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Historinhas curtas

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13 de Março de 2019 às 07:00

Ouça o áudio:

Saíamos andando por ruas do centro de São Paulo, cheias de gente a pé, e quando chovia ficava aquele mar de guarda-chuvas / Rovena Rosa/Agência Brasil
Dizia: O povo brasileiro não está preparado para andar de guarda-chuva

Andei me lembrando de umas coisas que não justificam uma crônica inteira mas acho divertidas. Então juntei três delas. 

A primeira é sobre um colega de trabalho que tive há muito tempo, o Heitor, que se negava a usar guarda-chuva. Às vezes, saíamos andando por ruas do centro de São Paulo, cheias de gente a pé, e quando chovia ficava aquele mar de guarda-chuvas. Só o Heitor tomando chuva e se negando a usar o dito-cujo. E levando barbatanas de guarda-chuva na testa, no rosto e até nos olhos. Ele virava pra mim e dizia: “O povo brasileiro não está preparado para andar de guarda-chuva”.

A segunda é sobre jogar na loteria. Você está querendo fazer só uma fezinha e tem que enfrentar uma fila de gente pagando contas de luz, água, telefone e carnês do baú da felicidade, sacando dinheiro, pondo crédito em telefone pré-pago e não sei que mais. Haja saco! Numa casa lotérica perto de casa, era pior ainda: tinha uma velhinha que ficava o dia inteiro à toa ali perto. Quando se formava uma fila grande, na hora do almoço, ela entrava ostensivamente usando seus direitos de idosa, furava a fila, fazia seu jogo bem devagarzinho e demorava procurando dinheiro na bolsa para pagar.  

Nessa mesma lotérica, um dia, estava na fila para jogar e, de repente, ouvi latidos finos atrás de mim. Uma mulher estava com um cachorrinho pentelho no colo e ele não parava de latir. Ela olhou para mim e disse em tom de cobrança: “Ele não gosta de gente de boné”, insinuando que eu devia tirar o boné. Eu respondi que não gosto de cachorro pentelho. Não tiro o boné nem pra gente pentelha, vou tirar pra cachorro pentelho?

Para terminar, aí vai uma historinha de fora do Brasil. Com essa zorra atual na Inglaterra, que fica naquele sai-não-sai da comunidade europeia, lembrei-me de uma coisa que não tem nada a ver com ela. Um amigo que morou em Londres na década de 1970 me disse na época que as pessoas podiam ir em cana por estarem bêbadas. Mas como não existia ainda o bafômetro, perguntei qual o critério para considerar uma pessoa bêbada. Era o seguinte: se o cara estivesse de pé, não podia ser preso. Assim, quando a polícia aparecia, tinha bêbado que se agarrava num poste, ficava de pé. Mas às vezes a polícia ficava ao lado, esperando ele se cansar e sentar. Aí, quando o cara punha a bunda no chão podia ser preso. E era.

Edição: Júlia Rohden