Coluna

Oito anos de persistência e resistência contra os agrotóxicos e pela vida

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02 de Abril de 2019 às 12:10
Protesto contra o uso de agrotóxicos em frente a câmara dos vereadores do Rio de Janeiro / Fernando Frazão/Agência Brasil
A Campanha ainda é uma ferramenta importante? Como posso fazer parte desta luta?

Por Grupo Operativo Nacional*

Se olharmos a nossa volta, tudo leva a crer que não há o que se celebrar. Recorde de registros de agrotóxicos, ruralistas no poder como nunca antes, perspectivas claras de afrouxamento das leis ambientais, e, a cada dia, quando achamos que o fundo do poço chegou, vemos que é possível piorar um pouco mais.

Ainda em 2010, a construção da Campanha foi fruto de uma intensa articulação entre movimentos sociais do campo, organizações de apoio à agroecologia, sindicatos e entidades públicas de pesquisa, especialmente no campo da saúde. 

Naquele momento, a denúncia dos efeitos dos agrotóxicos ainda atingia um público muito restrito. Era necessária uma ferramenta para massificar a luta e mobilizar amplos setores da sociedade, no meio rural e também nas grandes cidades. E assim, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida foi lançada em 7 de abril de 2011. 

Campanha Permanente pode soar controverso, mas o nome reflete o contexto em que o movimento se insere: a necessidade de mobilização, agitação e propaganda, são elementos típicos de uma campanha; já a complexidade e enraizamento do problema são permanentes: após 50 anos de revolução verde, a luta contra o pacote das multinacionais do agronegócio e a construção de um projeto agroecológico em contraposição não poderiam ser de curta duração.

Outra compreensão importante refletida no nome da Campanha se refere à necessidade de carregar sempre junto à denúncia o anúncio. Optamos por trazer conosco sempre a mensagem de que outro modelo de produção é urgentemente necessário. Este modelo, que atende pelo nome de agroecologia, já possui bases sólidas que pavimentam um caminho rumo a uma sociedade em que o alimento saudável seja o elemento estruturante das políticas de saúde, educação, trabalho, renda, desenvolvimento etc. Por isso, não só Contra os Agrotóxicos, mas também Pela Vida.

Se a Campanha foi criada por conta do avanço dos agrotóxicos e do agronegócio, certamente a situação hoje é mais grave. De 2011 a 2017, de acordo com o Ibama, o volume de vendas de ingredientes ativos de agrotóxicos saltou 30%, enquanto a economia cresceu apenas 0,5% no período. A área plantada de soja, por sua vez, teve aumento de 41%, e a produção do grão cresceu 53%.

Por outro lado, se outro fator que impulsionou o surgimento da Campanha era a falta de conhecimento da sociedade sobre o assunto, podemos dizer que neste sentido houve avanços nítidos. Pesquisa de opinião realizada pelo Ibope/Greenpeace em 2017 revelou que 81% dos brasileiros acham que a quantidade de agrotóxicos aplicada nas lavouras é “alta” ou “muito alta”. 

Além disso, a pauta dos agrotóxicos entrou de vez na agenda das organizações ambientalistas. Em 2018, a grande articulação #ChegaDeAgrotóxicos recolheu mais de 1,5 milhão de assinaturas contra a aprovação do Pacote do Veneno e pela aprovação da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos. 

Nada menos do que 320 organizações, desde grandes ONGs internacionais e movimentos sociais que atuam em todo o Brasil, até associações locais e sindicatos de agricultores assinaram um manifesto entregue aos deputados que participavam da Comissão Especial do Pacote do Veneno. Chefs de cozinha e artistas de renome se juntaram à luta, ajudando a colocar o tema ainda mais na boca do povo.

É importante notar também o crescimento do movimento agroecológico no Brasil. O Mapa de Feiras Orgânicas do IDEC já registra 841 pontos de venda de produtos agroecológicos em 334 cidades, abrangendo todos os estados do país. Cerca 18.500 agricultores e agriculturas possuem o selo orgânico, sendo que metade desses se certifica de forma participativa, a partir de grupos informais, associações e cooperativas. 

Não há dúvidas de que ainda falta muito para que a sociedade brasileira, e especialmente pessoas pobres nas periferias de grandes cidades tenham acesso a um alimento saudável e livre de agrotóxicos. Mas o crescimento da agroecologia no país parece irreversível e já virou uma demanda real da sociedade. Grandes eventos de participação massiva como o Encontro Nacional de Agroecologia e a Feira Nacional da Reforma Agrária são prova concreta de que o povo quer comer comida boa. O que falta é força e vontade política para que isso aconteça.

A Campanha ainda é uma ferramenta importante? Como posso fazer parte desta luta?

Assim como em todos os campos, o rolo compressor dos retrocessos já chegou forte para quem luta contra os agrotóxicos. Se é que é possível estabelecer uma hierarquia, o campo ruralista no poder representa o que há de mais arcaico e subserviente às multinacionais dentre eles.

Neste sentido, é momento de buscarmos uma atuação harmonizada entre os diversos campos hoje engajados na luta contra os agrotóxicos, pela democracia, e por um país justo e soberano. Seguiremos formando quadros, produzindo subsídios e mobilizando a sociedade para a luta, sem baixar a cabeça nas derrotas e celebrando – sempre – nossas conquistas e a nossa existência.

Acesse http://contraosagrotoxicos.org e conheça mais sobre nossa história e nossas produções. Vida longa a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida!

* O Grupo Operativo Nacional da Campanha é formado por representações das seguintes organizações: ABA, Abrasco, ANA, CUT, Fase, Fiocruz (GT Agrotóxicos), MST e Terra de Direitos

Edição: Daniela Stefano