Coluna

Essa é a nossa loucura

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22 de Abril de 2019 às 12:27
Marcas de bala nas paredes de Jallianwalla Bagh, Amritsar, India. / Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
O governo britânico ainda se recusa a reconhecer sua história imperialista

Por Vijay Prashad*

Em 13 de abril de 1919, cem anos atrás, o oficial britânico General Dyer fez suas tropas abrirem fogo contra milhares de indianos desarmados em Jallianwalla Bagh (Amritsar). Esse massacre mobilizou o povo indiano para a luta pela liberdade, que acabou retirando a Grã-Bretanha do sul da Ásia. Cem anos depois, o governo britânico ainda se recusa a reconhecer a brutalidade do ato e, de forma desonesta, rejeita sua história imperialista.

Quando o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador tentou levantar a questão da colonização espanhola das Américas, ele foi ignorado pelo governo da Espanha e pelo Vaticano. Nenhum dos poderes europeus gostaria de ser honesto sobre sua história de roubo e brutalidade. Isso não está na agenda deles. Abaixo está a nossa carta aberta ao governo britânico e à Europa em geral.

Paul Klee, Conquistador, 1930.

Vocês vieram a nós, séculos atrás, como comerciantes. Nossos governantes lhes deram as boas-vindas. Eles negociaram com vocês de boa-fé. Mas isso não foi suficiente. Vocês queriam dominar nossas terras, fazer nosso povo trabalhar para vocês em vez de negociar com vocês. Por que Robert Clive e a Companhia Britânica das Índias Orientais decidiram ir para as terras de Bengala em 1757? Não foi uma decisão “humanitária”. A mesma palavra usada tantas vezes nos dias de hoje para justificar guerras, do Afeganistão à Venezuela.

Depois que os ingleses tomaram Bengala, a Companhia Britânica das Índias Orientais começou a sugar sua riqueza para financiar o comércio da Grã-Bretanha com a China e para encher os cofres da Monarquia Britânica e dos funcionários da Companhia. Safras afetadas por pragas atingiram Bengala em 1769, comprometendo duas colheitas de arroz em dezembro de 1769 e em março de 1770. A Companhia Britânica das Índias Orientais havia iniciado a extração de receita não regulamentada do campesinato, já duramente atingido, e negligenciou programas de alívio da fome do regime Mogol. Warren Hastings, o governador inglês de Bengala, enviou um relatório a Londres em 1772, no qual ele estima que um terço da população morreu de fome. Recentemente, os estudiosos mostraram que o número era provavelmente maior: dez milhões de mortos.

O relatório de Warren Hastings sobre a fome é largamente ignorado por vocês. Hastings é mais conhecido – se muito – por sua tentativa de impeachment entre 1788 e 1795, por corrupção. Homens como Hastings eram conhecidos como nabobs – uma anglicização de “nawab”, que significa aristocrata. O termo – usado na Inglaterra a partir de 1612 – significava um homem que tinha ido para a Índia e feito uma fortuna de pequena escala. Ou seja, o próprio primeiro-ministro, alguém que havia roubado da Índia para se engrandecer e construir a riqueza das Ilhas Britânicas. Podemos usar palavras como “ladrão” para descrever esses homens, esses nabobs? Alguns escritores gostam de ser românticos sobre esses homens e as vidas que construíram na Índia. Um livro muito popular de William Dalrymple chamado White Mughals  (Mongóis Brancos) foca em ingleses que “eram nativos”. Há glamourização na “mistura de culturas” na qual Dalrymple se concentra. Mas também há algo de podre. Há o roubo da riqueza produzida por camponeses e trabalhadores subnutridos. Existem os corpos em Bengala que jazem nas ruas, mortos de fome, em 1770.

Chittaprosad, Primeiro de maio, 1947.

As guerras para dominar o país inteiro não terminaram depois de 1757. A Companhia continuou engolindo grandes extensões de terra, usando a astúcia para jogar um aristocrata indiano contra o outro, usando a riqueza do comércio da Companhia para financiar o desenvolvimento de armas letais. Em 1803, a Companhia Britânica das Índias Orientais havia tomado Déli – reduzindo o imperador Mogol a um pensionista. A Índia gradualmente se tornou uma parte crucial de um sistema global de coleta de riqueza para a Grã-Bretanha. Ávidos pelos produtos chineses (especialmente o chá), a Companhia e a monarquia britânica descobriram que os chineses apenas aceitavam pagamento em ouro. O cultivo do ópio nas terras da Companhia criou um método para resolver os problemas da balança comercial enfrentados pela Grã-Bretanha. Os ingleses começaram a usar o ópio como forma de evitar pagar em ouro pelo chá. O comércio da droga foi um sucesso fabuloso até que os imperadores chineses tentaram bloqueá-lo, momento em que os britânicos realizaram a Primeira e Segunda Guerra do Ópio para forçar os chineses a comprar o produto.

A Grã-Bretanha tornou-se – efetivamente – um traficante de drogas em um cenário global, usando toda a força militar para oferecer ópio aos chineses, a fim de resolver um problema de balança comercial. Em meio a isso, o campesinato indígena foi forçado a cultivar o ópio e a viver quase como escravos. A Grã-Bretanha nunca reconheceu sua brutalidade. Quando a China deu uma resposta, em 1856, e apreendeu um navio pirata britânico (Arrow), o Lorde Palmerston afirmou que a Grã-Bretanha deveria entrar na China com todas as armas e ensinar uma lição a “um bando de bárbaros – um bando de sequestradores, assassinos e envenenadores”. A palavra “bárbaro” é chave. Foi usada para descrever aqueles que os britânicos queriam dominar. Nos arquivos da Índia, há diversos registros de incidentes anteriores à revolta de 1857 que mostram ingleses espancando até a morte os meninos contratados para puxar os pedaços de tecido que refrescavam o ar; quando essas crianças dormiam no trabalho, eram recompensadas ​​com as botas dos ingleses. Nenhum desses homens foi acusado de nada; seus crimes apenas ficaram registrados em um arquivo.

Após a revolta, quando os britânicos tomaram Déli, os soldados foram amarrados a canhões e seus corpos rasgados quando esses canhões atiravam pela cidade. Bairros inteiros foram arrasados, homens pendurados em postes, seus pés comidos por porcos soltos pelos soldados britânicos.No rescaldo da revolta, a Coroa Britânica conquistou o subcontinente indiano. O saque das riquezas tornou-se rotina. O desenvolvimento social do povo indiano foi ignorado. Em 1911, a expectativa de vida dos indianos era de apenas 22 anos. Quando os britânicos finalmente deixaram a Índia em 1947, a taxa de alfabetização era de alarmantes 12%. A Grã-Bretanha recebeu dinheiro da Índia, tornou a Inglaterra um dos lugares mais ricos do mundo e deixou a Índia desolada. A economista Utsa Patnaik examinou cuidadosamente o “escoamento” dessa riqueza para o Reino Unido. Ela acredita que entre 1765 e 1938, a transferência de riqueza chegou a 9,2 trilhões de libras (45 trilhões de dólares). Entre 26% e 36% do orçamento do governo indiano era transferido. Tal riqueza foi usada como fonte inicial para o desenvolvimento da Inglaterra. Toda a Revolução Industrial inglesa – estudada por seus avanços tecnológicos – foi financiada por esse saque da Índia e pelo comércio triangular de escravos no Atlântico. Foram os povos da África, Ásia e das Américas que financiaram a tecnologia da Europa. Foi a riqueza americana, africana e asiática que permitiu que as universidades europeias prosperassem e que os estudantes europeus criassem essas inovações. Dentro do motor a vapor de James Watt está o sangue de um trabalhador africano escravizado nas plantations e de um camponês indiano faminto.

José Clemente Orozco. A Luta no Oriente: Escravidão, Imperialismo & Gandhi, 1930.

Nem os indianos, os africanos, nem os povos indígenas das Américas aceitaram esse tratamento. Eles se rebelaram, lutaram por um mundo melhor. Mas cada rebelião foi recebida com força brutal. Recordamos alguns desses momentos de brutalidade, sendo a repressão em Jallianwala Bagh uma das mais importantes.

Em 1919, na cidade de Amritsar, pessoas sensíveis e decentes se juntaram em uma reunião pública contra o império britânico. O coronel Reginald Dyer levou sua força para um beco estreito, a única entrada e saída do jardim onde as pessoas estavam. As forças de Dyer abriram fogo contra homens e mulheres desarmados que tinham vindo para levantar suas vozes contra o imperialismo britânico. Dyer depois disse que suas tropas mataram 379 pessoas e feriram 1100. O Congresso Nacional Indiano disse que as tropas de Dyer mataram 1000 e feriram 1500. A questão não é apenas os números, mas a crueldade e o fato de que, quando Dyer retornou à Inglaterra, foi recebido como um herói. Diversas pessoas – do escritor Rudyard Kipling à família real – consideraram que Dyer foi irrepreensível. Isso não é meramente uma anomalia histórica. O governo britânico nunca pediu desculpas pelo massacre. Quando o marido da atual rainha visitou o jardim, ele disse que o número de mortos era “exagerado”. Nenhum governo na Grã-Bretanha teve a decência de condenar este ato brutal. Há uma razão para isso: condenar a brutalidade de Dyer é condenar o império britânico.

Condenar o império britânico é levantar questões sobre os grandes benefícios que hoje a Grã-Bretanha desfruta devido à riqueza roubada da Índia. Não há dúvida de que a Grã-Bretanha – uma ilha tão pequena – não teria sido nada sem a sua história imperial. Questionar o Império significa questionar a jornada que a Grã-Bretanha tomou para chegar à sua situação atual.

Gazbia Sirry, A pipa, 1960.

Condenar o império também levantaria questões sobre a Índia hoje. Entre 1900 e 1946, enquanto a economia da Grã-Bretanha crescia, a renda per capita na Índia estagnava. A Grã-Bretanha aproveitou os ganhos do indiano comum e usou-o para desenvolver a Grã-Bretanha e combater suas guerras. Foi esse roubo de recursos indianos que levou à Fome de Bengala, de 1943, onde pelo menos três milhões de pessoas morreram. A Grã-Bretanha desviou comida da Índia e forneceu pouco ou nenhum alívio à fome para as pessoas na costa de Bengala. O império britânico começou com uma fome (1769-1770) e terminou com uma fome (1943). Isso define, para nós, o próprio império.

Mas a fome não é a única medida. Professor Patnaik analisa o consumo de grãos na Índia. O declínio no início do século XX é dramático: de 200 kg per capita (1900) para 157 kg per capita (1939) e 137 kg per capita (1946). Há uma razão pela qual os camponeses e os pobres urbanos se reuniram para combater o colonialismo britânico: o império estava fazendo a Índia passar fome. Nada disso é lembrado por de maneira honesta.

Fazemos um apelo para que vocês se lembrem dessa história e tenham uma atitude mais generosa em relação ao mundo em que vivemos hoje, descolonizando suas mentes e as estruturas que continuam a reproduzir a pobreza e a indignidade.

Faiz Ahmad Faiz (1911-1984) #TBT

O título deste boletim vem de um poema de Faiz Ahmed Faiz chamado This Hour of Chain and Noose [Hora da corrente e do laço]. A estrofe completa, escrita enquanto Faiz estava em uma prisão paquistanesa, diz:

Essa é a hora da loucura, essa também a hora da corrente e do laço

Você pode ter a jaula sob seu controle, mas você não comanda

A estação brilhante de quando uma flor floresce no jardim.

E se não a víssemos? Outros depois de nós veriam

O brilho do jardim ouvirá o rouxinol cantar


Penso nesse poema como penso em Chelsea Manning, Julian Assange e Ola Bini, que estão na prisão nos Estados Unidos, Reino Unido e Equador.

On Contact, 12 de Abril de 2019 [em inglês].

Acima, falo com Chris Hedges sobre o encarceramento dessas pessoas corajosas (Para Ola, aqui está minha carta aberta). Por favor, junte-se às várias campanhas globais para a liberação deles, para acabar com essa hora de loucura, essa hora de cadeia e laço.

*Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor Geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Edição: Luiza Mançano