imprescindíveis para a compreensão da formação social do Brasil, é possível polarizar e separar essas formas de exploração e dominação?

O exercício proposto para a nossa reflexão é simples. Conforme a contribuição da feminista Heleieth Saffioti, no Brasil, o patriarcado e o racismo encontram-se intimamente articulados ao processo de desenvolvimento capitalista. Na realidade concreta, é impossível analisar separadamente as relações patriarcais de gênero, raça, etnia e classe social para analisar qualquer fenômeno, inclusive, a violência que expressa dados alarmantes.

Em 2017, foram 445 LGBT assassinados, conforme o levantamento do Grupo Gay da Bahia. Houve um crescimento de 30% dos homicídios em relação a 2016 reafirmando os dados de que o Brasil é o país que mais mata LGBT no mundo. De acordo com o mapa da violência contra as mulheres brasileiras, entre os anos de 2000 e 2010, 43,5 mil mulheres foram assassinadas no Brasil e os homicídios de mulheres negras aumentaram 54% em dez anos no Brasil. Por fim, com base no relatório final da CPI sobre assassinatos de jovens no Brasil, instaurada no Senado Federal, constatou-se que 77% das vítimas são negros. Esses dados, no mínimo, reafirmam o caráter regressivo que a manutenção do patriarcado e do racismo na sociedade brasileira impõe sobre a nossa realidade.

A compreensão de que “gênero-raça-classe”, embora distintos, estejam intimamente articulados, complexifica a análise sobre a execução da Marielle. Uma mulher, negra, lésbica, de origem da favela da Maré, articulada em defesa de um projeto da classe trabalhadora que enfrentava a violência cometida pelo Estado, pelas milícias e pelo tráfico. Além disso, a execução da Marielle aprofunda o cenário de instabilidade democrática instaurado, fundamentalmente, com o golpe em 2016, e impacta homens e mulheres que buscam um projeto de sociedade que expressa justiça e liberdade. Numa conjuntura de avanço do conservadorismo e aprofundamento da criminalização dos movimentos populares e dos lutadores do povo, este crime também é um recado para toda a esquerda organizada.

A execução de Marielle nos mostra que dissociar e segmentar a violência racista, machista, lesbofóbica e de classe é um equívoco que nos divide e dificulta a ação conjunta contra os opressores. Reduzir tal fato a uma abordagem restrita ao campo da “identidade” ou afirmar uma compreensão abstrata da classe social (desconsiderando o patriarcado e o racismo) são equívocos que não correspondem ao projeto defendido por Marielle em prol da possibilidade de um futuro livre da exploração e da dominação do povo brasileiro. E, sem dúvidas, estamos diante de um contexto cada vez mais complexo, pois, o golpe e seus desdobramentos aprofundam o patriarcado e o racismo diante de uma política de criminalização da pobreza, da reforma trabalhista e da reforma da previdência. Noutra direção, a defesa de um projeto de país justo e soberano que consiga enfrentar os nossos dilemas históricos é uma tarefa irrecusável das forças populares.

* Leonardo Nogueira é militante do Levante Popular da Juventude.

Edição: Larissa Costa