Coluna

A vida e o povo jamais nos decepcionam

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10 de Junho de 2019 às 10:45
Dossier no. 17 Venezuela e as guerras híbridas na América Latina / Instituto Tricontinental
Hugo Chávez entendeu que não bastava construir o socialismo em um único país

Por Vijay Prashad*

Não faz muito tempo, a Venezuela era o epicentro de uma nova dinâmica revolucionária. Eleição após eleição – todas validadas por autoridades internacionais – mostravam que o povo venezuelano desejava manter o controle de seus recursos e construir um país para o povo e não para as grandes corporações. Hugo Chávez, com seu imenso carisma, entendeu que não bastava construir o socialismo em um único país; a região toda deveria ser atraída para uma nova dinâmica. Construindo a partir do legado de Simón Bolívar (1783-1830), Chávez inspirou milhões de pessoas em toda a América Latina – chamada também de Pátria Grande ou Nuestra América (Nossa América) – a se juntar à Revolução Bolivariana. Não haveria solução para os imensos problemas da região se cada país permanecesse dependente dos Estados Unidos da América, da Europa e do Canadá. Se cada um se isolasse, todos continuariam fracos. Unidade foi a palavra de ordem central, razão pela qual o regionalismo hemisférico era essencial. Caracas foi a capital dessa Nuestra América, expressão que se tornou famosa pelo poeta cubano José Martí (1853-1895).

A Revolução Bolivariana, com sua promessa de solidariedade regional e desenvolvimento social, ameaçou as corporações multinacionais, que se consideram as legítimas herdeiras da terra. O bilionário canadense Peter Munk, dono da Barrick Gold, escreveu sobre Chávez e afirmou que ele era um “ditador perigoso”; Munk comparou Chávez a Hitler e pediu que o comandante fosse derrubado. Isso em 2007, há doze anos. O plano para derrubar a Revolução Bolivariana não surge a partir de uma crise particular dentro da Venezuela, nem de qualquer problema criado pelo atual presidente Nicolás Maduro. O problema de fato era – e é – a ameaça representada por uma liderança que se posiciona firmemente contra a asfixia do país por corporações multinacionais. O problema é um país tentar produzir um novo caminho para uma população que há muito está mergulhada na pobreza, apesar de sua riqueza em recursos. O significado de “Venezuela” teve que mudar. Não poderia mais significar a promessa de um revolução, mas significar um caos perigoso.

George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump – os três presidentes dos EUA na Casa Branca durante o período da Revolução Bolivariana – tentaram, à sua maneira, derrubar Chávez e depois Maduro. Nenhum conseguiu. A urgência da ação deles foi como nos anos anteriores ao golpe de 1973 em Santiago (Chile), quando o embaixador dos EUA, Edward Korry, escreveu sarcasticamente sobre a direita chilena “que perseguia cegamente e avidamente seus interesses, vagando em uma miopia de uma estupidez arrogante”. Isso define a atual direita venezuelana. Então, escreveu Korry, já que a direita é tão “estúpida”, “lamentavelmente os EUA terão que se movimentar mais rápido” – os EUA precisavam fazer o que a direita não conseguia, em nome dos próprios Estados Unidos.

Embaixador Edward Korry para Departamento de Estado dos Estados Unidos,  5 de Setembro de 1970.

Os EUA terão que se movimentar mais rápido. Essa é a essência das operações dos EUA na Venezuela ao longo dos últimos vinte anos. Sempre foram os Estados Unidos que deram orientações e sustentação à fraca direita venezuelana. Mas os EUA não estão sozinhos nessa operação. Juntou-se – como detalhei em minha coluna – ao Canadá, cujos interesses na mineração, representados por empresas como a Barrick Gold, o deixa ansioso por uma mudança de regime. Tentativas de derrubar a Revolução Bolivariana por golpe e por deslegitimação fracassaram. Novos métodos mais sofisticados tiveram que ser criados. Esses métodos são denominados Guerra Híbrida – “uma combinação de meios convencionais e não convencionais, usando uma gama de atores estatais e não-estatais que perpassa o espectro da vida social e política”.

Nossos escritórios do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social em Buenos Aires (Argentina) e São Paulo (Brasil), com participação de acadêmicos e militantes da Colômbia, Haiti e Venezuela, produziram um completo dossiê sobre a guerra híbrida não apenas contra a Venezuela, mas contra toda inspiração que a Revolução Bolivariana produziu na América Latina – ou Nuestra América. Esse dossiê, o 17º, é um dos nossos estudos mais ricos sobre os mecanismos de poder em nosso tempo. Uma guerra híbrida não é travada necessariamente em um campo de batalha, com exércitos convencionais. É uma guerra ideológica que busca moldar a forma como a realidade é vista; é uma guerra de posição que busca definir o que está acontecendo e leva, eventualmente, a uma guerra de manobra para derrubar um governo. Maduro não deve mais ser visto como legítimo, mas como um ditador. Todo problema tem que ter sido criado por ele, toda solução deve estar disponível aos aliados de Washington, toda a realidade deve estar de acordo com a visão da Casa Branca, e não do povo venezuelano.

É claro que essa guerra de posição e a guerra de manobra – ambos os termos de Antonio Gramsci – não são tão fáceis de ganhar. Todos os recursos financeiros e tecnológicos parecem beneficiar as forças pró golpe. Mas falta-lhes um recurso importante – a comunhão com o povo. Nos últimos vinte anos, a Revolução Bolivariana cavou profundas trincheiras dentro das comunidades pobres, não apenas na Venezuela, mas em todo o hemisfério. As imagens de Chávez que são pintadas nesses barrios (comunidades pobres) não devem ser ridicularizadas. Elas significam muito para as pessoas comuns. A Revolução criou novas esperanças para milhões de pessoas que vão lutar com unhas e dentes para defender não esta ou aquela reforma, mas o grande horizonte de liberdade que se abriu diante deles.

Lorenzo González Morales, Exhumación, 2004/2016.

Não é à toa que a América Latina produziu tantas centenas de grandes poetas, a maioria deles de esquerda e militantes de vários movimentos. Eles são necessários para expandir nossa imaginação, para nos dar coragem em nossa luta e iluminar o futuro. Entre eles está Otto René Castillo (1934-1967), uma das grandes vozes da Guatemala. Castillo levou seus cadernos com ele para as selvas da Guatemala, onde pegou a arma e se juntou às Forças Armadas Rebeldes. Sua fé na capacidade das pessoas de superar as guerras contra-revolucionárias apareciam em sua poesia.

Lo más hermoso

para los que han combatido

su vida entera,

es llegar al final y decir:

creíamos en el hombre y la vida

y la vida y el hombre

jamás nos defraudaron.

O mais lindo

para quem combateu

toda sua vida,

é chegar ao final e dizer:

acreditávamos no homem e na vida

e a vida e o homem

jamais nos decepcionaram

Castillo – junto à sua companheira Nora Paíz Cárcamo (1944-1967) – foi capturado em março de 1967, levado ao quartel de Zacapa, torturado e depois queimado vivo. Junto com eles, o exército matou treze camponeses, vestiu-os com uniformes rebeldes e os deixou dispostos de forma a forjar mortes em combate (um estratagema familiar na Colômbia de hoje, como discutimos em nosso mais recente dossiê). Não foi o que ocorreu. Todos os quinze foram massacrados na base militar de Las Palmas. Esse é o método das forças pró golpe. Querem roubar a alma do povo para reduzi-lo a zumbis que devem abaixar a cabeça e trabalhar, colocando sua preciosa força a serviço do acúmulo de capital nas mãos dos tiranos da economia.

Malangatana Ngwenya, 1936-2011

Otto René Castillo não é uma figura isolada. Em todo o mundo, a arte e a rebelião se uniram para imaginar mundos diferentes do tempo da guerra híbrida. Esta semana celebramos Malangatana Ngwenya (1936-2011), o artista e militante da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).

A mãe de Malangatana era uma curandeira, uma tatuadora e uma afiadora de dentes. Uma de suas primeiras pinturas mais poderosas – inspirada em sua mãe – foi chamada de A boca da sociedade tem dentes afiados; A única maneira de destruir um monstro é arrancar seus dentes.

É hora de identificar os monstros e arrancar seus dentes.

*Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor Geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Edição: Daniela Stefano