LITERATURA E POLÍTICA

"Desde os anos 30 não temos um candidato que olhe à esquerda", diz escritor mexicano

Em entrevista, um dos maiores escritores mexicanos da atualidade, fala sobre eleições, López Obrador e literatura

Brasil de Fato | Cidade do México

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Paco Ignácio Taibo II acredita que é a primeira vez que há um candidato que diga não "a guerra às drogas, ao liberalismo, à corrupção". / Fania Rodrigues

Um dos mais importantes escritores mexicanos da atualidade, Paco Ignácio Taibo II, recebeu o Brasil de Fato para uma entrevista, na qual falou sobre o atual cenário eleitoral do México a poucos dias das eleições presidenciais, parlamentares e regionais. O escritor também conversou sobre literatura, suas inspirações e o processo criativo.

Autor de mais de 80 novelas e memoráveis biografias como Ernesto Guevara, também conhecido como el Che (1996) e Pancho Villa: una biografia narrativa (2006), que conta a história de um herói da Revolução Mexicana (1910-1920). Além de livros históricos, como a última trilogia chamada Pátria, vendeu 100 mil exemplares no país.

Nascido na Espanha, mas radicado no México, é um intelectual comprometido com a militância política. Na entrevista, Taibo fala sobre os possíveis cenários que podem apresentar-se nessas eleições e os desafios do próximo presidente mexicano, sobretudo se o candidato eleito for Andrés Manuel López Obrador, do partido Morena, que ele ajudou a fundar.

Brasil de Fato: Estamos a poucos dias das eleições presidenciais e candidato progressista Andrés Manuel López Obrador lidera as pesquisas. Você acredita que é possível, dessa vez, ter uma eleição limpa e transparente?

Paco Ignácio Taibo II: Não, acredito que no México não haverá eleição limpa e transparente - e será assim por muito tempo, até conseguirmos romper os mecanismos de corrupção que estão associados à fraude eleitoral. Esse será um processo longo. A fraude eleitoral faz parte de uma cultura conservadora mexicana que compõe o aparato do Estado há mais de 50 anos. Conformou-se, nos anos 1950, uma burguesia burocrática que vive de se aproveitar do aparato do Estado, que representa poder e dinheiro. Com isso ela pode repartir cargos, repartir o poder, ter mais dinheiro, e mais negócios.

Então a constante do projeto neoliberal mexicano é a corrupção. O projeto neoliberal segue duas linhas principais. Por um lado, tem como base as instruções do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o modelo delirante de como deve ser um país. O outro lado é a corrupção. Isso está intimamente ligado à fraude eleitoral, porque significa a continuidade do poder, de tal maneira que sim, haverá fraude. A questão é: qual será a dimensão dessa fraude? Esse é o problema. E foi isso que aconteceu nas últimas cinco eleições de grandes dimensões.

Sobretudo na eleição de 2006 essa questão da fraude eleitoral ficou mais evidente.

Obviamente nesse ano o [ex-presidente] Felipe Calderón perdeu as eleições. Na eleição do [presidente] Enrique Peña Nieto houve fraude em relação a pelo menos 5 milhões de votos comprados. O mecanismo de compra de voto está instituído na estrutura de poder do PRI (Partido Revolucionário Institucional) e, agora, do PRD (Partido da Revolução Democrática) de maneira totalmente explícita. Se relacionam com a cidadania com base na compra de voto, promessas, bens materiais para garantir sua permanência no poder.

Qual é a diferença dessas eleições para as anteriores?

Essas eleições apresentam-se sob uma nova variante que é a da tensão acumulada nos últimos seis anos. Sob os desastres no terreno do projeto neoliberal. A guerra contra o narcotráfico e a corrupção são de tal magnitude que provocaram uma onda de descontentamento. Creio que isso está transbordando às margens da fraude.

Ganhar aqui significa que eles tem a capacidade produzir uma fraude de 4 milhões de votos, mas que se a diferença entre um candidato e outro transbordar em 12 milhões votos não conseguirão impedir a vitória. Então a teoria de López Obrador é essa de transbordar. Não ignorar que haverá fraude, tentar minimizá-la, diminuí-la e superá-la. É por isso que dentro de alguns dias possivelmente vamos celebrar a vitória de Andrés Manuel López Obrador, a nível nacional, e a de Claudia Sheinbaum, na Cidade do México.

Quando falamos da campanha eleitoral no México, temos que falar sobre sobre a violência contra os políticos. Nos últimos meses mataram mais de 100 candidatos, na semana passaram executaram mais dois. A que se deve esse nível de violência?

Se você não analisa os casos, um por um, não entende o que está acontecendo. Em alguns casos o objetivo é frear o avanço do Morena. Essa é uma pequena parte dos casos. Portanto, a enorme maioria é um reflexo da intervenção direta do narcotráfico em situações em que eles identificam “traições”. Para um narco há poucas regras na vida. Uma delas é: quem trai, morre. Então vamos supor que um grupo narcotraficante tem ligações com um candidato do PRI, que vai ser prefeito de uma pequena cidade, em uma das rotas chaves para a saída de drogas do país, e esse candidato negocia com outro cartel de drogas. Então esse candidato é assassinado. Em muitos dos casos é isso que acontece. Negociou com a pessoa equivocada, entrou na zona de conflito entre dois carteis.

Os partidos PRI e PAN governam o país desde 1929. São mais de 89 anos no poder. Realmente é possível que um partido pequeno como o Morena vença?

Desde a experiência cardenista, do ex-presidente Lázaro Cárdenas (1934-1940), da estatização petroleira, da criação do Instituto Politécnico Nacional [uma das maiores universidades públicas do país], da repartição de terras, nos anos 30, não havia acontecido no México o fenômeno de um político que olhasse em direção à esquerda, com profundo conteúdo social, cujas bandeiras centrais são “não à guerra às drogas”, “não à corrupção”, “não ao liberalismo”. Essa são as principais bandeiras e logo vem uma infinidade de temas secundários. Um governo de Andrés Manuel López Obrador abriria as portas para uma nova maneira de exercer o poder político. A grande proposta de López Obrador é o combate à corrupção. Isso exige 50 mil funcionários honestos no governo e uma revolução de baixo para cima na economia.

Você acho que o problema da economia também é um problema social? Como ter um governo honesto sem que ele acabe por ser um reflexo de uma sociedade corrompida?

A sociedade não está corrompida. A sociedade entrou em uma cultura da corrupção de muitos anos, acredita que a cultura da corrupção é o azeite que lubrifica uma engrenagem que possibilita sobreviver no dia a dia. Engraxa a máquina, o policial te pede dinheiro, o funcionário público te pede dinheiro. Quando diminui a pressão de cima para baixo e estabelece uma cultura diferente a corrupção é combatível. Existem experiências históricas nesse sentido. No passado, o México já combateu a corrupção de forma exitosa.

É possível ter um governo de esquerda tendo como vizinho do norte os Estados Unidos?

O governo dos Estados Unidos não vai impedir o governo de López Obrador. Eles já têm problemas internos suficientes para manter sua própria estabilidade. Não, não é aí que vai estar o obstáculo.

Onde estará o obstáculo?

O obstáculo depende do tamanho da vitória e dos cadeados que podem ser colocados na vitória. Vamos pensar em cenários. Imagina se Andrés Manuel ganha, mas com uma minoria dos deputados e senadores no Congresso, onde maioria seria conformada por uma aliança entre PRI, PAN e PRD. Isso paralisaria a possibilidade de governar transformando leis. Teria que governar por decreto. Esse seria o principal freio. O segundo cenário que dois terços dos governadores serão contra seu governo, o que já é uma realidade dado que muitos deles são de estados que não realizam eleições agora.

Ele também terá a oposição da metade dos prefeitos municipais, que não serão submetidos a essas eleições. E uma burguesia muito articulada, com muito poder econômico e político. Além dos funcionários públicos que viveram da corrupção. Nesse cenário será muito difícil governar. Haverá pressão social desde abaixo. Logo nos primeiros haverá pessoas nas ruas dizendo: ‘queremos que reabra a investigação de Ayotzinapa (lugar em desapareceu 43 estudantes em 2014). Tudo isso entra no jogo político, de tal maneira que o futuro é, no melhor dos casos, imprevisível.

As pesquisas qualitativas mostram que 53% do eleitorado diz que não votaria em ninguém caso o candidato Andrés Manuel López Obrador não pudesse concorrer às eleições. Qual é a leitura política que se pode fazer disso e quanto disso poderá ser convertido em apoio real a um possível governo de Obrador?

Está tudo em jogo. A situação é muito complexa, são muitos anos de uma ditadura priista verdadeiramente difícil, corrupta, virulenta, que combina a mentira, dupla linguagem, demagogia, a corrupção e o crime político na maneira de exercer o governo. Há uma esperança enorme, mas está soterrada. Minha reação no dia 1 de julho, caso ganhe Andrés Manuel, será: ‘não posso acreditar, ganhamos’.

Você foi convidado pela candidata ao governo do Distrito Federal da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, do partido Morena, para ser secretário de cultura?

Não. Fui nomeado para preparar o programa de cultura para seu governo. Terminou em poucos dias e aí termina meu compromisso.

Não existe nenhuma chance de possa ser o secretário de Cultura da Cidade do México?

Não existe nenhuma chance, até porque Claudia Sheinbaum não anunciou quem será seu possível gabinete. Não nomeou porque está esperando os resultados para saber como combina a composição do governo nacional e local.

Quais são as necessidades culturais hoje da Cidade do México?

Trabalhamos muito nesse programa cultural para a Cidade do México. Por um lado construímos uma espécie de lastro, que implica na democratização da oferta cultural. Vamos levar mais de mil festivais por ano, em todos os bairros, mesmo aqueles que nunca tiveram um festival.

Vamos levar música, teatro, cinema, dança, tudo. Isso significa que haverá 80 festivais por semana. Vamos construir bibliotecas itinerantes, espaços de oficinas de artes, onde aqueles alunos que forem avançando e destacando-se terão oportunidades. No primeiro ano de governo vamos distribuir 1 milhão de livros gratuitos.

Alguns intelectuais acreditam que seu papel é observar a política de longe, sem se envolver diretamente. O que pensa sobre o papel do intelectual?

Quando você desperta de manhã, você é várias coisas: pai de família, escritor e cidadão. De vez em quando essas coisas se juntam e então é cidadão e escritor. Isso implica envolver-se. Creio que a condição de observador é válida. Alguém tem que estar de trás para contar, mas não é excludente. Alguém tem ali dentro para fazer. Isso quer dizer que talvez vou ter menos tempo para me dedicar à atividade de escritor, mas a vida é assim, já escrevi muitos livros, não tenho problema.

Então você tem pensado em participar ativamente da política?

Eu já participo, militando há 50 anos.

Me refiro ao fato de que você poderia exercer um cargo público, ser um funcionário do Estado.

A palavra funcionário não me atrai, os funcionários são por definição seres que não funcionam.

Gostaria sair um pouco da política para falar de literatura. Seus últimos livros, uma trilogia sobre a história do México, vendeu 100 mil exemplares. Esse estilo de livros históricos também fizeram sucesso no Brasil. Você acha que há mais interesse dos leitores em livros históricos?

Acredito que há muito interesse nesse tema. Minha produção narrativa está dividida entre novela policial, novela histórica, contos, roteiro de história em quadrinhos, livros históricos e gosto muito de história narrativa. A biografia de Che Guevara chegou a 1 milhão de exemplares, foi vendida em todo o mundo. A biografia de Pancho Villa vendeu 400 mil. Sem dúvida há interesse. Discuto sobre livros com gente na rua. Tem gente que diz, ‘essa parte eu gosto, mas…’. Então aí começa uma discussão com a metade da rua, com um cara que está arrumando relógio e tem seu livro todo cheio de marcas e manchas. Esse tipo de livro tem outra virtude enorme, pois transcende os espaços de classe média como consumidores de cultura. A narrativa histórica chega mais além. É muito interessante como impacta outros setores da população que estudou o ensino médio, mas que logo a vida os levou a trabalhar e que voltam a ler aos 50 anos. O interesse pela História é imenso no México. Em outras partes do mundo suspeito que também.

Você acredita que faz falta recontar as histórias de outros personagens históricos latinos?

Sempre. As histórias precisam ser recontadas sempre. Porque as construções de identidades são fundamentais para a sociedade. De onde venho? E portanto, para onde vou? Quais são minhas referências? Pense que a cultura mexicana, que está sobre bombardeio norte-americano sistemático, de caráter mercantil, resiste a esse bombardeio meio da construção de uma identidade história.

O que difere a biografia escrita por vocês sobre o Che Guevara e a biografia Che Guevara: a vida em Vermelho, de Jorge Castañeda, é a linguagem que utiliza. Como escolhe a linguagem para cada personagem?

Basicamente parto de um pressuposto de que a história é o rigor da investigação, a profundidade na recompilação do fatos que marcaram os fenômenos e uma arte narrativa. Tem que saber contar. Saber contar significa que qualquer leitor de 15 anos inteligente tem que ter acesso, pelo menos, ao primeiro nível do que se está contando. Provavelmente vai deixar escapar nuances, algumas piscadas que lançamos ao leitor, que pescará um leitor mais habilidoso, mais instruído. Mas, esse acesso tem que existir. Tem que buscar contar a história com um alto componente narrativo mas que não interfira no rigor da investigação. Essa é a batalha.

Como descobrir a alma de personagens como, por exemplo, Pancho Villa. Desde o inicio do livro você descreve coisas muito pessoais de uma pessoa que jamais conviveu, que muitas coisas não se encontra nos arquivos?

Esse livro está escrito página por página base em pesquisas de arquivos, como testemunhos de pessoas da época, informações jornalísticas, cartas, telegramas e diários. O livro está constuido sobre o imenso arsenal de documentação sólida. Não há uma só palavra na boca de Villa que não seja sustentada por uma testemunha.

A questão é como compor. Quanto você dedica em cantar como eram os domingos e quanto dedicas a escrever sobre a violência no mundo em que o personagem está crescendo. Como dosificar? E assim vai armando a informação. Normalmente os personagens história exigem proximidade e distância. Primeiro você se obceca e entra na vida do personagem de uma maneira que vai cansar dele, vai odiá-lo. Depois toma distância, para poder contar do lado de fora. Ao mesmo tempo, aproxima e pergunta que estava pensando nesse dia, porque ele fez foi isso e aquilo. Não vai ter resposta, mas você compartilha com o leitor a dúvida.

Como saber quando explicar alguma coisa e ser didático, mas ao mesmo tempo não cansar o leitor com informações que ele já tem?

Se o leitor te abandonar na primeira página você fracassou, por mais brilhante que seja a investigação. Tem que saber fisgar. Sou um leitor, antes de ser escritor. Fui leitor por muitos anos e sei o que te atrai em um livro. O livro te prende quando quer saber o que aconteceu, porque se identifica com o personagem, porque te inquieta, porque te deixa nervoso. Essas são as vivências de leitor e na hora de converter-se em escritor tem que ter malícia literária. Tem gente que pensa que a literatura se faz sem malícia. E malícia por ser um duplo significado, uma piscada, uma percepção.

Você escreveu um livro em conjunto com o comandante Marco, líder dos Zapatistas. Como foi essa experiência?

Foi uma história louquíssima. Uma vez chegou um porta-voz e disse: ‘trago uma proposta’. E me entregou um envelope. A proposta era escrever uma novela policial a quatro mãos. Pensei: ‘está louco’. Começamos articular e durante 12 semanas estivemos revezando os capítulos. Eu escrevi um capítulo e ele outro. E trocando notas que diziam às vezes: ‘não alargue muito esse personagem que tenho uma intenção’. Esta foi uma experiência única-  que espero repetir.

Quais são os escritores que mais inspiraram sua literatura? Tem uma identificação com o escritor mexicano Juan Rulfo?

Não me identifico com Rulfo. Tenho carinho por ele. Curiosamente me identifico muito mais com outro tipo de escritores que tem uma narrativa mais direta. Me identifico muito com os jornalistas narradores.

Estilo Gabriel García Márquez?

Estilo Ryszard Kapuściński, os escritores da realidade mais direta. Com novelistas me identifico muito com a maneira de contar da chamada ‘geração perdida’, como muito escritores que vem da tradição de novela policial, cuja ação antecede a explicação. Essa são minhas identidades.

Em algum momento buscou alguma solução para suas histórias em algum livro. Lendo Rulfo, vi que tem uma passagem muito parecida ao famoso início de Cem Anos de Solidão, de García Márquez.

Isso é normal. Muitas vezes me pergunto: ‘essa frase é minha ou vem de algum livro que alguma vez eu li?’. A literatura vai depositando na sua cabeça. Já aconteceu coisas muito curiosas como, por exemplo, uma vez tinha ideia de história para um conto, que era uma história de como Dzerzhinsky, o fundador da República Checa, durante a Revolução Russa, ficou conhecido como o monstro que exerceu a repressão. Uma pessoa que era tão boa quanto o pão, por isso o escolheu Lênin, porque era tão bom que o encarregou do trabalho mais sujo. Depois desaparece da vida pública e morre.

Eu dizia que ele não desaparecia da vida pública e reaparece cinco anos depois como o motorista da Greta Garbo, em Hollywood. Penso que é uma ideia boa para um conto, mas depois penso que essa história não é minha. A escutei uma vez em um jantar em Moscou onde havia quatro escritores russos e alguns latino-americanos. Essa história me contou um dos escritores russos. Então não a escrevo. Anos depois encontro um dos escritores e pergunto se ele ou alguém nesse jantar tinha me contado essa história. Ele me diz: ‘não, mas que boa história. Então lhe digo: “Posso contar?’. Ele disse: ‘claro, não sei de quem é’. Ainda não a escrevi e nunca soube de quem é a história.

Uma vez entrevistei Eduardo Galeano, quanto ele escrevia, se era todos os dias…

O que ele respondeu? Que sim?

Que escrevia quando coçava a mão, quando havia uma história que queria sair de dentro.

Isso significa que sim, que eram todos dos dias. Galeano era maravilhoso. Sim, escrevo todos os dias, mas há dias em que escrevo uma frase ou palavra. As vezes desperto e trabalho catorze horas. O que não tenho é obrigação. Nunca assinei um contrato adiantado para escrever um livro que ainda escrevi. Não vivo a pressão de entregar um livro no prazo. Estou escrevendo 14 livros ao mesmo tempo. Recém terminei dois livros, que serão lançados dentro de um mês. Trabalho com vários livros ao mesmo tempo.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira