INVESTIGAÇÃO

Em 48 horas, caso Marielle ganha novos contornos e complica Flávio Bolsonaro

Familiares de milicianos, suspeitos de envolvimento na execução da vereadora, trabalharam no gabinete de Bolsonaro

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Jair e Flávio Bolsonaro nunca esconderam simpatia por milícias no Rio de Janeiro / Sergio Lima/AFP

Conhecidas por exterminar, torturar, ameaçar, extorquir, lavar dinheiro e cometer uma série de outros crimes contra a população de comunidades, as milícias chegaram ao noticiário nacional e internacional nos últimos dias pelas mãos da família Bolsonaro, que atualmente ocupa cargos em assembleias legislativas, no Congresso Nacional e o cargo público mais importante do Brasil.

Na última terça-feira (22), ao deflagrar a "Operação Os Intocáveis", na comunidade de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, o Ministério Público e a Polícia Civil mostraram que ex-policiais milicianos são apenas o início de um caminho bem mais tortuoso do crime organizado.

Em novembro do ano passado, o então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou que “sem sombra de dúvidas”, a morte da vereadora Marielle Franco (Psol), ocorrida em março de 2018, envolve “milicianos, agentes públicos e políticos”. Mas poucos resultados apareceram depois da declaração.

Nas horas que se seguiram à “Operação Os Intocáveis”, porém, vários fatos vieram à tona. A Polícia e o MP, que investigavam as ações criminosas em Rio das Pedras, chegaram aos chefes da milícia Escritório do Crime, suspeita de envolvimento na morte de Marielle.

Novas peças foram formando um ainda nebuloso quebra-cabeças ao longo do dia. Os dois milicianos foram homenageados na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) pelo ex-deputado e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) com a mais alta honraria do Poder Legislativo do Estado, a Medalha Tiradentes. Quando recebeu a homenagem, o major Ronald já era investigado por participação em uma chacina na Baixada Fluminense.

Ainda na terça-feira (22), a imprensa divulgou a informação de que a mãe e a mulher do miliciano e ex-capitão do Bope Adriano Magalhães trabalharam até novembro passado no gabinete de Flávio Bolsonaro. A mãe, Raimunda Veras Magalhães, tinha salário de R$ 6.490,35 e repassava parte dele para Fabrício Queiroz, o ex-motorista de Flávio que vem sendo apontado como possível "laranja", termo dado a quem empresta seu nome para ocultar o nome de outro em crimes de lavagem de dinheiro e corrupção.

Segundo o jornal O Globo, Queiroz se escondeu durante duas semanas em Rio das Pedras, quartel-general dos milicianos, quando explodiu em dezembro do ano passado o escândalo dos R$ 7 milhões em movimentações bancárias entre 2014 e 2017, das dezenas de envelopes depositados religiosamente na conta de Flávio e de um cheque de R$ 24 mil destinado à primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Família Bolsonaro e as milícias

Mas a simpatia da família Bolsonaro com a milícia não é uma novidade. Sempre que teve a oportunidade, Jair Bolsonaro, ainda como deputado na Câmara Federal, fez elogios às milícias e afirmou que elas seriam “bem-vindas” no Rio. Flávio foi contra a instauração da CPI das Milícias e foi o único deputado da Alerj a votar contra a concessão da Medalha Tiradentes para Marielle em abril do ano passado.

No perfil do Instagram de Flávio há um registro dele com o pai, Jair Bolsonaro, a tesoureira do PSL e assessora da liderança do partido na Alerj, Valdenice de Oliveira. Ao lado deles estão os irmãos gêmeos da assessora, os PMs Alan e Alex Rodrigues Oliveira. Os dois trabalharam como voluntários na campanha de Flávio e foram presos por crimes como extorsão na Operação Quarto Elemento. “Essa família é nota mil”, comentou o senador eleito.

Presidente da CPI das Milícias quando esteve na Alerj, o deputado federal eleito Marcelo Freixo (Psol) disse que as explicações devem ser dadas não apenas por Flávio, mas pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. “Sabe quem indicou a mãe e a mulher do miliciano para o gabinete de Flávio Bolsonaro? Queiroz, o amigo de longa data de Jair Bolsonaro. O presidente também deve explicações à sociedade”.

Nesta terça-feira (22), Flávio voltou a afirmar que sofre perseguição do Ministério Público e que seu sigilo foi quebrado. No entanto, as comunicações entre o Coaf e o MP estão previstas em lei e na jurisprudência e não constituem quebra de sigilo. O MP informa ainda que investiga em condições de igualdade outros citados no relatório.

A defesa de Flávio afirma que ele é investigado enquanto o Ministério Público afirma que o ex-deputado é tratado, na esfera criminal, como testemunha. Essa interpretação pode dar destinos diferentes ao caso. O investigado tem direito de conhecer previamente o processo e tem direito ao silêncio para não produzir provas contra si. 

Flávio, que defendeu ao lado do pai o fim do foro privilegiado durante a campanha eleitoral, usou o recurso ao pedir que sua investigação fosse levada para o Supremo Tribunal Federal (STF), onde o ministro Luiz Fux suspendeu o caso. O ministro relator, Marco Aurélio Mello, assume o caso em fevereiro e já adiantou que costuma rejeitar pedidos com argumentos similares.

Escândalo ofusca Bolsonaro em Davos

A participação do presidente Jair Bolsonaro no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, foi ofuscada pelo escândalo envolvendo sua família. Nesta quarta-feira (23), em entrevista à agência de notícias Bloomberg, o presidente disse que “se por acaso ele [Flávio] errou, e isso for provado, eu lamento como pai, mas ele terá que pagar o preço por essas ações”.

Mais tarde, Bolsonaro cancelou uma coletiva à imprensa internacional, na Suíça, em que participaria com os ministros Paulo Guedes (Economia), Sergio Moro (Justiça) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). A reação de Bolsonaro surpreendeu até mesmo a organização do Fórum. Um assessor do presidente alegou “comportamento antiprofissional da imprensa”.

Edição: Mariana Pitasse