Rússia 2018

Não é só um jogo: oito fatos da Copa que reforçam a ligação entre futebol e política

Estatísticas reveladoras, contradições, fascismo e antifascismo: acontecimentos para repensar o esporte e a sociedade

Brasil de Fato | Moscou (Rússia)

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Gesto do suíço Xhaqiri ao comemorar gol contra a Sérvia foi entendido como provocação política / Reprodução - Fifa

A Copa do Mundo 2018 entrou para a história pela utilização inédita do árbitro de vídeo, pela hegemonia das seleções europeias e pela eliminação precoce de seleções consideradas favoritas, como Alemanha, Argentina e Brasil.

Além dos resultados surpreendentes e das jogadas que chamaram a atenção nos gramados da Rússia, o Mundial também ajudou a comprovar a relação indissociável entre futebol e política.

Não é só um jogo. Direto da Rússia, a reportagem do Brasil de Fato selecionou os acontecimentos políticos mais importantes desta Copa, além de dados e estatísticas reveladoras sobre a realidade social dos países participantes. Confira na lista abaixo:

Sem chuteiras

Em maio deste ano, quando os Estados Unidos se retiraram do acordo de controle de atividades nucleares feito com Teerã, sanções econômicas voltaram a incidir sobre empresas estadunidenses que atuam ou fazem negócios com o Irã. A menos de um mês antes do início da Copa, os jogadores da Seleção Iraniana se viram sem chuteiras.

“As sanções significam que, como uma empresa norte-americana, a Nike não pode fornecer chuteiras aos jogadores da seleção iraniana neste momento”, afirmou o fornecedor em comunicado oficial.

Alguns jogadores usaram o próprio dinheiro para comprar chuteiras da marca estadunidense ou precisaram esperar até três dias antes do Mundial para a chegada das chuteiras fornecidas pela marca Adidas, multinacional alemã.

A Seleção do Irã ficou em terceiro lugar no grupo B, atrás de Portugal e Espanha.

O choro de Son

A derrota por 2 a 1 para o México, que praticamente eliminou a Coreia do Sul na segunda rodada da Copa, foi marcada pelo choro de seu principal jogador. Son Heung-Min, de 26 anos, via o fim de sua carreira mais próximo ao final daquele jogo.

Se não conseguir comprovar um grande feito esportivo pela seleção nacional, ele terá que cumprir 21 meses de serviço militar, obrigatório no país até se completar 28 anos. Caso isso aconteça, Son dificilmente conseguirá retomar o ritmo de jogo para voltar a vestir a camisa do Tottenham, da Inglaterra.

Diferente de vários dos companheiros de seleção, Son não estava em campo na campanha do bronze nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. A última chance de escapar do serviço militar obrigatório é vencer os Jogos Asiáticos, que acontecem na Indonésia entre agosto e setembro.

O pranto do jogador sul-coreano revelou ao mundo a face autoritária e impiedosa de um país que é vendido como território da liberdade e da democracia, em oposição à vizinha do norte. A maquiagem estadunidense, que insiste em criar narrativas opostas sobre as duas Coreias, borrou com as lágrimas de Son.

Só um técnico negro

Das 32 seleções que disputaram a Copa do Mundo, apenas uma era comandada por um técnico negro. Aliou Cissé, treinador de Senegal, foi eliminado na primeira fase nos critérios de desempate: a equipe recebeu dois cartões amarelos a mais que o Japão.

A baixa proporção de negros em postos de comando no futebol chamou a atenção dos torcedores e da imprensa, ainda mais em um torneio marcado pela presença massiva de jogadores com ascendência africana nas seleções europeias.

Coincidência ou não, Cissé tem a menor remuneração entre todos os técnicos do Mundial. Joachim Löw, da Alemanha, e Didier Deschamps, da França, são os mais bem pagos. O treinador senegalês  recebe cerca de R$ 850 mil por ano — 16 vezes menos que Tite, da Seleção Brasileira.

Mulheres no estádio

Pela primeira vez desde a Revolução Iraniana, em 1979, mulheres e homens puderam assistir a uma partida de futebol num estádio juntos. A presença de mulheres como espectadoras em competições masculinas é proibida.

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, que tem forte influência na política iraniana, vem lutando para manter essa proibição, apesar das pressões externas. Segundo o grupo religioso encabeçado por Khamenei, os estádios não são locais adequados e preparados para receber mulheres.

Em 2006, o então presidente Mahmoud Ahmadinejad emitiu um decreto para a criação de setores para mulheres nos estádios de futebol, mas a proposta foi barrada por juízes iranianos. Este ano, o atual presidente Hassan Rouhani afirmou que vai avaliar a proposta de pôr fim à proibição.

Com uma mobilização pela internet, as mulheres conseguiram pressionar as autoridades de Teerã e tiveram seu acesso permitido ao estádio Azadi, onde um telão havia sido montado para que os torcedores pudessem acompanhar as partidas do Irã nesta Copa.

Refeição inconveniente

Principal jogador da Seleção do Egito, Mohamed Salah, atacante do Liverpool, precisou atuar também fora de campo. Além dos 90 minutos jogados, na fase de grupos da Copa, Salah era tietado por convidados da Confederação Egípcia de Futebol e foi coagido a participar de jantares com políticos ligados ao país de origem.

Na refeição de despedida da Seleção do Egito, que ficou em último lugar no grupo A, Salah recebeu uma placa de cidadão honorário da Chechênia, uma das 21 repúblicas autônomas da Rússia. Ramzan Kadyrov, representante do governo russo na região, que é de maioria muçulmana, entregou o título, jantou e tirou fotos com Salah, enquanto a imprensa local fotografava cada garfada do atacante.

Salah não escondeu a insatisfação por ter sua imagem utilizada para fins políticos e de aproximação diplomática.

A provocação da águia

Um mesmo gesto após a comemoração de dois gols, que chegou a ser interpretado por narradores brasileiros como uma singela “pomba da paz”, rendeu multas e exigiu explicações e desculpas de dois jogadores suíços no jogo contra a Sérvia pelo grupo E.

Xherdan Shaqiri, meio-campista do Stoke City, da Inglaterra, tem 26 anos e é nascido no Kosovo, província da antiga Iugoslávia. O também meio-campista Granit Xhaka, do Arsenal, tem 25 anos e nasceu na Suíça, mas seus pais nasceram no Kosovo.

As famílias de Shaqiri e Xhaka migraram para a Suíça nos anos 90, após a dissolução da Iugoslávia e a escalada dos conflitos separatistas na região. Kosovo é uma área em disputa: enquanto grupos declararam unilateralmente a independência do território, em 2007, a Sérvia reivindica a região para si.

Em Kosovo, a maioria dos cidadãos têm origem albanesa. É o caso da família de Shaqiri e Xhaka. O gesto feito depois dos gols era uma representação da bandeira da Albânia.

Depois da comemoração, vista pelos jogadores sérvios como desrespeitosa, o Comitê Disciplinar da Fifa multou os jogadores Shaqiri e Xhaka em 10 mil francos suíços cada. As comemorações dos gols, que deram a vitória para a Suíça por 2 a 1, na segunda rodada da fase grupos, foram consideradas de cunho político e, por isso, passíveis de multa.

Fascismo e antifascismo na Suécia

Uma falta perto da risca da área deu a vitória à Alemanha sobre a Suécia no segundo jogo da fase de grupos da Copa. Os suecos empatavam o jogo quando o meia-campista Jimmy Durmaz cometeu a infração. Toni Kroos cobrou e fez o gol que deu a vitória ao time alemão.

Apesar do resultado, a Suécia se classificou para as oitavas de final e a eliminação da Copa veio apenas com a derrota para a Inglaterra, na fase seguinte. No entanto, horas depois daquele jogo contra a Alemanha, torcedores suecos dirigiram insultos racistas e islamofóbicos contra Durmaz, expondo o lado fascista da extrema-direita da Suécia.

Jimmy Durmaz, jogador de 29 anos que atua no Toulouse, da França, nasceu na Suécia e tem pais turcos. O jogador se pronunciou antes de um treino da seleção, ao lado dos colegas de trabalho, e condenou as ofensas e ameaças. Insultos como “blatte”, gíria sueca ofensiva aos árabes, “diabo-árabe”, “terrorista” e “taleban” foram escritos por suecos nas redes sociais do meio-campista. A Federação Sueca de Futebol prestou queixa policial sobre o ocorrido, e os jogadores gritaram contra o fascismo e o racismo em um vídeo publicado na internet.

Heranças do colonialismo

Cinco dos onze titulares da Seleção Francesa, finalista desta Copa, têm raízes na África Subsaariana. O zagueiro Umtiti é natural de Camarões. Os pais do volante Pogba nasceram em Guiné; os de Kanté, em Mali. O atacante Mbappé é filho de mãe camaronesa e pai argelino.

A Copa 2018 deixou claro que quem carrega o piano, nas principais seleções europeias, são imigrantes e filhos de imigrantes africanos.

Na delegação da Bélgica, que eliminou o Brasil, quatro jogadores vêm de famílias oriundas da República Democrática do Congo, território devastado pelo rei belga Leopoldo II entre os séculos 19 e 20. Lá morreram mais de dez milhões de nativos, usados para exploração de látex e marfim.

Entre os filhos de congoleses, estão o zagueiro Company e o atacante Lukaku, maior goleador da história da Seleção Belga e autor de quatro gols na Copa. De origem humilde, assim como Mbappé é Pogba, na França, Lukaku cresceu na periferia e venceu a fome e a discriminação por meio do esporte.

O futebol, criticado por ser uma ferramenta de alienação, tornou-se um convite para se estudar a história do colonialismo, e fornece elementos únicos para se refletir sobre as condições de vida dos migrantes e refugiados na Europa.

Edição: Juca Guimarães