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A rebelião das mulheres que dizem “Não” dialoga com um futuro de esperança

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Emmeline Pankhurst (segunda à direita) com a filha dela, Christabel, e outras líderes do movimento sufragista da Inglaterra / Wikipedia
“Prefiro ser rebelde a ser escrava”, dizia Emmeline Pankhurst

Neste sábado (29), mulheres vão se concentrar junto a uma estátua de mulher num parque de Londres. Em 1930, quando aquela estátua foi inaugurada, o ex-primeiro-ministro inglês, Stanley Baldwin, afirmou que a homenageada conquistara “um lugar no Templo da Fama para toda a eternidade". Os jornais também foram pródigos em elogios. O New York Herald Tribune, por exemplo, descreveu a figura como "a agitadora política e social mais notável do início do século 20”. 

Cem cidades do país e do mundo sediarão atos de mulheres contra a ascensão do fascismo no Brasil. Estão programados para as capitais e principais cidades do país mas também ocorrerão nas vitrines do planeta: Paris, Nova York, Berlim, Haia, Lisboa, Buenos Aires, Sydney, Montreal etc. Em Londres, o ato acontecerá à sombra inspiradora de estátua de Emmeline Pankhurst. Tudo a ver.

Da mesma forma que as brasileiras do século 21 se revoltaram, Emmeline também fez a sua rebelião no século 19 que prosseguiu no século 20. Sua luta era pelo direito das mulheres ao voto, um dos primeiros passos da emancipação feminina. Na época, entendia-se que as inglesas não deveriam votar pois seriam incapazes de entender como funciona o parlamento…

Na militância, Emmeline apanhou da polícia, foi presa, e fez greve de fome. “Prefiro ser rebelde a ser escrava”, dizia. Demorou mas o voto feminino na Inglaterra veio em 1918. A lei permitiu o vo­to de mais de 8 mi­lhões de inglesas. A vitória das sufragistas sacudiu a Inglaterra, inspirou outras mulheres de outros países e foi semente de um mundo melhor e mais igualitário. Por coincidência, comemora-se o centenário deste acontecimento justamente neste ano, 2018. 

Parece distante da atual agenda do Brasil mas se observarmos o retrocesso feroz que nos bate à porta - quando estamos sob risco de regredir como nunca na nossa história - vemos que não estamos tão longe assim. Que a ascensão atual do machismo e da misoginia resulta na violência que ameaça, agride e até mata. Vive-se num ambiente onde passou a ser corriqueiro ouvir que as mulheres deveriam, por exemplo, receber salário inferior aos homens. Ou que sua vinda ao mundo é o resultado de “uma fraquejada” do pai.    

A diferença é que, agora, as mulheres preparam sua resposta. A bola do jogo está com elas neste enfrentamento que começou virtual mas que promete se espraiar cada vez mais pela vida real. Desde já é o acontecimento mais promissor da disputa eleitoral. Antes dos homens, são as mulheres que dizem “Não”. “Elenão”. Como narra a versão brasileira da velha canção Bella Ciao, as mulheres despertaram. Elas encarnam, como dizem os versos, “A Resistência/ De um Brasil sem fascismo e sem horror”.  

Se tantos fatos são sombrios e agressivos, este, a rebelião das mulheres que dizem “Não”, é algo que dialoga com um futuro de esperança. É o que o próximo sábado haverá de demonstrar.

Edição: Daniela Stefano