MANIPULAÇÃO

Artigo | Nossos Heróis

De onde vem a vergonha de ser brasileiro?

Brasil de Fato | João Pessoa (PB)

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"Quem já não ouviu inúmeras vezes expressões como '...só podia ser no Brasil' ou '...tenho vergonha de ser brasileiro'?" / Reprodução

Muitas pessoas ficaram tremendamente chocadas com o comportamento subserviente do presidente Jair Bolsonaro durante sua visita aos Estados Unidos. Parece mesmo que foram ultrapassados todos os limites de sabujice, incluindo a visita de Bolsonaro e Moro à sede da CIA. Ficamos com a impressão de que suas mentes medíocres e tacanhas não são capazes de perceber o simbolismo de tal comportamento. Ou será que nós é que estamos errados e, para a maioria dos brasileiros, ou melhor, para a maioria dos brasileiros “que importa”, a classe média e a elite, a sua visita e sua subserviência serão vistas como algo positivo? Não podemos nos esquecer de que somos constantemente bombardeados com propagandas, filmes e expressões que atribuem aos americanos características de semideuses, ao passo que nós mesmos somos retratados como irracionais, estúpidos, desonestos e até mesmo como animais. Quem já não ouviu inúmeras vezes expressões como “…só podia ser no Brasil” ou “…tenho vergonha de ser brasileiro”?

Afirmações depreciativas como essas muitas vezes são expressas por quem não tem a menor condição, legal ou moral, de fazê-las, como é o caso da recente fala do ministro da educação, Ricardo Vélez Rodrígues, um colombiano, que chegou a dizer que somos canibais. É certo que muito disso pode ser entendido observando-se que estamos vendo no governo do país, pessoas absolutamente sem noção alguma, desprovidas de qualquer traço de boa educação ou bom senso. Certamente não são pessoas que se destacam por sua inteligência. No entanto, vemos que tal estratégia funciona, pelo menos com a classe média.

Mas, é justamente o fato de funcionar, juntamente com esse último aspecto, a inteligência, ou melhor, a falta dela, que nos faz pensar que não devem ter sido nossos governantes os autores intelectuais dos impropérios que veiculam. Isso deve ter tido outra origem e os mesmos devem estar apenas repetindo, talvez em uma escala maior e de uma forma mais chocante, o que ouvem no convívio com seus pares: amigos, parentes, associados, vizinhos de condomínio, etc.. Enfim, a parte mais rica de nossa sociedade, a elite, a turma da bufunfa. Mas seria muita ingenuidade nossa acreditar que essa turma, que tem se mantido por cima no Brasil por 500 anos, seja tão medíocre e grosseira como nos quer fazer acreditar o comportamento de seus representantes eleitos. Certamente não o são. Logo, deve haver uma boa razão para que fiquem repetindo continuamente essas barbaridades. E essa razão só pode ser uma: a manutenção de seus privilégios.

Fica muito mais fácil para a elite manter seus privilégios e seu poder se ela nos convencer que somos desonestos, incompetentes e vagabundos. De quebra, não só manterão seus privilégios, como nós todos, acharemos muito justo que os tenham. Na verdade, construíram toda uma teoria para nos convencer de que são o que são, por conta de seus próprios méritos, de sua garra, dedicação e força de vontade: é a chamada meritocracia (vejam como eles sempre escolhem os nomes que significam justamente o contrário daquilo que realmente é). Segundo ela, nós somos o que somos porque somos ignorantes, desonestos e vagabundos. Não importa o fato de terem nascido em berço de ouro, filhos de famílias com grana e poder, que lhes pagou as melhores escolas, os melhores professores e de viverem suas vidas em ambientes que sempre lhes proporcionaram os melhores contatos e oportunidades.

No dizer deles, as oportunidades são iguais para todos, assim como a lei seria igual para todos. Isso é dito assim, na cara lisa, como se não víssemos todos os dias que a realidade não é assim. Para eles é importante que essa tecla seja batida todos os dias, todo o tempo, para que nos sintamos diminuídos e nos mantenhamos quietos, aceitando passivamente todas as violências que nos são impostas. E sempre que algum de nós se ergue diante dos demais e realiza alguma façanha digna de admiração, precisam rapidamente abafar o caso. Não se pode permitir que o povo conheça seus heróis e que os cultue.

Cazuza nos dizia que seus heróis morreram todos de overdose. Não é estranho que os heróis dele fossem todos drogados? Não quando verificamos quais são as pessoas que a mídia e a elite tentam nos fazer crer que são as que são merecedoras de nossa admiração. Estão aí os BBB da vida e muitos outros programas de futilidades para fazer a cabeça de nossos jovens. Mas esses não são nossos verdadeiros heróis.

Nossos heróis são as merendeiras, como a Sra. Silmara Morais que, na escola Professor Raul Brasil, em Suzano, fez barricada com freezer para salvar os alunos de dois assassinos; são as professoras, como a professora Heley Abreu, que morreu tentando impedir que um desequilibrado ateasse fogo ao próprio corpo e incendiasse uma creche na cidade de Janaúba, em Minas Gerais, causando a morte de pelo menos 6 pessoas, principalmente crianças. Nossos heróis são como o sargento Márcio Alexandre Alves, que foi o primeiro a entrar na escola de Realengo e impedir que o atirador fizesse mais vítimas; nossos heróis são os bombeiros e voluntários de Mariana e Brumadinho, sempre esquecidos e nunca homenageados pela mídia. Nossos heróis são como o Sr. Reinaldo de Souza Limeira Jr., pai de uma das vítimas assassinadas em Suzano, que não só perdoou o assassino de seu filho, uma criança como ele, como também pediu veementemente que a morte de seu filho não fosse usada para estimular o ódio e a violência. Como pessoa inteligente e esclarecida que é – não, não somos brutos, não somos animais – identifica claramente a polarização da sociedade pelo ódio e o estímulo que esse ódio recebe nas redes sociais. Precisamos perceber que ao repercutir e compartilhar mensagens de ódio, estamos fazendo o jogo da elite e nos condenando a mais sofrimento. São pessoas como o Sr. Reinaldo que deveriam estar apresentando os programas na hora do almoço e no final da tarde, e não os Datenas e Samukas da vida. É interessante observar até que o vídeo do programa Brasil Urgente, disponível em https://youtu.be/qzVslb_jDQE, em que o Sr. Reinaldo faz esse apelo, sequer apresenta seu nome. Eles precisam que ninguém se lembre dele.

Nossos heróis não podem ser reverenciados, devem ser esquecidos. E, se isso não for possível, devem, ser massacrados, fuzilados, como fizeram com Marielle Franco, que ousou defender favelados da sanha assassina de milicianos. Ou então perseguidos, aprisionados, impedidos de falar ao povo, como estão fazendo com o presidente Lula, o maior presidente que o país já teve e que ousou dedicar sua atenção e uma pequena parte do orçamento para o benefício do povo, inclusive para instruí-lo, educá-lo e possibilitar que seus filhos se tornem doutores. Mas, na visão deles, Lula cometeu ainda um crime muito pior do que estes: ele nos devolveu a esperança, a confiança e a autoestima. Com ele, passamos a acreditar que somos capazes de qualquer coisa, inclusive conduzir o Brasil.

Não podemos deixar que nossos heróis sejam esquecidos, não podemos permitir que sejam perseguidos, não podemos aceitar que sejam ou continuem presos. É preciso gritar sempre: MARIELLE VIVE e LULA LIVRE

*Integrante do Coletivo Cotonete

Edição: Heloisa de Sousa