Protestos

“Onde estão as crianças?”, questionam mexicanos em frente à embaixada dos EUA

Do lado mexicano da fronteira, familiares estão sem notícias de filhos e netos que vivem em território estadunidense

Brasil de Fato | Cidade do México

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Familiares de imigrantes protestam em frente à embaixada dos Estados Unidos na Cidade do México / Foto: Anistia Internacional

Famílias mexicanas afirmam desconhecer o paradeiro de centenas de crianças separadas de seus pais, que foram detidos por serem imigrantes indocumentados nos Estados Unidos. Este é um dos resultados da política de “tolerância zero” do presidente estadunidense, Donald Trump, que levou muitos imigrantes à prisão e separou famílias inteiras.

Nas últimas semanas, a repercussão mundial do caso fez com que Trump voltasse atrás em sua decisão de separar as famílias detidas, mas isso só se aplica a novos casos. Enquanto isso, do outro lado da fronteira, centenas de mexicanos protestam há vários dias, inclusive em frente à embaixada dos EUA na Cidade do México, capital do país. “Onde estão as crianças?”, perguntam os manifestantes por meio de cartazes.

No último domingo (24), o Estado norte-americano anunciou que já foram localizadas cerca de 2,5 mil crianças que haviam sido separadas dos pais e estão sob custódia do Estado, mas não informou quando serão devolvidas aos familiares. E ainda há cerca de 1,5 mil crianças “desaparecidas”, que o governo não informa o paradeiro, segundo informações da rede de TV CNN.

A reportagem do Brasil de Fato na Cidade do México conversou com a camareira Asusena*, de 58 anos, que há dias não tem notícias dos quatro filhos e cinco netos que vivem no estado do Texas, nos EUA. “Não sei como eles estão. Não posso ligar, porque é através de ligações internacionais que os imigrantes estão sendo localizados pelo serviço secreto”, afirma a mexicana.

Asusena se mudou para os Estados Unidos há 20 anos, com os filhos ainda pequenos. Hoje, ela vive na Cidade do México, mas deixou no Texas praticamente a família inteira. “Minha filha mais nova está grávida e trabalha à noite. Ela estava chegando no trabalho outro dia, quando foi parada pela polícia. A deixaram ir, mas já a ficharam. A próxima vez que for parada pela polícia, pode ser presa”, relata a camareira. Sua maior preocupação neste momento são os netos. “Tenho cinco netos, tenho medo do que pode acontecer com eles”, diz.

A nova medida de não separar as famílias imigrantes, assinada por Trump na última semana, é válida apenas nos primeiros 20 dias do processo judicial. Por isso, não tranquiliza os estrangeiros, sobretudo os latinos, que chegam em maior quantidade ao país do Norte.

A maioria dos imigrantes que entram nos EUA tem como origem países como México, Honduras e Guatemala, que saem de suas nações fugindo da violência e da pobreza, causadas por sistemas políticos e econômicos sustentados por governos neoliberais, que contam com o apoio dos Estados Unidos.

Mais uma vez por meio de sua conta no Twitter, Trump sugeriu, no domingo (24), que seu governo pode começar a deportar pessoas indocumentadas sem passar por procedimentos judiciais e criticou as leis de imigração. “Não podemos permitir que toda essa gente invada nosso país. Quando alguém entrar, devemos imediatamente, sem juízes nem processos judiciais, devolvê-los por onde vieram. Nosso sistema é uma chacota para as boas políticas de imigração e para a lei e a ordem”, escreveu o mandatário estadunidense.

Eleições presidenciais

O tema da migração também virou assunto da campanha eleitoral no México, que está a poucos dias das eleições presidenciais, que serão realizadas no próximo domingo (1º). 

O candidato que lidera as pesquisas de intensão de voto, Andrés Manuel López Obrador, do partido progressista Movimento Regeneração Nacional (Morena), disse que, caso seja eleito, exigirá do governo dos Estados Unidos respeito mútuo.

Já o candidato Ricardo Anaya, do partido de centro-direita Partido de Ação Nacional (PAN), disse que falta iniciativa do atual governo de Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), para proteger de forma adequada os mexicanos que emigram.

*Asusena preferiu não informar o sobrenome, com receio de perseguições à sua família que vive nos EUA.

Edição: Vivian Neves Fernandes