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Protesto contra cobrança de mensalidades em universidades públicas sofre repressão

Ato organizado pela UNE é dispersado com violência em frente ao Ministério da Educação, em Brasília

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Manifestação foi interrompida por agressões e spray de pimenta por parte da força policial; um estudante foi detido acusado de depredação / Foto: Matheus Alves / Cuca da UNE

Poucos meses após o corte de R$ 5,8 bilhões nas verbas destinadas às universidades públicas e programas de fomento à pesquisa os impactos já podem ser sentidos.

Nesta terça-feira (16), em frente ao Ministério da Educação (MEC), estudantes voltaram a expor indignação com a política de arrocho de Jair Bolsonaro (PSL) e protestaram contra o projeto que autoriza a cobrança de mensalidades em universidades públicas.

Dentro do MEC, reitores das universidades federais estavam reunidos discutindo o tema.

A manifestação foi organizada pela União Nacional de Estudantes (UNE) e foi interrompida por agressões e spray de pimenta por parte da força policial. Um estudante foi detido acusado de depredação. Após negociação com advogados, o jovem foi liberado. 

O presidente recém-eleito da UNE, Iago Montalvão, fazia parte do grupo de manifestantes e afirma que o protesto foi pacífico. Segundo ele, os estudantes foram reprimidos enquanto tentavam se aproximar do Ministério para entregar suas reivindicações aos reitores de universidades reunidos no interior do prédio.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o presidente da UNE afirmou que o número de policiais militares destacados para acompanhar o protesto era maior do que o normal. “Eles chegaram com esse contingente já sem nenhum diálogo, não procuraram nenhuma liderança do movimento para buscar algum diálogo. Já chegaram para retirar os estudantes daquele local, e aí foi quando eles apelaram para a agressão, para uma violência maior e jogaram spray de pimenta, usaram cassetetes, o que fez com a manifestação se dispersasse”, relata.

Após o chamado Tsunami da Educação, Montalvão afirma que a repressão policial não intimida a luta dos estudantes e conclama a população para a próxima agenda de mobilizações: “Para nós, o dia 13 de agosto é um dia importante, é a nossa principal mobilização a partir de agora. É quando a gente vai ter condições de mostrar para o Brasil a nossa indignação e então nós estamos nos organizando bastante para isso: para reunir os estudantes nas universidades e mobilizar para o dia 13”.

Consultada pela reportagem sobre sua versão do ocorrido, a Polícia Militar do Distrito Federal informou estar fora do expediente de trabalho e pediu para ser consultada novamente nesta quarta-feira (17). Também contatado, o MEC respondeu, em nota, que "repudia o ato violento, ocorrido na tarde desta terça-feira, 16 de julho, contra policiais militares. Os PMs estavam a serviço para garantir a ordem pública e evitar possíveis danos ao patrimônio e aos servidores da sede da pasta, em Brasília". 

De acordo com o ministério, "manifestantes, organizados pela União Nacional de Estudantes (UNE) – estavam com camisetas da entidade, furaram o bloqueio feito pelos policiais na entrada do ministério e um deles arremessou um cone de sinalização na tropa. Dois militares se feriram e uma viatura foi pichada. Para dispersar os manifestantes, que tentaram invadir o prédio, foi usado gás lacrimogênio. A atual gestão do MEC, embora esteja aberta ao diálogo, esclarece que não houve contato de representantes do grupo para uma conversa com gestores do Ministério. O MEC presta todo o apoio à Polícia Militar do Distrito Federal e aos policiais lesionados".

O desfinanciamento e a cobrança de mensalidades

Para Iago Montalvão, o projeto Future-se do ministro da Educação, Abraham Weintraub, é uma ameaça à autonomia universitária. A proposta prevê que as universidades deixem de ser autarquias e, com isso, possam cobrar mensalidades.

Segundo ele, a aprovação do projeto coloca as universidades à mercê de grandes empresas do ramo. “Na verdade, pode ser uma tentativa de privatização da universidade ou uma flexibilização, como eles dizem, que, na verdade, é uma tentativa de desresponsabilizar o Estado do orçamento das universidades e fazer com que os reitores tenham que se virar para captar dinheiro com a iniciativa privada”, critica o estudante de Economia da Universidade de São Paulo (USP).

Os efeitos dos cortes de verbas na Educação já estão aparecendo, destaca Montalvão. O fornecimento de energia elétrica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, foi cortado nesta manhã. O motivo é a falta de pagamento. O funcionamento da instituição foi afetado e o Restaurante Universitário (RU), por exemplo, não pôde servir a janta aos estudantes. 

Edição: Rodrigo Chagas