Coluna

Pronunciamento do comandante do Exército é por demais preocupante

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O pronunciamento de Villas Bôas na prática deixa dúvidas, o que é um perigo para a ordem democrática / Geraldo Magela/ Agência Senado
O general Villas Bôas comprometeu a imagem do Brasil no exterior

É sempre preocupante quando o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas é instado a comentar os últimos acontecimentos  no Brasil. Convocado por um jornalão paulista, O Estado de S. Paulo, a comentar o esfaqueamento do candidato Jair Bolsonaro, Villas Bôas afirmou várias coisas, inclusive que o acontecimento “é a materialização das preocupações que a gente estava antevendo de todo esse acirramento dessas divergências, que saíram do nível político e já passaram para nível comportamental das pessoas”.

Curioso que o militar silenciou quando Bolsonaro, em pronunciamento no Acre, ameaçou fuzilar os integrantes do PT, que denominou de “petralhas”. E o que disse quando  a caravana de Lula foi metralhada no Paraná e até hoje as autoridades não chegaram aos responsáveis pela ocorrência?

A verborragia radical de Bolsonaro foi uma demonstração concreta de que o candidato não esconde que semeia o ódio. Mas o general nada disse e decidiu tornar público o seu pensamento depois do esfaqueamento, por sinal um fato lamentável que está sendo aproveitado ao extremo pelos correligionários do candidato que, não de hoje, prega o ódio.

O general Villas Bôas demonstrou também que não respeita decisões do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas ao afirmar, estupidamente, que a decisão sobre a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva “fere a soberania nacional”.

Villas Bôas demonstrou também total desconhecimento sobre o fato de o Brasil ter se comprometido com a ONU a seguir o que for decidido pelo Comitê. Pega muito mal, interna e externamente, que um comandante militar, que tenta aparecer como respeitador das leis, desrespeite um compromisso assumido pelo Estado brasileiro.

Lamentável que um comandante militar se posicione desta forma, na prática se igualando ao governo extremista de Israel, que simplesmente ignora o que a ONU decide, seja no Conselho de Segurança e mesmo no Comitê de Direitos Humanos.

É a realidade brasileira atual, que deve ser repelida por quem entende que o país precisa seguir o que o Estado já tinha subscrito, ou seja, acatar a decisão do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Na prática, portanto, o general Villas Bôas comprometeu a imagem do Brasil no exterior. É também lamentável a resposta que deu a uma pergunta formulada pelo O Estado de S. Paulo sobre a possibilidade de Lula se tornar elegível e ganhar a eleição presidencial.

Na resposta, Villas Boas, depois de afirmar que “nós somos uma instituição que serve ao povo”, complementou assinalando que “o pior é termos alguém sub judice, afrontando tanto a Constituição quanto a Lei da Ficha Limpa, tirando a legitimidade, dificultando a estabilidade e a governabilidade do futuro governo e dividindo ainda mais a sociedade brasileira”. E em seguida defendeu efusivamente a Lei da Ficha Limpa, mas ignorou os argumentos da defesa de Lula sobre a falta de provas na condenação.

Por mais que afirme que o Exército e as demais instituições das Forças Armadas são legalistas, o pronunciamento de Villas Bôas na prática deixa dúvidas, o que é um perigo para a ordem democrática, que não suporta bravatas e também pronunciamentos contraditórios como o do general comandante militar.

Para quem tem boa memória, no período que antecedeu ao golpe empresarial militar de abril de 1964, generais que participaram ativamente da quebra da ordem constitucional, entre os quais o próprio primeiro general de plantão, Castelo Branco, também se posicionavam em favor da legalidade democrática, que acabou sendo rompida. É claro que a realidade de abril de 1964 e a de setembro são distintas, mas, mesmo assim, é preciso muita atenção sobre pronunciamentos de militares da ativa atualmente.

Por estas e muitas outras que podem surgir por aí, todo cuidado é pouco.

Vale acrescentar também que as declarações do general Villas Bôas foram dadas antes do novo posicionamento do Comitê de Direitos Humanos da ONU em favor da candidatura de Lula e, assinale-se ainda, até que ponto, na prática, o general Villas Bôas não está exercendo pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), que vem a ser a instância máxima da justiça brasileira?

Edição: Jaqueline Deister