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A arte da revolução será internacionalista

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12 de Abril de 2019 às 11:47
Coleção de jornais Iskra da Biblioteca e Memorial de Marx e Escola dos Trabalhadores, em Londres / Tings Chak
"De uma faísca o fogo se incendiará" —lema do Iskra

Mariana está enterrada entre pilhas de pôsteres no porão mofado da Biblioteca e Memorial de Marx e Escola dos Trabalhadores, em Londres. Ela é a voluntária responsável por digitalizar o vasto arquivo de pôsteres. Há um pequeno escritório, na parte de cima, onde Lenin passou dois anos, enquanto estava no exílio, escrevendo o Iskra ("faísca"), o jornal bolchevique clandestino e o coração ideológico do partido.

Sobre o Iskra, Lenin disse: “um jornal não é apenas um propagandista coletivo e um agitador coletivo, é também um organizador coletivo. A agitação política é impossível sem um jornal regular e amplamente distribuído. Suas contribuições e distribuidores formaram o núcleo do futuro partido". Há um mapa emoldurado na parede com setas vermelhas detalhando a distribuição do jornal por toda a Rússia e Europa - um lembrete das muitas vidas que foram arriscadas para que a publicação pudesse encontrar seus leitores.

Mapa da distribuição do Iskra do lado de fora do escritório de Lenin na Biblioteca e Memorial de Marx e Escola dos Trabalhadores, em Londres

Um tomo sobre a pequena escrivaninha reúne as edições antigas do Iskra. O texto bem compactado e em alfabeto cirílico não é nada convidativo. A economia de espaço na publicação parece um testemunho das condições materiais e políticas extremamente difíceis sob as quais foi produzida. Como se a façanha de lê-la fosse tão grande quanto a de produzi-la. Seria um desafio a qualquer ativista sério da era do Instagram de hoje enfrentar uma edição do Iskra.

Mas não viemos aqui pelo camarada Lenin, mas para ver a coleção do arquivo de cartazes e publicações produzidas pela Organização de Solidariedade com o Povo da Ásia, África e América Latina (OSPAAAL).

Seleção da Revista Tricontinental

Em janeiro de 1966, o povo cubano organizou a Tricontinental, uma conferência de movimentos revolucionários da África, Ásia e América Latina. Esse encontro histórico - com mais de 500 delegados e 200 observadores de 82 países dos 3 continentes - nasceu de dois grupos anticoloniais: o Movimento dos Não Alinhados, mais conciliatório, e a Organização de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos, mais radical.

A OSPAAAL emergiu dessa conferência como uma organização permanente - sua secretaria ainda está sediada em Havana - tendo o antiimperialismo e o socialismo como seus objetivos. Durante seu período de maior produção, serviu como uma importante ponte entre os movimentos de libertação nos três continentes. Um dos principais projetos da OSPAAAL foram suas publicações: o Boletim Tricontinental, com periodicidade mensal, e a bimestral Revista Tricontinental, mais analítica e teórica. O líder do Partido dos Panteras Negras, Stokely Carmichael, chamou a Revista Tricontinental de “uma bíblia em círculos revolucionários”.

Pôster dentro de uma edição da Revista Tricontinental, La Guinee Guinea (1969), de Olivio Martínez

Há algumas pilhas de revistas e boletins da Tricontinental no arquivo. Esses objetos falam de uma passagem do tempo, em condições históricas específicas. As primeiras publicações de duas cores foram impressas em um fino papel arroz, o que significava que o texto impresso de um lado vazava para o outro lado da folha. As publicações posteriores tinham capas coloridas em papel de alta qualidade, com encadernação perfeita. Ao folhear as páginas, um pedaço de papel dobrado dentro de uma das edições cai. É um pôster anunciando o "Dia Mundial da Solidariedade com a luta do povo da Guiné Portuguesa e das ilhas de Cabo Verde". Mariana, que vem de uma outra ex-colônia portuguesa, Brasil, compartilha da simples alegria de ter descoberto o pôster da maneira como ele foi projetado para ser descoberto. Uma difícil decisão precisa ser tomada: manter o cartaz em sua edição original ou de colocá-lo no arquivo de pôsteres. A última escolha foi seu destino.

Morte ao Invasor (1962) por Rafael Morante

Há uma compilação especial da Tricontinental dedicada a Che Guevara. Não tem data, mas aparenta ser da época de seu assassinato apoiado pela CIA na selva boliviana. É uma homenagem ao comandante através dos muitos cartazes que a OSPAAAL e a Casa de las Américas fizeram dele. Os estilos são tão diversos quanto os disfarces de Che. É impresso em cores. Um cartaz por página e com margens amplas. A generosidade do espaço no layout inspira reflexão e respiração. A qualidade do papel e o luxo da tinta usada impressionam, ainda mais se levamos em conta o embargo. Esse artefato impresso, através do trabalho e dos materiais por trás de sua produção, é em si uma afirmação anti-imperialista.

Gráfico digital para o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

Uma imagem para um banner para uma rede social da nova organização que estamos prestes a lançar - Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, um espaço de pesquisa global guiado pelos movimentos populares do Sul Global que se inspira no legado da Conferência Tricontinental. A inspiração vem de um pôster de René Mederos feito para o décimo aniversário da Revolução Cubana - um grupo de soldados liderados por Fidel segura seus rifles no ar e a bandeira cubana voando no fundo. Quais são as armas de hoje na batalha de ideias? No novo desenho, rifles são substituídos por canetas, pincéis e livros. Soldados são substituídos por mulheres, mães e seus filhos e filhas.

No 60º aniversário da Revolução Cubana, podemos não necessitar de luta armada na maioria dos nossos contextos, mas certamente precisamos muito mais do que canetas, pincéis e livros para travar uma guerra contra o capitalismo global, o avanço do fascismo e o colapso climático. A batalha ideológica travada pelos movimentos populares e políticos de hoje deve ser combatida não apenas com palavras, mas também com a cultura visual. Na intensa batalha sobre o visual, precisamos de pintores que possam pintar a história sobre de onde viemos, para onde iremos e como chegaremos lá.

Como os especialistas em propaganda e as crianças da escola de arte que se tornaram artistas gráficos da Revolução Cubana, precisamos de todos os trabalhadores culturais hoje - de designers gráficos a cartunistas, de programadores a poetas, de psicólogos a criadores de memes - para tirar proveito daquilo que sabemos, de forma a poder sonhar e construir um mundo que seja não apenas possível, mas necessário.

Convidamos artistas e designers autodidatas, particularmente aqueles e aquelas ligados aos movimentos populares, que se unam à nossa rede de artistas e designers.

Espero que vocês se juntem a nós.

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Edição: Luiza Mançano